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Lusíadas futurista


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

10/06/2006 | 07:23


Amanhã, Portugal e Angola estréiam na Copa do Mundo de Futebol às 16h (horário de Brasília). O jogo ocorre exatamente um dia depois do Dia de Portugal, quando também é lembrado o Dia de Camões (1524-1580), poeta humanista português que narrou a epopéia dos navegantes lusitanos em sua viagens de descobertas e conquistas ultramarinas. Portanto, a partida de amanhã pode ser comparada a uma espécie de revanche entre a ex-colônia portuguesa e a Metrópole colonial.

Mas é do Brasil, da margem oriental do Atlântico, que vem uma das homenagens ao bardo português, justamente da ex-colônia portuguesa mais bem sucedida em um campo de conquistas no qual os portugueses costumam nadar e morrer na praia, a Copa do Mundo de Futebol. A narrativa em quadrinhos Lusíadas 2500 (Companhia Editora Nacional, 192 págs., R$ 32) é o primeiro volume de uma série de três que a editora e o artista gráfico pernambucano Lailson de Holanda Cavalcanti vão disponibilizar com uma abordagem inusitada do épico poético Os Lusíadas: os portugueses são navegantes do espaço sideral mil anos no futuro, as novas ilhas descobertas são asteróides e as caravelas são naves espaciais.

O texto é integral dos cantos I, II, III e IV do épico, de um total de dez, entremeados com rápidos diálogos inseridos pelo autor e a inclusão dos dramáticos episódios de Inês de Castro (Canto III) e do Velho do Restelo (Canto IV), narrados num flashback para o rei de um asteróide de feições mouras a quem os portugueses, protegidos de Vênus e perseguidos por Baco, eram apresentados como heróicos navegantes.

Não dá para escapar aos olhos o trabalho monumental de Cavalcanti, mas também não dá para deixar de observar certos poréns. O autor tem experiência em fazer história em quadrinhos. Literalmente, ele junta temas do passado com desenhos em narrativa seqüencial. Seu Pindorama - A Outra História do Brasil (2004) tinha o humor como farol mestre e ilustrou a história do Brasil sob um ponto de vista crítico a partir da visão de um lavador de convés das caravelas que entra em contato com seres mitológicos brasileiros e viaja no tempo. Pindorama (terra das palmeiras, nome que os índios davam a toda a extensão que conheciam do território que habitavam) foi seu cartão de visitas. A meta do autor e da editora é oferecer clássicos da história e literatura em linguagem acessível.

Curioso é que sua trajetória vem do humor gráfico. Começou como chargista na imprensa pernambucana e, de 1977 ao ano passado, fez charges para o Diário de Pernambuco (a série Pindorama, que virou álbum em 2004, inclusive) além de outros veículos como Pasquim, revista Mad brasileira, Veja, Jornal do Brasil, Miami Herald, e outros. Publicou os livros de humor gráfico O que Vier eu Traço (1981), Essa Vida É um Circo (1989), Democracia pra Mim é Grego (1984), Retrato Oficial (2001) e Livro do Bom Humor (2005). Em 1999 criou e foi curador do Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco até o ano passado.

É inegável que a leitura dos versos de Camões acompanhados dos desenhos de Cavalcanti tornam a obra do autor português mais acessível. São complementares, na maioria das vezes, mas a obra como um conjunto único não tem o requinte categórico que se esperaria de uma empreitada grandiosa.

Com mais tempo de execução talvez o desenho não saísse tão apressado a ponto de os detalhes se perderem numa arte final da figura humana com resultado aquém do desejado em alguns casos, sem falar na repetição de figuras pela obra inteira - sereias e alguns "heróis" portugueses, por exemplo. Os cenários têm alguns bons momentos, que o autor poderia tê-los explorado mais, mas nada que um Hergé ou Uderzo não fizesse com esmero, e o próprio Cavalcanti também - vide Pindorama.

Se faltou tempo para corrigir esses detalhes, sobrou fôlego para conceber uma história de visual original, que usa bem os versos como gabarito dando-lhes uma interpretação eficiente. Há soluções criativas, como o andróide KMOS1572, que grava a viagem de Vasco da Gama para relatá-la ao rei. Observado em detalhes, percebe-se que ele é caolho do olho direito e seu nome remete-se ao de Camões e o número ao ano em que Os Lusíadas foi publicado pela primeira vez.

Luís Vaz de Camões teria nascido no ano da morte do almirante Vasco da Gama (que descobriu o caminho marítimo para as Índias, e não é metáfora futebolística). A morte do poeta potuguês ocorreu no dia 10 de junho de 1580, ano em que Portugal ficou sob domínio espanhol (até 1640) e passou a cultivar a nostalgia pelas glórias de um império onde o sol não se punha, segundo versos do Canto I (a Inglaterra diria isso de si mesma, mas só no século XIX).

Não é demais lembrar que a empreitada portuguesa de avançar mar adentro, uma jornada diante do desconhecido, requeria um avanço tecnológico para a época e um desprendimento humano que hoje tem seu paralelo na corrida espacial. Assim, o século XXVI, da obra de Cavalcanti, encontra o século XVI da epopéia de Camões em mares nunca antes navegados. Para os próximos volumes, aguarda-se mais engenho e arte.


