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Diretor do Hospital da Mulher de S.Bernardo tem histórico de críticas

Em 2019, gestor foi dispensado ao vivo na TV Globo após falhas em marcação de consultas; hoje, dirige unidade acusada de negligência em casos com gestantes

Thainá Lana
17/04/2024 | 08:05
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FOTO: André Henriques/DGABC


O Hospital da Mulher de São Bernardo registrou nesta semana duas denúncias de negligência com gestantes. A primeira ocorrência foi divulgada no domingo (14) pelo Diário, quando uma compressa foi deixada dentro do corpo da jovem Raissa Falosi Santos, 20 anos, após realizar trabalho de parto e colocação de DIU (Dispositivo Intrauterino) na unidade. Já Arthur Henry Coimbra denuncia a morte suspeita de sua esposa, que ocorreu após o parto da filha no local, há cerca de um mês.

Nos dois casos, o diretor técnico da unidade hospitalar era o ginecologista obstetra Rodolfo Strufaldi. O gestor possui histórico de críticas na Prefeitura de São Bernardo. Em maio de 2019, o médico foi demitido ao vivo na TV Globo pelo prefeito Orlando Morando (PSDB), durante reportagem do jornal Bom Dia São Paulo, na TV Globo, que mostrou espera de mais de quatro horas na UBS (Unidade Básica de Saúde) Jardim Ipê. A exoneração foi publicada na edição de número 2061 do Notícias do Município, o Diário Oficial da cidade.

“O prefeito Orlando Morando demitiu o coordenador de atenção básica, Ronaldo Strufaldi. Segundo o prefeito, isso não era para acontecer, e é inadmissível ainda ter filas. Ele reforça que a partir de sábado o atendimento nas policlínicas vai aumentar para baixar a espera”, revelou o apresentador Rodrigo Bocardi ao ler a nota enviada pela administração municipal.

Na época, Strufaldi disse ao Diário que não comentaria sobre a demissão, mas admitiu que deveria retornar ao cargo que ocupava até assumir a chefia da atenção básica – era coordenador médico do Caism (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher) de São Bernardo, do qual é um dos fundadores.

A Polícia Civil de São Bernardo investiga às duas ocorrências citadas acima. No caso mais recente, Deisy Coimbra, 29, morreu no dia 22 de março, uma semana após dar à luz sua primeira filha no Hospital da Mulher. Seu marido, Arthur Henry Coimbra, disse que a esposa passou mal após receber a anestesia.

Deyse foi internada em 16 de março. A equipe médica começou a induzir o parto. Quando as dores da paciente aumentaram ela recebeu a primeira dose de anestesia. Segundo Coimbra, Deyse começou a passar mal depois da segunda aplicação e logo desmaiou. A criança foi retirada com vida, mas segue internada em observação após ficar entubada por falta de oxigênio no cérebro em decorrência da parada cardíaca sofrida pela mãe.

O PARTO

“A Deyse teve uma gravidez tranquila, apenas com diabetes gestacional e índice de pressão alta. Assim que ela recebeu a segunda anestesia, já começou a reclamar que seu corpo estava formigando e que estava com muita dor de cabeça. A equipe médica disse que era normal por ser mãe de primeira viagem e saiu do quarto. Poucos minutos depois, ela desmaiou já roxa. Foi quando levaram ela para sala de cirurgia. Depois de três horas fizeram o parto e na sequência a entubaram na UTI (Unidade de Terapia Intensiva)”, afirmou Coimbra ao Diário.

O marido relatou ainda que o anestesista pediu que ele assinasse um documento. “Ele me chamou em uma sala, tipo um estoque onde estavam os materiais hospitalares, para assinar um documento de autorização da anestesia. Ele ficou meio alterado, falando que se não assinasse poderia acabar com a carreira dele porque foi ele que preparou a anestesia. Falei que não ia assinar. Só se tivesse algum responsável do hospital junto”, pontuou o marido, que prestará hoje depoimento no 1º DP (Distrito Policial).

INVESTIGAÇÃO

Rodolfo Strufaldi disse à TV Globo que a paciente tinha comorbidades e sofreu uma parada cardíaca, mas que a causa da morte não foi confirmada. Segundo a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), a ocorrência foi registrada como morte suspeita e é investigada por meio de inquérito policial instaurado pelo 1° DP de São Bernardo. 

“A autoridade policial solicitou exames periciais cujos laudos estão em elaboração e, assim que concluídos, serão analisados. Demais diligências são realizadas visando ao esclarecimento dos fatos”, informou a Pasta.

PRIMEIRA DENÚNCIA

Já no caso de Raissa, ela denuncia erro médico da equipe que a ajudou a realizar o parto normal, no dia 18 de março, no Hospital da Mulher de São Bernardo. Uma compressa foi deixada dentro do seu corpo após a realização desse procedimento e da colocação do Diu (Dispositivo Intrauterino).

A são-bernardense ficou com a compressa no interior do corpo por 19 dias. Só foi retirada em 6 de abril, quando retornou pela segunda vez à unidade hospitalar, após sentir fortes dores no corpo, ter febre alta e sangramento. O médico que atendeu Raissa confirmou que foi um erro médico e que objeto deixado em seu corpo poderia custar a sua vida ou até mesmo a perda do útero. Além da compressa, o profissional retirou sangue coagulado e o Diu.

No dia seguinte à retirada da compressa, a paciente registrou um BO (Boletim de Ocorrência) e realizou na terça-feira (9) exame de corpo delito no IML (Instituto Médico Legal). A Prefeitura de São Bernardo informou à imprensa que a médica responsável pelo parto não faz mais parte da equipe do hospital.

INCOMUNS

Em entrevista à TV Globo, o diretor técnico do Hospital da Mulher, Rodolfo Strufaldi, disse que os casos de Deisy e Raissa não são comuns, e que o hospital vai realizar uma oitiva com os envolvidos nos atendimentos, como médicos e enfermeiros. “A gente espera o laudo, no futuro, para ver o que que vamos fazer”, disse. Questionada, a gestão de Orlando Morando não retornou até o fechamento da edição.

Assédio sexual, compressa perdida e morte: a gestão Morando na Saúde

Os casos envolvendo as gestantes Raíssa Falosi Santos e Deisy Coimbra no Hospital da Mulher, em São Bernardo, refletem o trabalho que tem sido desempenhado pela administração do prefeito de São Bernardo, Orlando Morando (PSDB), na Saúde. Uma condução muito criticada, principalmente após o caso recente de importunação sexual na Policlínica Alvarenga.

O médico ginecologista Rogerio Pedreiro é investigado por assédio sexual contra uma enfermeira da unidade de saúde. Contratada em janeiro, ela acabou demitida pouco tempo depois de realizar a denúncia. A Sigma, empresa terceirizada contratada pela Fundação ABC e responsável pela admissão da enfermeira e do médico, explicou que o desligamento da vítima não teve ligação com a denúncia.

Com histórico de acusações, Pedreiro já havia sido preso em 2012 e 2019, suspeito de abusar de pacientes. O caso é apurado pela DDM (Delegacia da Mulher) são-bernardense.

A notícia mobilizou representantes da Câmara Municipal e da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo). O deputado estadual Luiz Fernando Teixeira (PT) prometeu acionar o MP (Ministério Público) para questionar a demissão da vítima, enquanto o vereador Julinho Fuzari (PSC) encaminhou requerimento para que a Prefeitura explique por que o profissional estava no quadro de funcionários mesmo com histórico de acusações.




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