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Longe dos filhos, mães de internos peregrinam

Famílias da região com internos dentro da Fundação Casa sofrem para ver os filhos em dias de visita


William Cardoso
Do Diário do Grande ABC

06/07/2009 | 07:01


A temperatura começa a subir lentamente quando elas se aproximam do prédio da Fundação Casa, no Brás, região central de São Paulo. É manhã de domingo, e as mães dos internos chegam aos poucos, apreensivas, com palavras de menos e muitas dúvidas sobre o que se passa com os filhos. É o dia da visita.

O sol surge timidamente na Rua Piratininga, entre edifícios antigos e calçadas sujas. Incontáveis bitucas de cigarro se espalham no chão, em frente à estreita porta de aço, pintada de bege. São o termômetro da tensão das mães que esperam a vez de gastar seus 50 minutos semanais ao lado de quem colocaram no mundo.

As histórias que relatam seriam plágio de O Meu Guri, de Chico Buarque, não fosse a fundamental perda da inocência. Elas reconhecem crime e castigo nos atos dos filhos. E lamentam, com a pena que cabe ao coração de cada uma.

O local serve de triagem, uma reclusão provisória até que o infrator seja conduzido à unidade definitiva. No caso dos jovens do Grande ABC (exceto os de Mauá), não há um lugar próximo das próprias famílias. O temor de rebeliões e de desvalorização imobiliária faz com que a sociedade queira o problema longe de si.

As mães, sim, elas sofrem. A auxiliar de serviços gerais Cleminda (nome fictício), 33 anos, mora em Diadema e foi ver o filho, de 15 anos, apreendido na quinta-feira. O motivo? "Ah, não sei direito, não. Morava com a avó, e estava acompanhado com outros", diz.

O que a auxiliar de serviços gerais sabe é que o salário vai encurtar o mês a partir de agora. Para chegar ao Brás, gastou em transporte R$ 8,75. Na volta, seria outro tanto - R$ 17,50, no total. É muito para quem ganha cerca de R$ 500 por mês, e tem outros três filhos menores. "Não garanto que virei toda semana. Será um domingo sim, outro não. Não tem como, pesa demais."

Cássia sonha com uma unidade mais próxima de onde mora, para estreitar laços com quem se perdeu no mundo.

É o que Luciana (nome fictício), 37 anos, já tem. Ela pode seguir a pé da casa, no Bairro do Belém, à unidade do Brás, onde o filho está há quatro dias, "não por falta de conselho". A dona de casa se coloca no lugar da colega de drama, que vive em Diadema.

"Poderia construir uma mais próxima de onde esse pessoal vive. Sem a visita, o rapaz fica até mais revoltado", diz.

‘Tinha preconceito, mas pode acontecer em qualquer família'

A dona de casa Silvia (nome fictício), 42 anos, se aproximou da lei e da ordem quando se casou. Do matrimônio com um soldado da Polícia Militar, nasceram quatro filhos. Uma das crianças, porém, se distanciou do caminho idealizado. Ontem, o adolescente de 16 anos fez com que ela tivesse uma manhã atípica, visitando a unidade da Fundação Casa, no Brás, lugar onde jamais imaginaria estar.

Moradora da Zona Norte da Capital, Silvia relata a história da família com nó na garganta e olhos cansados. O filho estudou em colégio da PM durante a infância e início da adolescência. À mãe, passava a impressão de se sentir excluído do restante da sala de aula, repleta de parentes dos oficiais - ele é órfão de um praça desde os oito anos.

Nas palavras da mãe, o motivo da exclusão teria sido o celular de um dos colegas, que desapareceu da sala de aula. Vários estariam envolvidos, mas foi ele quem pagou. Expulso do colégio, passou a se envolver com drogas há dois anos.

Silvia matriculou o adolescente em outra escola. "Levava até a aula, mas ele fugia para se aproximar de traficantes." E foram as drogas que levaram o filho do PM para o lado de dentro do portão de aço bege da Fundação Casa.

Na última sexta-feira, o rapaz foi pego com jaqueta e boné roubados. Um maior também estava envolvido, mas o filho de Silvia assumiu a culpa. A mãe se vê agora diante de situação que nunca pensou que pudesse ocorrer. "Peço perdão a Deus, por que tinha preconceito. Mas é algo que pode acontecer em qualquer família", diz.

A curiosidade por ver como os filhos estão vai se transformando em ansiedade, quando as mães notam conversa informal da reportagem do Diário com funcionário da Fundação Casa. Ele relata que aquela é uma unidade tranquila, diferente de outras onde agentes não têm controle sobre o que acontece, e são recebidos por internos na porta. Porém, mesmo por ali, lembra o funcionário, passam estupradores e homicidas, "os piores". "Meu Deus", murmuram as mães reunidas, em um misto de compaixão e interjeição.

Calada, em um canto. É assim que uma copeira de 43 anos, de Cidade Tiradentes, reage a tudo. Deixa o silêncio de lado para afirmar que as más companhias do filho a levaram até ali. "Saiu da escola e não foi para casa. Vou perguntar a ele onde eu errei", lamenta. Parece ser a pergunta de todas as demais.

Grande ABC rejeita seus menores infratores

O Grande ABC está longe de seus filhos infratores. Das cidades da região, apenas Mauá conta com unidade da Fundação Casa para atender a necessidade por vagas no cumprimento de medidas socioeducativas. Santo André, São Bernardo e Diadema se esquivam do problema há anos.

Atualmente, os municípios do Grande ABC respondem por 272 internados, sendo que apenas 48 permanecem próximos da família, em Mauá.

A reação da sociedade tem sido bastante negativa, o que atravanca qualquer negociação. Especialistas na área de estudos da violência reconhecem, porém, que o receio de receber unidades da Fundação Casa é legítimo, dado o histórico de rebeliões e fugas da antecessora Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor).

Em Santo André, a Prefeitura entrou com ação judicial que impede a instalação na desativada EE Professor José do Prado Silveira, no bairro Sacadura Cabral. O Estado ainda tem esperanças de reverter a situação. A administração municipal acena com a possibilidade de construção em terreno ao lado do Viaduto Cassaquera, espaço contaminado com chumbo e arsênio.

Na região do Alvarenga, em São Bernardo, associação de moradores e comerciantes chegou a se formar para impedir a instalação de unidade.



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