Direitos Sociais do Trabalhador Titulo Necessidades ignoradas?
Gestantes precisam de adaptações no local de trabalho

Apesar de garantidos na legislação, grávidas possuem alguns de seus direitos negligenciados

Natasha Werneck
22/09/2024 | 07:01
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Vini Brandini/Divulgação

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 A realidade de muitas gestantes no mercado de trabalho ainda é marcada por desafios que poderiam ser minimizados com a adoção de políticas mais inclusivas e adaptativas por parte das empresas. A necessidade de adaptar o ambiente de trabalho para mulheres grávidas, apesar de garantida pela legislação, muitas vezes é negligenciada, resultando em impactos não apenas na produtividade dessas profissionais, mas também na saúde física e emocional.

A administradora Ana Carolina Queiroz Ungaretti, 36 anos, que vive em São Paulo e está grávida de 8 meses, compartilha sua experiência pessoal ao lidar com as demandas da gestação e do trabalho. “Por trabalhar na minha empresa e meus sócios serem meus pais, sinto que minha família e equipe têm sido muito compreensivos. No geral, estou equilibrando bem as demandas da gestação com as responsabilidades profissionais, mas isso é devido ao fato de ter uma jornada flexível”, comenta Ana Carolina.

Sua situação, no entanto, é uma exceção, uma vez que muitas mulheres enfrentam ambientes menos acolhedores e políticas rígidas que não consideram as necessidades únicas da gravidez. Ela destaca que, além da flexibilidade de horário, algumas adaptações simples são fundamentais para o bem-estar durante o trabalho. “Preciso de pausas mais frequentes para descansar, cuidar da alimentação e hidratação. Também percebo que, devido ao cansaço físico e emocional, a gestão do estresse no dia a dia se tornou uma prioridade maior”, conta. 

Ela ainda menciona que essas adaptações ajudam a manter a produtividade em um nível aceitável e garantem que ela consiga equilibrar melhor as exigências do trabalho com as demandas físicas da gravidez. “Pequenas mudanças, como ter um ambiente de descanso ou a flexibilidade de horários para exames de pré-natal, fazem uma grande diferença no meu dia. Isso me permite lidar melhor com o cansaço e o estresse, o que impacta diretamente na minha capacidade de continuar trabalhando”, explica Ana Carolina.

LEGISLAÇÃO

A legislação trabalhista brasileira assegura uma série de direitos às gestantes. De acordo com a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), as grávidas possuem estabilidade no emprego desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto, além do direito de realizar exames de pré-natal sem prejuízo do salário, podendo faltar ao trabalho pelo menos seis vezes. No entanto, a prática ainda está distante do ideal.

Segundo o advogado Ruslan Stuchi, especialista em direito do trabalho, as empresas são obrigadas por lei a ajustar o ambiente laboral para garantir que não ofereça riscos à saúde da gestante e do bebê. “Se a grávida trabalha em um ambiente insalubre, a empresa deve transferi-la para outro setor ou ajustar suas funções. Caso contrário, pode sofrer sanções legais, que vão desde multas trabalhistas até a responsabilização por danos morais e civis”, explica.

Entretanto, muitas gestantes não têm esse amparo de forma adequada, como menciona Ana Carolina. “Infelizmente, acredito que muitas gestantes ainda enfrentam preconceitos, como a percepção de que não são tão produtivas ou comprometidas devido à gravidez. No meu caso, por estar em uma empresa familiar, sinto menos isso diretamente, mas sei que em ambientes corporativos maiores, pode haver essa cobrança velada”, afirma.


IMPACTO

A ausência de adaptações adequadas no ambiente de trabalho pode ter consequências graves para a saúde física e emocional das gestantes. O médico Carlos Alberto Kendy Kumagai, coordenador da Maternidade do Hospital São Luiz Guarulhos, alerta que o estresse excessivo, causado por ambientes de trabalho não acolhedores, pode prejudicar tanto a mãe quanto o bebê. “A gestante é extremamente sensível do ponto de vista emocional devido às mudanças hormonais. Um ambiente de trabalho desfavorável pode acarretar danos ao binômio materno-fetal, tanto no aspecto emocional quanto no físico”, explica o médico.

Além das adaptações físicas, como a ergonomia e a ventilação adequada, Kumagai ressalta que é essencial oferecer um ambiente tranquilo e paradas regulares para que a gestante possa se recuperar do cansaço. “Pequenas pausas durante o expediente, um local adequado para descansar e um ambiente que promova serenidade fazem uma diferença significativa para o bem-estar psicológico da gestante”, destaca o médico.


AMBIENTE ACOLHEDOR

A liderança desempenha um papel central na criação de um ambiente de trabalho que acolha as necessidades das gestantes. Para Weslla Felix, coordenadora de Recursos Humanos da Strong Business School, o apoio da chefia é crucial para que as gestantes se sintam seguras e valorizadas durante esse período. “O líder tem um papel essencial em criar um ambiente empático e acolhedor. Sem isso, muitas gestantes enfrentam preconceitos e até mesmo exclusão de projetos importantes, comprometendo seu desenvolvimento”, comenta Weslla.

Ela destaca que, além das adaptações físicas, como cadeiras ergonômicas e horários flexíveis, o suporte emocional é essencial. “O papel da liderança é promover uma cultura de empatia e incentivo. Mesmo que a produtividade da gestante diminua temporariamente, ela precisa sentir que ainda faz parte da equipe e que sua contribuição é valorizada”, explica a coordenadora de RH.

Weslla também alerta para o impacto psicológico negativo que gestantes podem enfrentar em ambientes de trabalho que não são acolhedores. “Muitas vezes, as gestantes são excluídas de atividades para as quais têm total competência, o que pode resultar em frustração e desmotivação. Esse tipo de tratamento afeta diretamente a saúde emocional delas”, afirma.


FLEXIBILIDADE

Criar canais de comunicação abertos entre gestantes e gestores é uma das chaves para um ambiente de trabalho mais inclusivo. Segundo Weslla Felix, quando a gestante se sente à vontade para expressar suas necessidades, sem medo de julgamentos ou represálias, é mais fácil implementar as adaptações necessárias de maneira eficaz. “Estabelecer um diálogo transparente e oferecer suporte constante à gestante garante que suas necessidades sejam atendidas sem prejudicar sua carreira ou comprometer sua saúde”, conclui.

De acordo com o departamento de professores de RH da Strong Business School, a pesquisa publicada no Journal of Occupational Health Psychology reforça a importância de ambientes de trabalho adaptados. O estudo demonstrou que menores níveis de estresse materno estão associados a um menor risco de complicações na gravidez e a melhores resultados de saúde para o bebê, como menor probabilidade de parto prematuro e melhor desenvolvimento cognitivo infantil. Isso evidencia a urgência de criar ambientes de trabalho que ofereçam suporte adequado e acolham as necessidades das gestantes.




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