S.Bernardo, Diadema e Ribeirão ainda tinham bairros sem energia após 72 horas; abastecimento de água também continuava comprometido
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O terceiro dia do apagão que teve início com a tempestade da última sexta-feira (11) foi marcado por protestos, aulas suspensas e bairros sem luz no Grande ABC. Até a última atualização da Enel, por volta do 12h, São Bernardo ainda tinha 28 mil imóveis sem luz – o município foi um dos mais afetados pela falta de energia elétrica na Região Metropolitana. No total, 430 mil consumidores continuavam às escuras nos arredores de São Paulo, sendo 280 mil só na Capital.
A Enel não informou o número total de imóveis impactados na região. Segundo a Prefeitura de Ribeirão Pires, até ontem, pelo menos cinco bairros seguiam afetados. O Paço de Diadema afirmou que o município ainda tinha locais sem energia, enquanto Santo André destacou que o sistema de iluminação pública tinha 12 circuitos desligados, o que significa 360 pontos.
A falta de energia no Grande ABC também afetou as aulas na rede estadual nesta segunda. Segundo a Seduc-SP (Secretaria da Educação do Estado), 11 unidades de ensino na região foram impactadas pelo apagão – aulas foram suspensas em três escolas de Santo André e uma de Diadema.
Alunos de outras quatro unidades em São Bernardo tiveram aulas de forma remota, enquanto mais três escolas em Diadema funcionaram de maneira presencial, mas só com a luz natural. Até ontem, o abastecimento hídrico também continuava comprometido devido à falta de energia e moradores de Santo André e Mauá enfrentaram falta de água.
A moradora do bairro Capelinha, no Riacho Grande, em São Bernardo, Eliane de Souza Santos, 46 anos, estava desde sábado (12) sem seu filho, o jovem João Victor de Souza, 11. A criança, que possui autismo, foi levada para a casa da avó, no Jardim Tupã, porque tem crises quando fica no escuro. Além da saudade do pequeno, Eliane também teve prejudicadas as vendas em seu comércio, uma casa de ração.
“Como estou sem luz, não consigo passar venda na máquina de cartão. Por dia, costumo tirar cerca de R$ 800 e já são dois dias sem nada. Além disso, perdi todos os alimentos da geladeira, tive que jogar tudo fora”, contou a comerciante. O serviço foi religado no bairro na noite de ontem.
PROTESTOS
Sem luz desde sexta-feira à noite, cerca de cem moradores do bairro Capelinha realizaram ontem pela manhã manifestação na Rodovia Caminho do Mar. Em imagens gravadas pela população, equipes da PM (Polícia Militar) jogaram bombas de efeito moral para dispersar os manifestantes. Um morador foi atingido por um tiro de borracha nas costas e uma mulher teria sofrido queimaduras após ser atingida por bomba de efeito moral.
O líder comunitário do Capelinha Jussimar Almeida Campos, 41, disse que a manifestação foi pacífica e os moradores ficaram machucados. “Estávamos fazendo um ato pacífico, não travamos totalmente a rodovia, deixamos uma parte liberada. Mesmo assim, infelizmente, a PM usou de força para agredir os moradores”, disse Campos.
Uma das manifestantes, Jaqueline Soares, 40, falou que a PM não respeitou os moradores. “Chegaram jogando bomba, bateram em duas pessoas. Eles miraram a arma para nós. Não tiveram nenhum respeito, nem aos manifestantes, nem às crianças que estavam presentes”, apontou Jaqueline.
Questionada sobre a conduta dos policiais durante a manifestação, a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) disse, por nota, que a PM teve conhecimento de cinco ocorrências desse tipo em São Paulo e que não houve “registro de feridos ou qualquer incidente relevante”.
A Pasta informou ainda que outro protesto por conta da falta de energia foi registrado em Diadema, no bairro Casa Grande. De acordo com a SSP, moradores teriam bloqueado a via com pedaços de madeira e outros itens e, durante o ato, houve “tumulto e a polícia precisou intervir com munições de menor potencial ofensivo. Um dos envolvidos foi detido, mas sem ferimentos”.
