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Todas as cores do mulato Lima Barreto


João Marcos Coelho
Especial para o Diário do Grande ABC

06/04/2002 | 16:18


"É triste não ser branco". A frase dolorosamente escrita em um de seus vários diários marcou a vida de Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido e morto na cidade do Rio de Janeiro, mulato, alcoólatra e louco que viveu entre os anos de 1881 e 1922. Os paulistas, Mário de Andrade à frente, fizeram a Semana de Arte Moderna e não se deram conta da modernidade do autor de romances agudos como Triste Fim de Policarpo Quaresma e Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e de dezenas de outros contos, além daquele que se tornou famoso e tema de trabalhos escolares, O Homem que Sabia Javanês, com direito até a adaptação pela Globo.

Marginalizado não só em vida, mas na posteridade, Lima Barreto somente agora ganha uma edição praticamente completa de sua obra, com o lançamento de Prosa Seleta, volume da Editora Nova Aguilar em 1,5 mil páginas de papel-bíblia. A edição aparenta ser cuidadosa, com suas mais de 100 páginas de fortuna crítica, e o preço pressupõe isso: R$ 160. Ao contrário do que é habitual nas edições da Nova Aguilar, nesta faltou revisão. Há sujeito separado de predicado por vírgula, crases erradas, erros de concordância, vírgulas sem pé nem cabeça, pastéis de letras invertidas à vontade. Parece que o destino teima em ser cruel com Lima Barreto, que reclamava muito das raras edições que pôde examinar de sua produção: "Infelizmente, meus editores não têm pressa de imprimir o que lhes entrego; e, quando o fazem é a trouxe-mouxe, às pressas, de forma que a obra sai mal impressa, feia, errada, até empastelada. Que se há de fazer? É preciso lugar para... tirar menção honrosa na Academia de Letras".

Lima Barreto, filho de tipógrafo e professora da rede pública, sempre cultivou o que chama, em seu diário íntimo, de "respeito supersticioso da honestidade". Assim, confessa, "as mínimas coisas me parecem grandes crimes e eu fico abalado e sacolejante". Aos 7 anos foi injustamente acusado de furto, quando sua mãe morreu, e teve sua primeira "mania do suicídio". Se a loucura e a bebida rondaram-lhe os passos por toda a vida, é também verdade que ele jamais se omitiu do dia-a-dia e da realidade econômica, política e social perversa do Brasil daquele início de século 20.

Claro, os grandes romances que lhe asseguram lugar importante na literatura brasileira estão todos lá. Mas a parte mais preciosa deste livro compõe-se das sátiras (Os Bruzundangas e Coisas do Reino do Jambom) e da memorialística (Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos). São mais de 600 páginas de forte impacto, descrevendo e satirizando tanto as palhaçadas dos políticos quanto a dos feitores da arte e da cultura brasileiras da época. Na memorialística, Lima Barreto mergulha fundo no inferno da vida de escritor maltratado pelos jornais e revistas da época, e sobretudo nas longas estadas no hospício.

Entre as 100 páginas da fortuna crítica que abre o volume, destacam-se as duas geniais de João Antônio. Pois o autor de Malagueta, Perus e Bacanaço dá a Lima Barreto uma definição primorosa, "pingente", e explica: "Daí a condição, em que até hoje é mantido, de uma espécie de pingente no quadro geral de nossos valores literários. Literalmente."

Trechos

"Agora, é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe de seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos, no conceito de todos (...) Ora, uma mulatinha, filha de um carteiro! (...) Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que ela o admitia."

(Clara dos Anjos, momento em que Clara, grávida, procura a mãe do amante e é por ela insultada)

"Seria muito melhor que me dirigisse ao maior número possível, com auxílio de livros singelos, ao alcance das inteligências médias, com uma instrução geral, do que gastar tempo com obras só capazes de serem entendidas por sabichões enfatuados, abarrotados de títulos e tiranizados na sua inteligência pelas tradições de escolas e academias e por preconceitos livrescos e de autoridades."

