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Livro inspirado em pacientes do Caps aborda a ansiedade feminina

Autora de Ribeirão Pires acompanhou por três meses usuárias durante o tratamento

Thainá Lana
16/12/2024 | 07:01
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Celso Luiz

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 Como funciona a mente de uma pessoa ansiosa? Foi em busca de retratar histórias reais e dar voz a mulheres negras com ansiedade que a escritora e professora Daniela Simone Terehoff Merino, 35 anos, e sua irmã mais nova, Cláudia Terehoff Merino, 30, produziram o livro Dona do Mar ou Em busca de mim. A obra fictícia foi construída por meio de relatos reais, entre eles de pacientes do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de Ribeirão Pires, que realizam tratamento para o transtorno na unidade. No total, são atendidos 27.227 usuários, sendo que 2.168 são mulheres com ansiedade.

Em 254 páginas, o livro conta a história de Luzia, uma mulher negra de 49 anos, moradora de Ribeirão Pires, que possui ansiedade e dedica a vida ao cuidado da mãe acamada. Após uma crise, a personagem principal se descobre mentalmente e busca um caminho de transformação interno para viver a vida que sempre sonhou. O exemplar foi lançado em outubro deste ano e financiado pela Lei Paulo Gustavo, de número 195/2022, do governo federal, com apoio da Prefeitura de Ribeirão.

A ideia para o livro surgiu em 2022, após Daniela observar os crescentes casos de ansiedade no Brasil, intensificados na pandemia da Covid-19, e também entre seus alunos – ela é professora de português na rede privada do município. Sua outra irmã, mais velha, diagnosticada com ansiedade e paciente do Caps, também foi uma das inspirações da escritora para trabalhar com a temática. 

Por três meses, a autora acompanhou o grupo de pacientes, de abril a julho deste ano, voltado para mulheres com mais de 60 anos, e passou a ouvir as histórias e a realidade de pessoas que vivem com ansiedade. A ideia era coletar depoimentos e observações que ajudassem a construir a personagem principal do livro. Sem citar nomes, a autora ribeirão-pirense utilizou algumas das histórias coletadas na unidade de saúde em cenas do livro. Um dos episódios descritos foi de uma mulher que tinha visões do seu filho morto, por conta de uma doença, e isso acontecia durante atividades do cotidiano, enquanto lavava louça, por exemplo. 

Após o lançamento, Daniela retornou à unidade e presenteou as usuárias com um exemplar autografado, além de ministrar uma oficina criativa para o grupo de idosas.

“O Caps foi o primeiro lugar que veio à minha cabeça quando pensei em tratar do assunto e dar mais legitimidade e veracidade à história. Meu escritor favorito, Anton Tchekhov, dizia: ‘Não pinte quadros que você não viu’. Então, eu precisava ver. Era muito importante relatar esse transtorno em uma personagem negra, porque durante as pesquisas descobri que esse grupo é o que mais sofre com ansiedade”, explica Daniela, que é autora de outros quatro livros. A escritora e docente também é tradutora de russo e possui mestrado e doutorado pela USP (Universidade de São Paulo). 

Daniela ainda conta sobre o aprendizado durante o processo de estudo, que incluiu pesquisa cinematográfica e literária, além de entrevistas com outras mulheres e profissionais. “Ouvi muitas histórias com que nem podia sonhar antes de começar o processo das entrevistas. Ouvi pessoas dizendo que não tinham motivos para serem felizes, mulheres contando histórias sobre como haviam tentando se matar no passado, ouvi de tudo. Abrir esse espaço para a escuta não é nada fácil, pois mexe com a gente por dentro. Acho que tudo isso me fez ter mais empatia em relação a pessoas que sofrem por ter ansiedade”, revela a autora. 

CONEXÃO FAMILIAR

O desenvolvimento da história do livro ocorreu em parceria com a irmã mais nova de Daniela, Cláudia Terehoff Merino, responsável pelas ilustrações da obra. Professora de desenho na Emarp (Escola Municipal de Artes de Ribeirão Pires), Cláudia conta que o processo de criação ocorreu de maneira natural e em equipe – as duas já trabalharam juntas em outros três livros. 

“Sempre leio a história e escolho a cena mais marcante para desenhar. A Dani me deu muita liberdade para decidir quais momentos importantes do livro iriam virar ilustrações. A parte mais complexa é sempre o começo, definir o estilo, as características dos personagens. Então quanto mais descrições o autor inclui mais fácil fica o trabalho de ilustração”, diz Cláudia, que participou da criação da aparência e da personalidade da Luzia, personagem principal do livro.

Daniela destaca que a escrita e a ilustração se influenciaram mutuamente. “Ou seja, às vezes eu parto de alguma ilustração dela para escrever, e não o contrário. O final do livro surgiu assim, a partir da arte”, declara a escritora. 

O livro Dona do Mar ou Em busca de mim é comercializado diretamente pela autora Daniela, através da sua página no Instagram (@daniterehoff).




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