Polícia diz que identificou conexão de líderes da entidade com criminosos suspeitos de participar do homicídio de Vinicius Gritzbach
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A ONG (Organização Não Governamental) Pacto& Social Carcerário, de São Bernardo, acusada de elo com o PCC (Primeiro Comando da Capital), teria ligação com criminosos envolvidos no assassinato do delator Vinicius Gritzbach, em 8 de novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, segundo investigação policial. Em atividade desde 2019, a entidade atuava pelo direito dos presos.
Líder da entidade, o casal Luciene Neves e Geraldo Salles, presidente e vice-presidente da ONG, respectivamente, foram presos no dia 14 de janeiro, em São Bernardo, durante a operação Scream Fake. Além deles, outras dez pessoas acabaram detidas por suspeita de envolvimento com a facção criminosa, incluindo advogados. Ainda houve o cumprimento de 14 mandados de busca e apreensão em diversos municípios do Estado.
A partir desta operação, a polícia analisou o material recolhido durante os mandados, que levou a solicitação de compartilhamento de informações com outras investigações em andamento, em especial com a força-tarefa que investiga a morte de Vinícius Gritzbach.
“Materiais analisados na sexta-feira (24), reafirmaram a ligação dos criminosos com os envolvidos no assassinato do delator Vinicius Gritzbach. Com essas novas informações, a investigação confirmou que a ONG em questão foi criada e era mantida pela facção”, disse a polícia.
As diligências descobriram que Kaue do Amaral Coelho, integrante da facção e suspeito de ser o olheiro do caso Gritzbach, teria financiado a viagem do diretor do documentário O Grito à Itália. O filme da Netflix, lançado em setembro do ano passado, discute o impacto do sistema penitenciário nas famílias dos detentos. A produção mostrou ainda as manifestações encabeçadas pela ONG de São Bernardo e contou com a participação do vice-presidente da entidade, Geraldo Salles.
Para a investigação, o documentário pode ser parte de uma das atividades desenvolvidas pelo quarto setor da facção, conhecido como "reivindicações". “Esse setor é responsável por promover ações judiciais ilegítimas, com manifestações populares e denúncias sem fundamento, para desestabilizar o sistema de justiça criminal e colocar a opinião pública contra o poder estatal”, alegou à polícia.
A Polícia Civil e o Ministério Público também concluíram, após encontrarem um documento na casa dos líderes da ONG, que a entidade buscou junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos representar um ex-guerrilheiro chileno em uma ação judicial movida pelo criminoso. “Um dos assessores nomeados para representar a ONG perante a Corte Interamericana é um ex-detento do sistema penitenciário federal, com passagens por tráfico de drogas.” As investigações prosseguem a fim de analisar todo material apreendido.
A reportagem tentou contato com a entidade sobre as novas acusações, mas até o momento não obteve retorno.
O que diz a ONG?
No dia 15 de janeiro, a ONG divulgou uma nota de posicionamento sobre a acusação de envolvimento da entidade com o PCC. No comunicado, a ONG diz que atua de forma transparente e legal, sempre pautada “pelo respeito aos direitos humanos e pela busca de soluções para os problemas enfrentados por detentos e suas famílias”.
Além disso, a entidade criticou a veiculação de matérias na imprensa que abordaram a operação policial com o documentário da Netflix.
Veja a nota na íntegra:
“Nós, da ONG Pacto Social e Carcerário, viemos a público manifestar nossa posição em relação à matéria publicada em diversos canais de informação nesta data.
Fomos surpreendidos por uma notícia que menciona uma operação conjunta da Polícia Civil e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), que teria como alvo nossa ONG e alguns advogados envolvidos.
A matéria faz referência ao documentário “O Grito”, no qual abordamos questões relevantes sobre o sistema prisional e a dignidade humana.
É importante esclarecer que a nossa ONG atua de forma transparente e legal, sempre pautada pelo respeito aos direitos humanos e pela busca de soluções para os problemas enfrentados por detentos e suas famílias.
O documentário em questão reflete nosso comprometimento com essa causa, evidenciando a necessidade urgente de reformas e uma gestão mais humanizada da política criminal no Brasil.
Reiteramos que a crítica ao sistema prisional não deve ser interpretada como uma afronta aos agentes de segurança, mas sim como um chamado à reflexão sobre as condições desumanas enfrentadas por milhares de pessoas.
O estado atual do sistema carcerário é uma realidade que demanda atenção e ação efetiva por parte do poder público, conforme reconhecido por diversas instâncias, inclusive pelo Supremo Tribunal Federal, na ADPF 347, amplamente debatido e divulgado na imprensa.
É fundamental que a imprensa exerça seu papel de forma ética e responsável, buscando informações precisas e contexto adequado antes de veicular notícias que possam gerar desinformação e criminalização de iniciativas que lutam pela dignidade humana.
Estamos à disposição para fornecer informações sobre nossas ações e projetos, que visam promover a justiça e a inclusão social. A nossa missão é garantir que a voz dos que estão à margem da sociedade seja ouvida e respeitada.
Cordialmente,
Diretoria e Familiares da ONG Pacto Social e Carcerário.”
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