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Ex-drogados buscam voltar à sociedade

Desafio Jovem de Santo André aposta na restauração de vidas marcadas pelo vício


Maíra Sanches

15/11/2011 | 07:00


Desde 1981, a instituição Desafio Jovem de Santo André, localizada no bairro de Utinga, atendeu cerca de 10 mil ex-dependentes químicos, com idades que variam entre 14 e 65 anos. Todos são homens, e a maioria foi encaminhada à entidade pela família. Hoje 32 alunos fazem parte do programa e recebem assistência psicológica, psicoterápica, participam de atividades esportivas, leem a Bíblia e integram grupos de dança e teatro, que se apresentam periodicamente em escolas municipais.

O cronograma de atividades começa todos os dias a partir das 7h, e o uso da televisão é controlado. O objetivo é mantê-los ocupados o maior tempo possível para, aos poucos, suprimir as crises de abstinência. Todos, inclusive, arrumam seus quartos e participam da limpeza dos cômodos.

Segundo o diretor e fundador da entidade, Valter Rogato, cerca de 90% da demanda é de usuários de crack. O tratamento é dividido em três etapas. Nas duas primeiras, que juntas duram até nove meses, são trabalhadas a ressocialização do indivíduo, que inclui reaproximação de amigos e familiares e capacidade de convivência. Na última, que é opcional, é desenvolvido o conceito da liderança.

A ideia é criar meios para que todos consigam reconstruir suas vidas e voltar às atividades profissionais por méritos próprios. Entre os alunos estão pintores, pescadores, marceneiros e até alguns com Ensino Superior. "Qualquer um pode sair e ir embora quando quiser. Ninguém está preso. O desafio é que ele se mantenha no programa por vontade própria", explicou Rogato, que é ex-policial militar.

A despesa atinge R$ 36 mil por mês e é bancada por meio de doações. Há carência de mantimentos como arroz, feijão e óleo. A casa tem capacidade para receber até 40 homens, mas há falta de mão de obra, voluntários e contribuições financeiras.

Ex-dependente desenvolve vocação por poesia

Cristiano Batista, 32 anos, está há pouco mais de dois meses na instituição. Ele busca recuperação física e psicológica depois de dez anos de uso contínuo de maconha, cocaína e crack. "Passava até uma semana ‘virado'. Não tinha paz de espírito", admite.

Para ele, o maior avanço conquistado nesse curto espaço de tempo foi a capacidade de integração com ele mesmo e chance do autoconhecimento. As lacunas deixadas pelo vício são preenchidas com a produção de poesias e louvores a Deus, que incluem temas como superação e amizade.

A habilidade foi desenvolvida depois que Cristiano começou a colocar em prática os ensinamentos religiosos recebidos diariamente. A gramática é quase perfeita. Por dia, ele produz até cinco, seis poemas. "A droga não é uma realidade. Ninguém nasce usando. Na dependência achamos que iremos preencher esse vazio, mas na verdade esse espaço é de Deus."

Outro aluno, Flávio Dias, 31, passou dez anos morando na Itália com a mãe, onde experimentou diversas drogas. Ele decidiu procurar tratamento antes de ingressar na faculdade de Direito. "Você perde tudo, até ficar só com o vício. Na verdade, o dependente químico é um suicída", resume.

Ex-aluno torna-se psicólogo para retribuir assistência

As histórias dos dependentes químicos têm poucas variações. A maioria começa de forma inocente, com uso demaconha antes de o corpo pedir alguma substância mais agressiva. Há quebra do vínculo com a família, a rotina passa a ser vivida na rua e objetos de casa são roubados para sustentar o vício. Muitos são detidos.

Isaías Gonçalves Ferreira, 27 anos, passou por todo esse processo até decidir buscar ajuda, em 2001, com incentivo da família. “A intenção era ficar três meses.” Hoje, Isaías é graduado em Psicologia e integra o quadro de funcionários da entidade. Ele faz avaliação psicológica e triagem dos alunos.

Os custos do primeiro ano do curso foram repartidos entre família e entidade. Com boas notas, logo conseguiu bolsa de estudos integral. A próxima meta é ingressar no mestrado em psicanálise e dar segmento aos trabalhos na instituição. “Nem tudo na vida é dinheiro. O reflexo dessa ajuda não é só assistencialista, e sim terapêutico. Queremos oferecer recursos para que ex-usuários mudem de vida.”



