No Dia de Tereza de Benguela, personagens do Grande ABC refletem sobre desafios da luta em prol da equidade
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Pertencimento, representatividade e luta. Os movimentos de mulheres negras na região são marcados por esses princípios e pelo objetivo de promover a conscientização de gênero e raça, mas, acima de tudo, por visar a criação de uma rede de apoio para as participantes. Um exemplo é o coletivo andreense AcolheAfro, que visa instigar o letramento racial a partir da literatura.
No Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, comemorado nesta quinta, personagens do Grande ABC refletem sobre linhas de atuação, desafios criados pelo racismo e projetam o futuro da luta em prol da equidade.
A socióloga Daniela Lira, 27 anos, e a produtora cultural Isadora França, 27, fundadoras do AcolheAfro, entendem que a união entre a juventude e militantes que estão há décadas na luta é fundamental para traçar estratégias de combate à discriminação racial.
“A filósofa Sueli Carneiro fala que as mulheres negras são a vanguarda do movimento feminista no Brasil. Não estamos criando a militância agora. O histórico de reivindicação e conquista do movimento negro brasileiro é incrível. É muito importante beber dessa fonte. Por outro lado, tem uma juventude com outras ferramentas de atuação, como as redes sociais”, analisa Daniela, mestre em Ciências Sociais pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). “O racismo é muito bem articulado e atua de diferentes formas. Quando dialogamos com mães, idosas e jovens, conseguimos estabelecer um caminho de luta para combater os inimigos em comum, que são o racismo, o sexismo e o machismo”, continua.
A Lei brasileira nº 12.987 de 2014 institui esta quinta como a data que relembra a trajetória da líder quilombola Tereza de Benguela, que comandou o Quilombo Quariterê, na fronteira do Mato Grosso com a Bolívia, por 20 anos.
“O clube de leitura do coletivo é um espaço para debater as questões raciais. Para as pessoas brancas que participam, botamos o dedo na ferida. Eles também precisam se engajar. Para as pessoas negras, queremos que seja um local em que elas se sintam confortáveis para compartilhar experiências. Temos também o Café das Pretas, com reuniões entre mulheres negras para networking. Promover a afetividade e conexão entre pessoas negras é um dos pilares da luta”, ressalta Isadora.
“Com a leitura, identificamos que problemas que achávamos que eram só nossos são, na verdade, causados pelo racismo. Precisamos ter um ambiente seguro para dialogar”, conclui Daniela.
O próximo encontro é em 17 de agosto, sobre o livro Por um Feminismo Afro-Latino-Americano, de Lélia González, às 14h, no The King Café, em Santo André.
DESAFIOS
Isadora e Daniela observam que a falta de representatividade política é o principal impasse para promover políticas públicas que auxiliem a minorar a violência racial. Para Regina Sant’Anna, 59, presidente do conselho da Igualdade Racial da Sociedade Civil de Diadema, a desigualdade salarial da população negra é um dos pontos mais alarmantes.
Segundo pesquisa de 2023 do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), o salário médio das mulheres negras era de R$ 1.948. O número representa 48% do valor médio recebido por homens brancos, 62% do ganho por mulheres brancas e 80% do que homens negros recebem.
“A diáspora africana foi trazida de uma forma violenta e essa história se repete até hoje. Ter autonomia financeira nos dá acesso à saúde, cultura e educação de qualidade. A luta por salário digno, ainda mais para mulheres negras, que geralmente são chefes de família, é uma das prioridades do ativismo”, diz Regina.
Para ela, os eventos do Julho das Pretas são para gerar maior coletividade entre mulheres negras. “É para que possamos enxergar possibilidades de mudança das nossas realidades. Devemos pensar nas mulheres, mas também nas meninas negras que vão comandar a luta daqui a alguns anos. Queremos um momento de acolhimento e partilha.”
No Grande ABC, quatro a cada dez mulheres são pretas ou pardas, de acordo com o Censo 2022, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
PROGRAMAÇÃO
Hoje, será realizado o Cortejo das Pretas, com concentração na Praça da Moça, em Diadema, às 17h30, e destino ao teatro Clara Nunes para realização do Sarau Mulher Negra Latina e Caribenha 2024. No sábado (27), acontecerá a Caminhada das Mulheres Negras de Santo André, com concentração a partir das 10h, na Praça do Carmo. Também haverá almoço de confraternização do Julho das Pretas no domingo (28), das 13h às 16h, na Avenida Santos Dumont, 371, em Santo André (confirmação deve ser feita pelo WhatsApp 11 91704-0210).
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