Andreense de 23 anos realiza tratamento para ludopatia e depressão no Caps; alta demanda faz Sto.André criar grupo de apoio a apostadores
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Foi pensando em buscar uma renda extra para ajudar o comércio da família que a andreense Geanny Yassuda de Oliveira, 23 anos, começou a jogar nas bets, (palavra em inglês para aposta) e que se refere a jogos on-line em casas de apostas. “Perdi R$ 42 mil, entre meu dinheiro e dos meus pais. Por conta do prejuízo, tive recorrentes pensamentos suicidas, pois não via mais saída e só queria acabar com tudo”, relata a jovem, que começou a apostar em setembro de 2023 em jogos de cartas.
Desde 2018, as apostas de cota fixa (modalidade em que o apostador sabe, no momento da aposta, qual será o valor do seu possível ganho caso acerte o resultado) de eventos esportivos são legalizadas por meio da lei 13.756/2018. Em 2023, os jogos on-line foram regulamentados com a sanção da lei 14.790/2023 e a posterior publicação de portarias pela recém-criada Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda – na prática, a regularização das bets.
Segundo pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) divulgada neste ano, cerca de 2 milhões de brasileiros são hoje viciados em jogos de azar.
Diagnóstica com depressão, ansiedade e ludopatia (condição médica caracterizada pela compulsão por jogos), Geanny precisou de ajuda da irmã mais velha para conseguir sair da dependência. Ela conta que jogava da hora que acordava até dormir, durante qualquer atividade do dia, até mesmo enquanto dirigia. As apostas começaram com valores baixos, como R$ 10. Com o passar do tempo, foi aumentando para R$ 100 até chegar ao nível de apostar R$ 1.500 em uma única partida.
Após a família descobrir sobre o prejuízo que sua dependência nos jogos virtuais tinha ocasionado, a jovem teve uma crise de ansiedade e foi levada pela irmã à emergência do CHM (Centro Hospitalar de Santo André). “Não sabia que estava doente, que estava dependente daquilo, achava que tinha tudo sobre controle. Inicialmente, comecei a utilizar o dinheiro do meu salário, depois passei a usar o dinheiro do comércio da minha família e também os cartões de crédito dos meus pais. Quanto mais perdia, mais jogava para tentar recuperar”, revela Geanny.
Após o atendimento na unidade hospitalar, a andreense procurou tratamento no Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) de Santo André. Com acompanhamento psicológico, Geanny está desde o início de outubro sem jogar, encontrou novos hábitos, como a leitura, e está trabalhando no seu desenvolvimento pessoal. “Já tinha ansiedade, mas hoje percebi que também tinha depressão severa não tratada. A dependência só agravou meus transtornos e transferi tudo para as apostas”, relata a andreense.
Além dela, outras 14 pessoas, todas dependentes de jogos virtuais de apostas ou de azar, realizam acompanhamento no Caps AD. Por conta da alta demanda, que passou de três usuários em 2023 para 15 neste ano, o equipamento criou um novo grupo de apoio aos apostadores. No total, 45 pessoas realizam tratamento na unidade.
A iniciativa de grupos de apoio específicos para apostadores busca aumentar a identificação entre os pacientes. Apesar de ser uma condição médica, assim como dos dependentes de substâncias químicas, os usuários não se identificavam em grupos voltados para essas patologias, afirma a gerente administrativa do Caps AD, Patrícia Batista Alves Teixeira.
Em Ribeirão Pires, nove pacientes realizam atualmente o tratamento para dependência em jogos no Caps AD do município. No ano passado, três usuários iniciaram o acompanhamento na unidade. Os demais municípios não informaram os dados.
DOENÇA
A psicóloga Juliana Penha, que atende Geanny, explica que a ludopatia funciona da mesma maneira que o mecanismo da dependência de álcool ou drogas. “A pessoa desenvolve a fissura pelo jogo. Ao invés de uma substância química, o ato de jogar ativa o sistema de recompensa do cérebro, circuito que processa a informação relacionada à sensação de prazer ou satisfação”, diz Juliana, que destaca que a dopamina, hormônio ligado a esse sistema, é liberada quando a pessoa joga e isso acaba reforçando a compulsão.
Quando o apostador perde, sintomas depressivos e de angústia são recorrentes, pontua a psicóloga. “A questão do suicídio ocorre com frequência entre os pacientes porque eles não enxergam uma saída da situação, então o desespero fala mais alto”, finaliza Juliana.
RECOMEÇO
Além do dinheiro perdido, Geanny conta que acumulou outros prejuízos na vida, como a falta de autonomia e a perda de confiança dos seus familiares. “Hoje sou completamente dependente, meu trabalho é supervisionado, não tenho mais acesso à minha conta bancária e nem ao meu celular. Sinto que sou um fardo para minha família e me questiono se um dia vão confiar em mim de novo. Tenho medo de ouvir a resposta”, lamenta.
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