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Di-All: cenário de destruição permanece


Bruna Gonçalves e Evandro Enoshita

21/03/2010 | 07:05


Manhã do dia 27 de março de 2009, a doméstica Aparecida Conceição Rodrigues, 67 anos, foi acordada às 7h20 com um barulho. Era a explosão dos cerca de 40 mil litros de solventes químicos da Di-All.

"Pensei que era chuva, mas meu filho veio correndo me avisar que era um incêndio. Depois disso não me lembro de quase nada, apenas de que não queria deixar a casa e perder tudo que construi com esforço em 45 anos. Perdi absolutamente tudo", contou.

Desde a explosão que a acordou, Aparecida mora na casa dos fundos do mesmo terreno onde residia na época. A casa da frente, onde vivia, está interditada e sem condições de habitação. "Não houve reforma como prometido. Depois daquele dia não vejo mais razão de viver. Se pudesse, vivia dormindo."

Vizinho desconhecido - Foi somente naquela manhã que os moradores notaram que tinham como vizinho um depósito de produtos químicos. Quando o aposentado Wellington Duarte Silva, 65, comprou a casa no bairro, há dois anos, não imaginava que uma empresa química estava ao seu lado. "Me informaram que era apenas uma firma desativada. Se soubesse jamais teria colocado minha família em risco", explicou.

No dia do acidente, o aposentado imaginou que a explosão era de fogos de artifício. "Meu filho veio me avisar que era do galpão ao lado. Saímos com a roupa do corpo. Na correria acabei fraturando a patela, porque tenho pouca articulação no joelho", recordou o aposentado, que teve que passar por cirurgia.

Um ano após a explosão, Wellington ainda guarda na garagem de sua casa os restos de um Palio incendiado, que não tinha seguro.

Quem vive um drama parecido até hoje é o metalúrgico José Joaquim Fernandes, 53, que guarda os destroços da moto que havia comprado um mês antes do acidente. "Tinha pago apenas a primeira das 36 prestações de R$ 420 da minha moto Yamaha Fazer 250, era nova", lamentou.

"Estava na cozinha quando ouvi uma explosão, saí de casa e deixei até o fogão aceso. Vi o líquido escorrendo pela rua e o fogo vindo atrás, não deu tempo de tirar o veículo", relembrou Fernandes.

Sem festa - Essas famílias passaram o Natal e Ano-Novo sem motivos para comemorar. "Como não tínhamos condições de receber ninguém ficamos apenas eu e meu marido em casa", disse Maria Salete de Jesus Paula, 53, mulher de Wellington.

Mulher quer passar aniversário longe do bairro
A dona de casa Edilene Almeida sabe que todo ano, ao comemorar seu aniversário, vai lembrar da tragédia do Jardim Ruyce. A explosão na empresa Di-All ocorreu justamente quando ela completava 57 anos, no dia 27 de março de 2009.

Moradora da Rua Henrique de Leo, ela acordou pensando que festejaria mais um aniversário tranquilo com a família. Grande engano. "Não tem como comemorar e não recordar daquele dia que mudou a vida de todos nós. Neste ano, quero passar longe daqui", diz.

Na época, Edilene teve depressão. "Não me sentia muito bem, mas ao longo do tempo me acostumei e percebi que a vida continua", relatou.

A psicóloga da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo) Angélica Capelari diz que, para não se envolver com o trauma, muitas pessoas acabam se tornando frias. "É uma maneira de continuar vivendo e não se envolver com uma coisa que é dolorosa."

O neto de 14 anos da aposentada Aparecida Conceição Rodrigues, 67, não consegue mais ir à casa da avó. "Só de vir aqui, ele já não se sente bem", relata Aparecida.

Angélica diz que, se para os adultos enfrentar uma situação como essa é difícil, para crianças e adolescentes pode ser pior ainda. "Se mesmo para um adulto o trauma que fica é grande, a criança então tem maior dificuldade em saber lidar com essa situação. Muitas vezes é necessário acompanhamento psicológico", explica Angélica.

Após um ano, laudo pericial do IC ainda não foi concluído
Ainda não foi concluído o inquérito policial sobre o incêndio no galpão da Di-All, no Jardim Ruyce, em Diadema, que completa um ano dia 27. Segundo o delegado titular do 4º DP da cidade - responsável pelo caso -, Miguel Ferreira da Silva, falta a entrega do laudo pericial do IC (Instituto de Criminalística), documento necessário para o prosseguimento das investigações.

Para Silva, porém, a demora para a entrega deste documento é considerada normal em um caso como o da Di-All. "São muitos detalhes para serem checados. É preciso analisar, por exemplo, se a quantidade de material que estaria armazenada no local condiz com as informações fornecidadas pela empresa", afirmou.

Contaminação - A Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) informou, por meio de nota, que deve iniciar nos próximos dias estudo ambiental da área que era ocupada pela Di-All. Dentre os pontos a serem analisados está a possibilidade de contaminação do lençol freático.



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