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Lusíadas futurista

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

10/06/2006 | 07:23


Amanhã, Portugal e Angola estréiam na Copa do Mundo de Futebol às 16h (horário de Brasília). O jogo ocorre exatamente um dia depois do Dia de Portugal, quando também é lembrado o Dia de Camões (1524-1580), poeta humanista português que narrou a epopéia dos navegantes lusitanos em sua viagens de descobertas e conquistas ultramarinas. Portanto, a partida de amanhã pode ser comparada a uma espécie de revanche entre a ex-colônia portuguesa e a Metrópole colonial.

Mas é do Brasil, da margem oriental do Atlântico, que vem uma das homenagens ao bardo português, justamente da ex-colônia portuguesa mais bem sucedida em um campo de conquistas no qual os portugueses costumam nadar e morrer na praia, a Copa do Mundo de Futebol. A narrativa em quadrinhos Lusíadas 2500 (Companhia Editora Nacional, 192 págs., R$ 32) é o primeiro volume de uma série de três que a editora e o artista gráfico pernambucano Lailson de Holanda Cavalcanti vão disponibilizar com uma abordagem inusitada do épico poético Os Lusíadas: os portugueses são navegantes do espaço sideral mil anos no futuro, as novas ilhas descobertas são asteróides e as caravelas são naves espaciais.

O texto é integral dos cantos I, II, III e IV do épico, de um total de dez, entremeados com rápidos diálogos inseridos pelo autor e a inclusão dos dramáticos episódios de Inês de Castro (Canto III) e do Velho do Restelo (Canto IV), narrados num flashback para o rei de um asteróide de feições mouras a quem os portugueses, protegidos de Vênus e perseguidos por Baco, eram apresentados como heróicos navegantes.

Não dá para escapar aos olhos o trabalho monumental de Cavalcanti, mas também não dá para deixar de observar certos poréns. O autor tem experiência em fazer história em quadrinhos. Literalmente, ele junta temas do passado com desenhos em narrativa seqüencial. Seu Pindorama - A Outra História do Brasil (2004) tinha o humor como farol mestre e ilustrou a história do Brasil sob um ponto de vista crítico a partir da visão de um lavador de convés das caravelas que entra em contato com seres mitológicos brasileiros e viaja no tempo. Pindorama (terra das palmeiras, nome que os índios davam a toda a extensão que conheciam do território que habitavam) foi seu cartão de visitas. A meta do autor e da editora é oferecer clássicos da história e literatura em linguagem acessível.

Curioso é que sua trajetória vem do humor gráfico. Começou como chargista na imprensa pernambucana e, de 1977 ao ano passado, fez charges para o Diário de Pernambuco (a série Pindorama, que virou álbum em 2004, inclusive) além de outros veículos como Pasquim, revista Mad brasileira, Veja, Jornal do Brasil, Miami Herald, e outros. Publicou os livros de humor gráfico O que Vier eu Traço (1981), Essa Vida É um Circo (1989), Democracia pra Mim é Grego (1984), Retrato Oficial (2001) e Livro do Bom Humor (2005). Em 1999 criou e foi curador do Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco até o ano passado.

É inegável que a leitura dos versos de Camões acompanhados dos desenhos de Cavalcanti tornam a obra do autor português mais acessível. São complementares, na maioria das vezes, mas a obra como um conjunto único não tem o requinte categórico que se esperaria de uma empreitada grandiosa.

Com mais tempo de execução talvez o desenho não saísse tão apressado a ponto de os detalhes se perderem numa arte final da figura humana com resultado aquém do desejado em alguns casos, sem falar na repetição de figuras pela obra inteira - sereias e alguns "heróis" portugueses, por exemplo. Os cenários têm alguns bons momentos, que o autor poderia tê-los explorado mais, mas nada que um Hergé ou Uderzo não fizesse com esmero, e o próprio Cavalcanti também - vide Pindorama.

Se faltou tempo para corrigir esses detalhes, sobrou fôlego para conceber uma história de visual original, que usa bem os versos como gabarito dando-lhes uma interpretação eficiente. Há soluções criativas, como o andróide KMOS1572, que grava a viagem de Vasco da Gama para relatá-la ao rei. Observado em detalhes, percebe-se que ele é caolho do olho direito e seu nome remete-se ao de Camões e o número ao ano em que Os Lusíadas foi publicado pela primeira vez.

Luís Vaz de Camões teria nascido no ano da morte do almirante Vasco da Gama (que descobriu o caminho marítimo para as Índias, e não é metáfora futebolística). A morte do poeta potuguês ocorreu no dia 10 de junho de 1580, ano em que Portugal ficou sob domínio espanhol (até 1640) e passou a cultivar a nostalgia pelas glórias de um império onde o sol não se punha, segundo versos do Canto I (a Inglaterra diria isso de si mesma, mas só no século XIX).

Não é demais lembrar que a empreitada portuguesa de avançar mar adentro, uma jornada diante do desconhecido, requeria um avanço tecnológico para a época e um desprendimento humano que hoje tem seu paralelo na corrida espacial. Assim, o século XXVI, da obra de Cavalcanti, encontra o século XVI da epopéia de Camões em mares nunca antes navegados. Para os próximos volumes, aguarda-se mais engenho e arte.

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