Lei aprovada pelo Senado celebra nesta sexta o gênero musical, um dos mais consumidos no País; estilo sofre discriminação e tentativa de criminalização, diz especialista
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“Polícia acaba com baile funk ilegal em Mauá”; “GCM de Diadema faz operação contra pancadão”; “Moradores do Grande ABC são contra legalização de pancadões”. Ao pesquisar sobre bailes funk na região, essas são algumas das principais notícias encontradas. Mas o que essas festas populares, realizadas em comunidades, têm além das apreensões policiais? Por que atraem milhares de jovens?
Para o operador petroquímico Igor Henrique Silva, 22, morador de São Bernardo, além do entretenimento urbano acessível, os bailes representam a cultura e resistência periférica. “Frequento as festas desde os meus 17 anos, curto as danças, os movimentos únicos do gênero musical e principalmente a sintonia com as pessoas. Os bailes mostram uma parte da população que sempre foi criminalizada e banalizada. E é direito nosso ocupar esses espaços para celebrar a nossa história”, afirma Silva, que frequenta o Baile do Blumenau, no município são-bernardense.
Na região, outros pancadões que ganham destaque pela presença de grande público são os bailes do Tamaru, em Santo André, do Macuco, em Mauá, da Torre, em Diadema, e do Carminha, em São Bernardo. Além disso, o famoso baile do Helipa, localizado na favela de Heliópolis, que fica na Capitalmas faz divisa com São Caetano, também atrai moradores do Grande ABC.
“Baile funk é liberdade periférica, liberdade preta e liberdade LGBTQIAP+”, ressalta Silva sobre a manifestação popular.
O gênero musical que domina essas festas é celebrado hoje, após o Senado aprovar neste mês o PL 2229/2021, que institui o Dia Nacional do Funk. A data foi escolhida para homenagear o Baile da Pesada, no Rio de Janeiro, festa precursora da popularização do estilo. O texto segue agora para sanção presidencial.
Desde 2016, o dia 7 de julho também é marcado como o Dia Estadual do Funk, em São Paulo, em homenagem ao MC Daleste, que morreu nesta data em 2013. O funkeiro foi assinado aos 20 anos enquanto cantava para um público de 5.000 pessoas, em Campinas.
DISCRIMINAÇÃO
O funk surgiu na década de 1960, nos Estados Unidos, com a combinação de vários ritmos negros populares como blues, gospel, jazz e soul, e chegou ao Brasil no final da década de 1980, com forte influência na cultura carioca dos bailes black. O DJ Marlboro lançou o primeiro disco de funk em português e deu início a diversas transformações do gênero musical, um dos mais consumidos no País atualmente.
Doutorando em música pela USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Funk... Mas Tinha Medo de Perguntar, Thiago de Souza, 34, fala sobre a constante discriminação que o gênero musical sofre ao longo das décadas, principalmente por representar grupos sociais marginalizados, como pessoas pretas e pobres, além das críticas às letras marcantes que relatam o cotidiano dos moradores de comunidades.
“A pesquisadora Adriana Facina afirma que o ódio ao funk é parte de uma estratégia maior criada no começo dos anos 1990 para legitimar o extermínio da população negra. Ocorre que, nesse período, o neoliberalismo chegava ao País com o ex-presidente Fernando Collor de Mello, e uma das características do pensamento neoliberal é culpar os indivíduos por problemas sociais, como ‘a culpa da pobreza é do pobre’, ‘a existência das favelas é devido aos favelados’, entre outros pensamentos”, afirma Souza, que é professor de música e morador de Santo André.
O docente complementa ainda que neste período o Jornal do Brasil, tradicional periódico do Rio de Janeiro, teria começado uma campanha de demonização do funk. “Essa demonização cria a sensação de que pessoas pretas, pobres e faveladas (historicamente subalternizadas) são o mal da sociedade. Sendo assim, pode-se matar sem que ninguém se manifeste”, pondera.
O especialista cita ainda que a tentativa de criminalização do funk é uma estratégia por parte da sociedade para impedir a realização de eventos ligados a esse estilo musical. “Então, sempre se acha algo ‘do mal’ associado ao funk, como brigas nos bailes, sexualização infantil, abuso de drogas (o que gerou a tentativa de criminalizar o Funk em 2017 como crime de saúde pública). O funk de favela é rebelde e resiste, na prática, às várias opressões policiais”, finaliza o doutorando em música.
CELEBRAÇÃO
A Batalha da Matrix, tradicional evento de rima na Praça da Matriz, em São Bernardo, realizará na próxima terça-feira (16), às 19h30, uma edição especial em celebração ao Dia Nacional do Funk. Os Mc’s irão batalhar e apresentar as suas rimas, com as batidas do funk, ao invés do hip-hop.
É importante essa conexão, pois consideramos também o funk, assim como o rap, como uma expressão da cultura hip-hop. Por isso convidamos grandes rimadores da cena das batalhas para navegar por essa vertente e apresentar para o público a versatilidade que os Mc’s têm”, diz um dos organizadores da Batalha, Eder Alexandre Todesco (Edão), 35.
Casal investe em brechó com estética periférica
Ex-moradores do Grande ABC, Renato Ferreira Simões, 27, e Mayara Kerly da Motta Rodrigues, 24, agora residentes da Vila Industrial, na zona leste da Capital, são administradores do Acervo do Relíquia, brechó on-line, ou observatório de moda, como definem, que oferece peças vintages da cultura periférica de diferentes cenas musicais, como rap, funk e reggae.
A iniciativa começou em 2021, quando Renato decidiu vender em seu perfil no Instagram algumas peças de que queria se desfazer. Com a boa adesão, os seguidores sugeriram que ele garimpasse outras roupas em brechós e revendesse on-line. A ideia deu tão certo que ao lado da namorada, Mayara, ele passou a investir e profissionalizar o negócio.
No acervo são encontradas peças originais, garimpadas em outros brechós do Grande ABC e da Capital, da estética dos fluxos paulistas de 2010 ou da moda hip-hop da década de 1990. Camisetas de marca, blusas de frio, bermudas, tênis e camisas de time estão entre os itens comercializados pela loja, que custam em média de R$ 50 a R$ 100.
Além da venda, o brechó também oferece outros serviços, como aluguel das peças e personal styling. As roupas do Acervo do Relíquia já foram utilizadas em videoclipes de funk, curta-metragens e outras produções artísticas. O produtor de funk e DJ Caio Prince veste em seus shows as peças do acervo durante a sua segunda turnê na Europa, motivo de orgulho para Renato, criador da iniciativa.
“Vejo o funk como algo além de um gênero musical, é um estilo de vida, uma forma de expressão, que vai desde a linguagem, comportamento até a moda. O funk também traz uma perspectiva de mudança para as novas gerações, pois muitos jovens decidem trabalhar na área, seja como MC, produtor, estilista, modelo, entre outras profissões. O funk é plural, assim como todas as quebradas do Brasil”, afirma Renato.
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