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Sérgio Soares participou, como jogador ou parte da comissão técnica, de mais da metade dos títulos do Santo André, incluindo a maior glória do clube: a Copa do Brasil de 2004, além de ser o treinador que mais vezes esteve à frente da equipe. Hoje, ele comanda o tradicional Juventus, da Capital, na disputa do Paulista A-2 e, apesar de definir o time andreense como um dos pontos mais importantes de sua trajetória, terá de encarar o Ramalhão para conquistar o objetivo de retornar à elite estadual em 2026, após chegar na semifinal e bater na trave no último ano.
RAIO X
Nome: Sérgio Soares da Silva
Aniversário: 11 de janeiro
Onde nasceu: São Paulo, Capital
Onde mora: São Paulo, Capital
Formação: Gestão desportiva e de lazer e educação física
Um lugar: Osaka, Japão
Time do coração: Juventus e Santo André
Alguém que admira: Alcides Soares da Silva (Pai)
Um livro: O Monge e o Executivo, de James C. Hunter
Uma música: Coração Pirata, de Roupa Nova
Um filme: Homens de Honra (2000), de George Tillman Jr.
O Sr. hoje treina o Juventus, da Capital, mas a sua história como técnico começa no Grande ABC, na final histórica de Santo André x Flamengo no Maracanã, quando teve que substituir Péricles Chamusca. Como aquela final te motivou sua carreia de treinador?
Foi um momento inicial, mas marcante da minha carreira, em 2004. Foi um ano de muita transformação, quando parei de jogar e iniciei uma carreira na comissão técnica. Sou superagradecido à diretoria do Santo André na época, com o presidente Jairo (Livolis). São pessoas que acreditaram na minha capacidade para que eu pudesse me tornar um treinador. Foi um momento importante para o clube, numa competição em que tive a oportunidade de jogar até às oitavas de final, contra o Guarani. Recebi o convite do Jairo para fazer parte da comissão, como auxiliar do Chamusca, e eu conhecia tudo do Santo André, tinha jogado com o elenco que estava em campo. O Chamusca foi expulso no jogo do Palmeiras (quartas de final), na ida e tomou suspensão, ficando fora dos últimos jogos da Copa do Brasil. No último jogo contra o Flamengo, no Maracanã, o Chamusca foi impedido de entrar no estádio, eu não tinha comunicação nenhuma com ele e tomei as decisões dentro do campo. O Flamengo, a partir dos 20 minutos da segunda etapa, tinha um declínio físico, e exploramos isso. Foi decidido que nós não jogaríamos no primeiro tempo, travaríamos o Flamengo e conseguiríamos desgastar o adversário. Nós tivemos a felicidade, logo no início do segundo tempo, de abrir o placar com o Sandro (Gaúcho). Com 1 a 0 na frente, sabendo que o Flamengo iria ter que sair mais ainda e que já estava cansado, o Santo André foi o time que começou a jogar. Fizemos 2 a 0 com o gol do Elvis, e a partir daí, o Flamengo não conseguiu criar absolutamente nada. Fechamos o meio-campo e saímos campeões. Um título que eu guardo com muito carinho e o maior da história do Santo André. Participei de oito títulos, eu estou em mais de 50% das principais conquistas do clube. Sou o treinador que mais vezes dirigiu o time, 250 jogos.
Como é estar na atmosfera do Maracanã lotado, com o nervosismo e responsabilidade de uma final?
Eu estava confiante, sabíamos o quanto aquele time era forte e preparado. Conseguimos dentro da competição ter uma transformação, com saídas e chegadas de atletas. Eu sabia que era possível sair do Maracanã vencedor. Internamente, a gente tinha essa força mental. No ambiente externo, muita gente dizendo que o Flamengo já era campeão. O Flamengo já havia contratado um show da Ivete Sangalo para depois do jogo, porque aquela música Poeira era quase um hino da torcida deles na época. Com isso, desci, cheguei para os jogadores e falei: ‘vocês já foram lá ver o gramado? Está um tapete, vão dar uma olhada para testar as chuteiras. Mas deem uma olhadinha pro lado esquerdo, tem um negócio que eu acho que é para vocês’. Daí a pouco eles descem todos, e falei: “os caras já contrataram a Ivete, só que não é pra vocês não, viu?’. Isso motivou demais o elenco, Os jogadores ficaram realmente focados. A confiança da conquista era grande. Lógico que tinha o frio na barriga, não vou negar.
Qual era o diferencial daquele elenco do Santo André?
