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Documentário sobre Pingüins


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

13/01/2006 | 08:44


Os personagens usam todos o mesmo figurino, apresentam comportamentos exatamente iguais, compartilham um único objetivo e aparecem às centenas na tela – cerca de 1,2 mil, segundo as notas de produção. Monótono? Não. Se há algo que não pode ser dito do documentário francês A Marcha dos Pingüins é que seu registro de um ciclo na vida das aves que povoam a Antártida seja tedioso. E que os créditos sejam dados mais aos anos e anos de narrativa clássica do cinema que ao diretor Luc Jacquet, aqui em seu longa-metragem de estréia.

A Marcha dos Pingüins é franco favorito ao Oscar de melhor documentário, categoria que atraiu atenção muito maior depois dos episódios de histeria política em torno das produções de Michael Moore (Tiros em Columbine). A propósito, o filme de Jacquet só não é o documentário mais lucrativo na história das arrecadações nos Estados Unidos por causa de uma obra de Moore. Farenheit – 11 de Setembro lidera o ranking com US$ 119 milhões, enquanto A Marcha dos Pingüins, com orçamento de US$ 8 milhões, fixou-se em segundo com US$ 77 milhões alcançados (mundialmente, foram US$ 111 milhões até agora).

No papel, Jacquet é biólogo, não cineasta. Mas já assistiu a um bom filme de estrutura clássica, como deixa evidente no documentário. Existe uma passagem em All That Jazz – O Show Deve Continuar (1979), autobiografia cinematográfica de Bob Fosse, em que o personagem principal, cineasta e coreógrafo, é duramente censurado por uma crítica de cinema, que sublinha o seu “esforço artificial em entreter e emocionar”. Linhas que podem ser parcialmente anexadas ao trabalho de Jacquet.

Seu objeto é um bando de pingüins-imperador, todos machos, que peregrinam durante quatro meses através da Antártida em busca das respectivas fêmeas para procriar. Os obstáculos: temperaturas de 65 graus abaixo de zero, predadores, escassez de alimento e ventos que ultrapassam os 160 quilômetros por hora. O objetivo: gerar um único ovo para a perseverança da espécie.

Foram meses de permanência na locação, que resultaram em 120 horas de filmagem. Material farto, sem dúvida, para fins biológicos. Para fins cinematográficos, Jacquet persegue as estratégias da narrativa ficcional para fazer de seu documentário algo mais do que um registro científico. E dá-lhe as lições assimiladas a partir do cinema clássico – leia-se estrutura, não tradição – com claras menções às filmografias de Steven Spielberg e Martin Scorsese, sobretudo. Existe um debate interno entre ciência e arte em A Marcha dos Pingüins na tentativa de viabilizar o documento para um público mais amplo que o das aulas de biologia e dos círculos acadêmicos.

Antes de condenar a falta de ortodoxia de Jacquet, vale destacar que parte considerável dos efeitos que alcança são mais em função da pós-produção que do material filmado. Ou seja, são praticamente obtidos por meios essencialmente cinematográficos, como a edição e a música (de Alex Wurman) que tonifica o cotidiano dos pingüins conforme as pretensões de seu autor, do cômico ao épico, do trágico ao heróico. A Marcha dos Pingüins diverte e nos faz questionar sobre os becos em que o cinema tem se enfiado ultimamente. Se alguém, munido das mais banais estratégias audiovisuais, pode criar comoção a partir de personagens como pingüins, está na hora de repensar o cinema como arquitetura e discurso. Em resumo, que tirem o time de campo aqueles que se escoram no cinema clássico, que anda só o bagaço, apenas pela facilidade de comunicação com o público – exceção feita a poucos, Scorsese entre eles.

A MARCHA DOS PINGÜINS (La Marche de l’ Empereur, França, 2005). Dir.: Luc Jacquet. Estréia nesta sexta no ABC Plaza 10, Cineclube Vitrine 1, Espaço Unibanco 1, HSBC Belas Artes 1, Reserva Cultural, Central Plaza 7 e Unibanco Arteplex 1. Duração: 85 minutos. Censura livre.

 


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