Mãe precisa ligar respirador da filha a energia de carro
Luciana Cardoso Nietto, 47 anos, precisou agir rápido para que a sua filha com AME (Amiotrofia Muscular Espinhal), Heloísa Nietto Viggiani, 18, continuasse respirando durante o apagão que atingiu a região neste último fim de semana. Após ficar 22 horas sem luz, de sexta-feira (11) a domingo (13), a moradora do bairro Taboão usou a energia do carro para carregar o respirador da jovem.
A gambiarra foi necessária porque o aparelho que leva oxigênio a Heloísa estava oscilando e a jovem não consegue ficar mais de dez segundos sem a ventilação mecânica. A família possui dois no-break, porém um ficou sem bateria e o outro começou a falhar.
A mãe conta que acionou a Enel por duas vezes e explicou a situação crítica da família, porém nos dois contatos realizados a previsão inicial era que a energia elétrica seria restabelecida em até seis horas – o que não ocorreu. Após conseguir carregar o respirador da filha, no domingo, Luciana disse que pagou um eletricista para ‘puxar’ a energia do vizinho.
“Sempre passeio com a Heloísa, então tenho esse inversor caso precise pegar a energia do carro para o respirador. Mas e se não tivesse? Como faríamos? O mais desesperador é saber que estávamos sem sinal nenhum no celular. Caso precisássemos pedir socorro, como faríamos?”, afirmou a mãe ao Diário.
Após conseguir utilizar a energia elétrica do vizinho, Luciana contou que a Enel enviou no domingo à tarde um gerador à família, que não o utilizou. A luz foi restabelecida totalmente no fim da tarde de domingo, após a família ficar 40 horas sem energia.
Enel acata prazo de 3 dias estabelecido por ministro
Depois de seguidamente não fornecer nenhum prazo para o restabelecimento total do fornecimento de energia na Região Metropolitana de São Paulo, a Enel São Paulo afirmou ontem que vai cumprir a meta de três dias, contados a partir de segunda-feira (14), estabelecida pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.
Em nota, a empresa afirmou que o acordo foi feito junto à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A concessionária declarou ter recebido reforço de distribuidoras de energia elétrica de outros grupos econômicos como Light, Neoenergia, Elektro, EDP. Além de ter mobilizado profissionais da Enel do Chile, Itália, Espanha e Argentina, e equipes do Rio de Janeiro e do Ceará, que chegaram no final de semana. Somados, 2,9 mil técnicos estão em campo.
Ao todo, 2,1 milhões de unidades consumidoras foram afetadas. Além dos impactos nas redes de baixa tensão, 17 linhas de alta tensão e 11 subestações foram desligadas durante as chuvas de sexta-feira (11). Segundo a companhia, os danos na rede de alta tensão foram solucionados ainda no sábado.
AÇÃO E SANÇÕES
O ministro da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, disse ontem que avalia uma ação de dano moral coletivo contra Enel por causa do apagão. Messias deu a declaração no Palácio do Planalto junto com os ministros Paulo Pimenta (Secom) e da Vinícius Carvalho (CGU), além do chefe da Senacom (Secretaria Nacional do Consumidor), Wadih Damous.
Vinícius Carvalho, da Controladoria-Geral da União, disse que, no limite, pode haver uma caducidade da concessão. “Não estou aqui dizendo que é isso que vai acontecer”, ponderou. “Estou dizendo que isso é algo que pode ser levado em consideração ao longo de um processo administrativo que vai ser conduzido pela própria Aneel, e que nós vamos acompanhar”, disse. “Então, se acontecer uma caducidade, você pode ter uma nova licitação com uma nova companhia assumindo. Mas isso aqui estou falando claramente em termos hipotéticos”, acrescentou. (do Estadão Conteúdo)
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