Tivemos duas equipes naquela competição. Um time começou o campeonato contra o Novo Horizonte, que ganhamos por 5 a 0 em Goiás, e na segunda fase, quando pegamos o Atlético-MG, fizemos 3 a 0 em casa, depois seguramos o Galo. Esse era um time maduro, mas nós perdemos boa parte do elenco depois do jogo do Atlético. Nós fomos para a partida do Guarani (oitavas) com 14 jogadores, era um time que queria passar de fase para pegar uma cota, para entrar um valor de premiação, esse era o pensamento daquele grupo. Quando nós remontamos, foi toda a transformação, trouxemos o Sandro Gaúcho, o Barbieri e outros jogadores. Eu passei a ser parte da comissão e nós enfrentaríamos o Palmeiras. No jogo do Bruno Daniel), empatamos por 3 a 3 e o Palmeiras abriu uma vantagem de três gols fora de casa, e nós fomos ao Parque Antárctica e conseguimos fazer um 4 a 4. Esse jogo foi a chave que despertou a possibilidade de que tínhamos condições de brigar por mais que só uma cota de fase.
Você acredita que o futebol do Interior tem capacidade de algum dia repetir esse feito do Santo André?
Eu acho muito difícil, porque naquela oportunidade os times da Libertadores não participavam da Copa do Brasil. Tanto é que no ano seguinte, o Paulista foi campeão em cima do Fluminense. Um grande título, mas não tem o mesmo charme de você ganhar no Maracanã do Flamengo. Ganhamos do clube com maior torcida do País, no templo do futebol mundial. Tem vários ingredientes que fazem com que a nossa conquista tenha um charme maior. Hoje em dia, eu acho muito difícil um clube, da expressão do Santo André, conquistar a Copa do Brasil, mas no futebol tudo é possível.
Como o Sr. enxerga o futebol do Grande ABC neste momento?
Hoje, o futebol do Grande ABC tem, além do São Bernardo, o Água Santa também, que é um clube que chegou na final do Paulista, assim como nós (Santo André) chegamos em 2010. E tem o São Caetano que está tentando se reestruturar, infelizmente caiu para a A-4. O Santo André é um clube que eu tenho um sentimento muito grande, sou suspeito para falar, mas eu acho que São Bernardo e Água Santa vivem uma situação melhor, são times que estão se estruturando. O São Bernardo está buscando se reestruturar, contrata jogadores de alto nível. Falando de elenco, o São Bernardo financeiramente tem uma situação mais estável em relação a Santo André ou São Caetano. O Água Santa também tem uma condição tranquila financeiramente, está melhorando a sua estrutura, procurando fazer um anexo para ter um centro de treinamento, acho que é isso que a gente precisa. O maior pecado dos clubes do Grande ABC é não ter uma estrutura física, tanto é que o São Bernardo está treinando em Atibaia, por causa da questão de espaço. Melhorando a questão estrutural, a tendência dos clubes do (Grande) ABC é crescer cada vez mais. Não dá para você desassociar o clube da sua cidade, o torcedor é o maior patrimônio de uma instituição.
Como o Sr. avalia a popularização dos clubes SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol) no Brasil?
É um projeto válido, desde que seja uma SAF séria, nós tivemos um exemplo da 777 no Vasco, que deu todo um problema. Eu acredito que, com seriedade, é o caminho para o futebol brasileiro. A recuperação da autoestima de alguns clubes passa pela SAF. Temos um exemplo recente do Botafogo, que passou anos num grau de dificuldade imenso, e depois que o (Jhon) Textor entrou, passou a ser protagonista dentro das competições. Mas também é preciso respeitar a instituição, porque atrás de um clube tem o seu patrimônio maior, que é o torcedor. Uma SAF desastrosa pode ser prejudicial demais, e o clube talvez não tenha como se recuperar no futuro. Todos os clubes que vão se transformar em SAF, precisam de garantias no contrato que preserve a instituição.
Em sua quinta passagem pelo Juventus, quais são seus planos como treinador para 2025?
O Juventus é o segundo clube que eu tenho o privilégio de dirigir no ano do centenário. Um foi o Ceará, que conquistamos o título do tetracampeonato cearense. No Juventus, tivemos a oportunidade, batemos na trave no ano passado, quase chegando no acesso à A-1. Foi onde eu comecei, com 15 anos, um garotinho cheio de sonhos, e hoje um cara de 58 anos tendo o privilégio de comandar o clube onde comecei, no ano do centenário. É de muita responsabilidade, mas de muito privilégio. A gente conseguiu montar um elenco que, entendemos, vai brigar grande no campeonato. O Juventus não vai ser um clube que só vai participar da A-2, mas sabemos que será muito duro. Tem muitos clubes que são SAFs, clubes de Série B e Série C com mais recursos. Porém, vamos brigar com todos. Começamos o nosso trabalho em novembro, e o planejamento é brigar pelo acesso.
Como o Sr. se mantem atualizado e realiza os estudos como técnico?
Sou eclético nessa questão, busco um pouco de tudo. Hoje, internet te dá condições de entender o que acontece no mundo. Não dá para fixar um único ponto, quando há várias ferramentas que podem te oportunizar o ganho de conhecimento. Eu vou me reciclando, faço curso da CBF Academy, estou tirando a minha licença da Conmebol, procurando ver os cursos da Associação de Futebol da Argentina. Dessa forma, o estudo não fica centralizado em um único ponto. Não podemos esquecer que nós temos várias ferramentas agora. O futebol mudou, mas a sua essência não muda.
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