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Ex-drogados buscam voltar à sociedade

Desafio Jovem de Santo André aposta na restauração de vidas marcadas pelo vício

Maíra Sanches

15/11/2011 | 07:00


Desde 1981, a instituição Desafio Jovem de Santo André, localizada no bairro de Utinga, atendeu cerca de 10 mil ex-dependentes químicos, com idades que variam entre 14 e 65 anos. Todos são homens, e a maioria foi encaminhada à entidade pela família. Hoje 32 alunos fazem parte do programa e recebem assistência psicológica, psicoterápica, participam de atividades esportivas, leem a Bíblia e integram grupos de dança e teatro, que se apresentam periodicamente em escolas municipais.

O cronograma de atividades começa todos os dias a partir das 7h, e o uso da televisão é controlado. O objetivo é mantê-los ocupados o maior tempo possível para, aos poucos, suprimir as crises de abstinência. Todos, inclusive, arrumam seus quartos e participam da limpeza dos cômodos.

Segundo o diretor e fundador da entidade, Valter Rogato, cerca de 90% da demanda é de usuários de crack. O tratamento é dividido em três etapas. Nas duas primeiras, que juntas duram até nove meses, são trabalhadas a ressocialização do indivíduo, que inclui reaproximação de amigos e familiares e capacidade de convivência. Na última, que é opcional, é desenvolvido o conceito da liderança.

A ideia é criar meios para que todos consigam reconstruir suas vidas e voltar às atividades profissionais por méritos próprios. Entre os alunos estão pintores, pescadores, marceneiros e até alguns com Ensino Superior. "Qualquer um pode sair e ir embora quando quiser. Ninguém está preso. O desafio é que ele se mantenha no programa por vontade própria", explicou Rogato, que é ex-policial militar.

A despesa atinge R$ 36 mil por mês e é bancada por meio de doações. Há carência de mantimentos como arroz, feijão e óleo. A casa tem capacidade para receber até 40 homens, mas há falta de mão de obra, voluntários e contribuições financeiras.

Ex-dependente desenvolve vocação por poesia

Cristiano Batista, 32 anos, está há pouco mais de dois meses na instituição. Ele busca recuperação física e psicológica depois de dez anos de uso contínuo de maconha, cocaína e crack. "Passava até uma semana ‘virado'. Não tinha paz de espírito", admite.

Para ele, o maior avanço conquistado nesse curto espaço de tempo foi a capacidade de integração com ele mesmo e chance do autoconhecimento. As lacunas deixadas pelo vício são preenchidas com a produção de poesias e louvores a Deus, que incluem temas como superação e amizade.

A habilidade foi desenvolvida depois que Cristiano começou a colocar em prática os ensinamentos religiosos recebidos diariamente. A gramática é quase perfeita. Por dia, ele produz até cinco, seis poemas. "A droga não é uma realidade. Ninguém nasce usando. Na dependência achamos que iremos preencher esse vazio, mas na verdade esse espaço é de Deus."

Outro aluno, Flávio Dias, 31, passou dez anos morando na Itália com a mãe, onde experimentou diversas drogas. Ele decidiu procurar tratamento antes de ingressar na faculdade de Direito. "Você perde tudo, até ficar só com o vício. Na verdade, o dependente químico é um suicída", resume.

Ex-aluno torna-se psicólogo para retribuir assistência

As histórias dos dependentes químicos têm poucas variações. A maioria começa de forma inocente, com uso demaconha antes de o corpo pedir alguma substância mais agressiva. Há quebra do vínculo com a família, a rotina passa a ser vivida na rua e objetos de casa são roubados para sustentar o vício. Muitos são detidos.

Isaías Gonçalves Ferreira, 27 anos, passou por todo esse processo até decidir buscar ajuda, em 2001, com incentivo da família. “A intenção era ficar três meses.” Hoje, Isaías é graduado em Psicologia e integra o quadro de funcionários da entidade. Ele faz avaliação psicológica e triagem dos alunos.

Os custos do primeiro ano do curso foram repartidos entre família e entidade. Com boas notas, logo conseguiu bolsa de estudos integral. A próxima meta é ingressar no mestrado em psicanálise e dar segmento aos trabalhos na instituição. “Nem tudo na vida é dinheiro. O reflexo dessa ajuda não é só assistencialista, e sim terapêutico. Queremos oferecer recursos para que ex-usuários mudem de vida.”

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