Em Santo André Esteticista de S.Bernardo, que teve câncer de mama, realiza reconstrução da aréola mamária com micropigmentação; 150 mulheres já foram beneficiadas
Denis Maciel/DGABC

Foi a partir de sua luta contra o câncer de mama que a esteticista de São Bernardo, Patrícia Drudi, 47 anos, decidiu realizar um trabalho voluntário de reconstrução de aréola mamária para pacientes oncológicas no Grande ABC. O procedimento consiste na micropigmentação 3D (espécie de tatuagem sem relevo) da área localizada ao redor do mamilo e é voltada para mulheres que passaram por mastectomia, cirurgia que remove parcial ou totalmente o seio devido ao diagnóstico de câncer.
O projeto social é uma parceria da esteticista com a ONG (Organização Não Governamental) Viva Melhor, de Santo André, que atende a pacientes oncológicas. O Cepho (Centro de Estudos e Pesquisas de Hematologia e Oncologia) da FMABC (Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC) concede o espaço para que o procedimento seja realizado uma vez por semana. Em dois anos, 150 mulheres da região e de outros municípios da Grande São Paulo já foram beneficiadas gratuitamente com a reconstrução da aréola mamária, intervenção que pode chegar a custar, em média, R$ 2.500.
O câncer de mama é o mais comum no Brasil e no mundo, depois do de pele não melanoma. A doença também é a principal causa de morte entre os vários tipos em mulheres, segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer). Na região, a rede estadual de saúde realizou 26.735 atendimentos de câncer de mama em 2024, de acordo com o governo de São Paulo.
Aos 38 anos, Patrícia Drudi recebeu o diagnóstico de câncer e precisou retirar a mama esquerda, em 2016. Uma semana após a realização da mastectomia, parte da aréola mamária necrosou. Foi quando o sentimento de alívio pela cura da doença foi substituído pela insegurança. “Não conseguia me olhar no espelho, me escondi. Quando fui diagnosticada com a doença já estava preparada para perder o cabelo, a sobrancelha, mas não para a aréola e isso mexeu muito comigo”, contou a esteticista.
Após buscas na internet, Patrícia encontrou a possibilidade de reconstrução da área afetada a partir da micropigmentação, procedimento até então desconhecido por ela. Assim como promove para outras mulheres, a são-bernardense realizou a intervenção por um projeto social de Campinas, chamado Arte e Compaixão – há 10 anos ela participa do mutirão de reconstrução, realizado todos os anos em outubro.
“O meu caso era somente um pedaço da aréola e impactou muito a minha autoestima. Depois da reconstrução, decidi que precisava ajudar outras mulheres. Muitas nem sabem que essa possibilidade existe”, explicou. Para concretizar seu novo objetivo, Patrícia, que atuava na área de marketing, cursou estética e cosmetologia e hoje está finalizando a graduação em biomedicina. Além da micropigmentação, a esteticista é pioneira na criação de próteses de aréolas moldadas em silicone pelo método Sacred Flower, desenvolvida para mulheres que ainda não podem receber a micropigmentação.
Procedimento
“Existe uma cobrança da sociedade. Quem passa pela cirurgia (mastectomia) ouve que o mais importante é estar curada. Mas existem outros valores, como o resgate da autoestima, que nos fazem ter mais força para seguir em frente. Quando devolvemos essa naturalidade à mulher, damos um novo significado à sua vida”, pontuou Patrícia.
A reconstrução de aréolas é oferecida pelo Cepho há 25 anos, também de forma gratuita, e anteriormente era conduzida pelo profissional Ronaldo Coelho, de Santo André – o médico morreu há mais de dois anos. Patrícia Drudi, que assumiu o trabalho voluntário no local, sonha ainda em expandir os atendimentos.
“Nesse período atendi 150 mulheres, mas poderiam ter sido muito mais beneficiadas. Infelizmente, o período é curto, tenho menos de quatro horas, uma vez por semana, para atender às pacientes. Meu objetivo é conseguir mais parcerias para fazer mutirões aqui no Grande ABC e ampliar esse trabalho. Muitas pessoas precisam e nem sabem que a reconstrução pode ser feita”, finalizou a esteticista.
‘Ganhei mais confiança e liberdade com o procedimento’
A representante comercial de Ribeirão Pires, Márcia Romualdo de Mello, 63, não esconde a felicidade e a confiança conquistada após ter passado pelo procedimento de micropigmentação, em dezembro de 2024, com o trabalho voluntário relizado pela esteticista.
Diagnosticada com câncer de mama em 2021, após aparecimento de feridas na aréola, Márcia precisou retirar parte da mama. Com o fim do tratamento, após passar por sessões de quimioterapia e radioterapia, além de medicamentos, ela foi informada por sua médica da possibilidade da reconstrução da área pela técnica de micropigmentação, porém, o valor do procedimento estava fora do seu orçamento.
“Você fica extremamente grata por estar viva e por ter a oportunidade de fazer o tratamento, porém, quando a aréola é retirada, você se sente mutilada. Quando a gente se olha no espelho, vê apenas um pedaço de carne. Queria muito fazer, mas não tinha condições financeiras, foi quando conheci o trabalho da ONG Viver Melhor e a minha vida mudou”, contou Márcia.
A representante comercial detalha as privações vividas antes do procedimento estético e celebra as mudanças. “Agora posso me trocar na hidroginástica, não preciso me esconder mais. Não fico mais envergonhada de vestir ou tirar a roupa perto de crianças no vestiário. A minha relação conjugal também melhorou muito, antes me escondia do meu marido. Resgatei 100% a minha autoestima”, revelou.
Em 2022, então aos 38 anos, a andreense Letícia Araújo de Oliveira, foi a quinta mulher da sua família a ser diagnosticada com câncer de mama, após realizar um autoexame. Enfermeira da rede municipal de saúde de Santo André, ela realizou 16 sessões de quimioterapia e outras cinco de radioterapia, e no ano seguinte, retirou as duas mamas – a direita por causa do câncer e a esquerda como medida de redução de risco, pois tinha 50% de chances de desenvolver a doença.
Agora, Letícia aguarda uma cirurgia de reparação mamária para iniciar a reconstrução da aréola com o projeto social, que deve ocorrer somente no início do próximo ano. Nesse período, a enfermeira optou por utilizar uma prótese de silicone, desenvolvida pela esteticista Patrícia Drudi, enquanto não pode fazer o procedimento definitivo.
“É muito agressivo você se ver com as duas mamas diferentes e sem a aréola. O primeiro dia que a Patrícia colocou a prótese foi totalmente diferente de me ver no espelho, ficou muito natural. Esse processo foi muito importante para a retomada da minha autoestima e também do meu bem-estar. Ganhei mais confiança e liberdade com o procedimento. Hoje, já acostumei e utilizo as próteses de vez em quando, não uso sempre, mas é importante ter a opção de escolha. Pensei que nunca mais ia ter”, falou Letícia, emocionada.
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