(Cemitério dos Vivos)



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Todas as cores do mulato Lima Barreto

João Marcos Coelho
Especial para o Diário do Grande ABC

06/04/2002 | 16:18


"É triste não ser branco". A frase dolorosamente escrita em um de seus vários diários marcou a vida de Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido e morto na cidade do Rio de Janeiro, mulato, alcoólatra e louco que viveu entre os anos de 1881 e 1922. Os paulistas, Mário de Andrade à frente, fizeram a Semana de Arte Moderna e não se deram conta da modernidade do autor de romances agudos como Triste Fim de Policarpo Quaresma e Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e de dezenas de outros contos, além daquele que se tornou famoso e tema de trabalhos escolares, O Homem que Sabia Javanês, com direito até a adaptação pela Globo.

Marginalizado não só em vida, mas na posteridade, Lima Barreto somente agora ganha uma edição praticamente completa de sua obra, com o lançamento de Prosa Seleta, volume da Editora Nova Aguilar em 1,5 mil páginas de papel-bíblia. A edição aparenta ser cuidadosa, com suas mais de 100 páginas de fortuna crítica, e o preço pressupõe isso: R$ 160. Ao contrário do que é habitual nas edições da Nova Aguilar, nesta faltou revisão. Há sujeito separado de predicado por vírgula, crases erradas, erros de concordância, vírgulas sem pé nem cabeça, pastéis de letras invertidas à vontade. Parece que o destino teima em ser cruel com Lima Barreto, que reclamava muito das raras edições que pôde examinar de sua produção: "Infelizmente, meus editores não têm pressa de imprimir o que lhes entrego; e, quando o fazem é a trouxe-mouxe, às pressas, de forma que a obra sai mal impressa, feia, errada, até empastelada. Que se há de fazer? É preciso lugar para... tirar menção honrosa na Academia de Letras".

Lima Barreto, filho de tipógrafo e professora da rede pública, sempre cultivou o que chama, em seu diário íntimo, de "respeito supersticioso da honestidade". Assim, confessa, "as mínimas coisas me parecem grandes crimes e eu fico abalado e sacolejante". Aos 7 anos foi injustamente acusado de furto, quando sua mãe morreu, e teve sua primeira "mania do suicídio". Se a loucura e a bebida rondaram-lhe os passos por toda a vida, é também verdade que ele jamais se omitiu do dia-a-dia e da realidade econômica, política e social perversa do Brasil daquele início de século 20.

Claro, os grandes romances que lhe asseguram lugar importante na literatura brasileira estão todos lá. Mas a parte mais preciosa deste livro compõe-se das sátiras (Os Bruzundangas e Coisas do Reino do Jambom) e da memorialística (Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos). São mais de 600 páginas de forte impacto, descrevendo e satirizando tanto as palhaçadas dos políticos quanto a dos feitores da arte e da cultura brasileiras da época. Na memorialística, Lima Barreto mergulha fundo no inferno da vida de escritor maltratado pelos jornais e revistas da época, e sobretudo nas longas estadas no hospício.

Entre as 100 páginas da fortuna crítica que abre o volume, destacam-se as duas geniais de João Antônio. Pois o autor de Malagueta, Perus e Bacanaço dá a Lima Barreto uma definição primorosa, "pingente", e explica: "Daí a condição, em que até hoje é mantido, de uma espécie de pingente no quadro geral de nossos valores literários. Literalmente."

Trechos

"Agora, é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe de seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos, no conceito de todos (...) Ora, uma mulatinha, filha de um carteiro! (...) Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que ela o admitia."

(Clara dos Anjos, momento em que Clara, grávida, procura a mãe do amante e é por ela insultada)

"Seria muito melhor que me dirigisse ao maior número possível, com auxílio de livros singelos, ao alcance das inteligências médias, com uma instrução geral, do que gastar tempo com obras só capazes de serem entendidas por sabichões enfatuados, abarrotados de títulos e tiranizados na sua inteligência pelas tradições de escolas e academias e por preconceitos livrescos e de autoridades."

(Cemitério dos Vivos)

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