Vicente Lopes Filho, 74, conta que contato com jornal começou ainda antes, quando, aos 12, trabalhava entregando exemplares
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Há pelo menos 40 anos, o ferramenteiro e professor aposentado Vicente Lopes Filho, 74 anos, mantém a rotina de todos os dias manter-se informado por meio das páginas do Diário. Sua relação com o jornal, porém, data de muito antes. Aos 12, Pestana, como é conhecido na Vila Pires, bairro andreense onde nasceu e vive, entregava exemplares do periódico pelas ruas da cidade.
Uma história que se confunde com a do jornal, fundado em 1958, com o nome de News Seller. Hoje, com seu exemplar do Diário em mãos e sentado na mesa de um botequim, Pestana encontra nessa leitura mais que do que informação: encara no hábito uma forma de esquecer os problemas e de driblar a solidão.
Separado há cerca de 30 anos, o andreense nunca quis ter um novo relacionamento. Tem dois filhos “seguindo seus caminhos” e diz que se sente bastante sozinho. Ir a um bar que fica na Avenida Dom Pedro I, próximo à sua residência, todos os dias, e ficar por lá até o meio da tarde na companhia de seu jornal favorito, folheando e lendo página por página, é o que o deixa feliz. “Leio o jornal todo, gosto de todas as editorias, mas em especial da coluna do Ademir Medici”, conta o leitor, que também diz apreciar muito as charges.
O hábito da leitura se mantém à noite, quando opta por um livro antes de dormir. “Gosto de literatura. Ler é algo escasso na rotina dos brasileiros, por isso busco incentivar crianças e jovens. Estou sempre divulgando as notícias do Diário”, relata.
Pestana revela, entretanto, que a rotina nos bares do bairro nem sempre lhe rendeu alegrias. Há 10 anos, iniciou uma luta contra o alcoolismo. Por volta de 2017, começou tratamento em uma clínica de reabilitação. Além de receber medicação para amenizar as consequências da abstinência, participa de terapias em grupo. “São cuidados paliativos, porque é uma doença sem cura, que demanda domínio constante. Hoje consigo limitar o volume ingerido, então consigo ter um pouco de contato com a bebida”, diz.
HISTÓRIA
Aos 14, Vicente Lopes Filho começou a trabalhar na fábrica da Volkswagen, em São Bernardo, onde formou-se ferramentista. Permaneceu por 12 anos na função, quando foi demitido, de acordo ele, por ter se envolvido em greves dos metalúrgicos do Grande ABC.
Liderou muitos desses movimentos, especialmente em Santo André e São Bernardo, justamente durante o período em que o Brasil vivia uma ditadura militar. “Fui preso em 1968 durante uma manifestação por melhores condições para os trabalhadores, em que pedíamos aumento de salário e redução de carga horária, mas acabei sendo liberado algumas horas depois”, relembra.
“Fui dar aulas, no Senai de Santo André. Lecionei matemática, trigonometria e cálculo. Também dei aulas de máquinas e ferramentas por duas décadas, na Fatec de São Paulo, onde era concursado. E continuei atuando na defesa da classe trabalhadora, lutando por menos desigualdade social, em movimentos pelo PT (Partido dos Trabalhadores) e CUT (Central Única dos Trabalhadores)”, afirma Pestana.
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