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Do Grande ABC para o RS: saúde e fé ajudam as vítimas

Isaac Prado, membro de pastoral da Paróquia Matriz de Santo André e interno de medicina, relata experiência como voluntário no Sul

Renan Soares
04/06/2024 | 21:52
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Isaac Prado faz atendimento a morador do Rio Grande do Sul vítima das enchentes (FOTO: Arquivo Pessoal)

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“No final do atendimento perguntava se podia abraçá-los.” O depoimento é de Isaac Prado, 44, membro da Pastoral da Saúde da Paróquia Matriz de Santo André, na Vila Assunção. Junto a uma equipe de 24 pessoas, o também interno de Medicina da UniFAJ (Centro Universitário de Jaguariúna) viajou para o Rio Grande do Sul na última semana para atender vítimas das chuvas que devastaram o Estado, levando não apenas o conhecimento adquirido no curso, mas também uma mensagem de fé para o povo gaúcho.

“Alguns alunos se reuniram e decidiram, por conta própria, ir para o Rio Grande do Sul, para levar assistência para as pessoas que não conseguiam ter acesso à saúde”, relata Isaac, que compunha um grupo em que havia veterinários, médicos, estudantes de medicina, psicólogos e fisioterapeutas. “Começamos o movimento de arrecadação de mantimentos e água. Além disso, recebemos muitos remédios de doação. A instituição acabou cedendo um ônibus para que pudéssemos levar esses donativos e tentar auxiliar as pessoas que estavam lá naquele momento de crise”, diz.

O desafio começou na última quarta-feira (29) e, já no Rio Grande do Sul, o grupo encontrou uma situação de devastação extrema. A base da equipe ficou no município de Sapucaia do Sul, em uma área não afetada pelas enchentes, onde se dividiu entre as cidades de Canoas, onde havia abrigo para os animais, e São Leopoldo. Isaac relata que a situação se parece muito com um cenário pós-guerra, com destruição de toda a estrutura local, incluindo pavimentação, transporte público, acesso à saúde, energia elétrica e água potável.

Uma mulher em São Leopoldo cedeu o que restou de sua casa para eles, transformando-a em uma unidade de saúde para a região, já que a UBS (Unidade Básica de Saúde), a duas quadras dali, estava destruída e sem utilidade. Eles levaram os remédios e começaram a fazer atendimentos médicos, incluindo pequenos procedimentos como suturas, atendimento a fraturas e hemorragias, além de casos de leptospirose, depressão e idealização suicida, com cerca de 700 atendimentos no total. Além dos cuidados médicos, Isaac também levou apoio por meio da fé. 

“Cada paciente que eu atendia no consultório improvisado, no final eu perguntava se podia abraçá-los, e eles choravam muito, muito mesmo, como crianças. Durante a consulta, eles se mantinham fortes, mas ao final, ao receber um abraço, desabavam em lágrimas”, afirma Isaac sobre a rotina de atendimentos. 

“No consultório improvisado, eu sempre falava de Deus para todas as pessoas que atendia. Dizia o mesmo para todos: ‘Tiraram tudo de você, mas há duas coisas que você não perdeu: sua fé e sua dignidade.’ Essas palavras eram fortalecedoras e tocavam profundamente as pessoas.”

Isaac retornou ontem aos trabalhos em São Paulo, após cerca de uma semana no Rio Grande do Sul, devido à necessidade dele e dos demais de retomarem as atividades da faculdade, além de atendimentos e cirurgias. Agora, ele planeja conversar com vereadores e membros da igreja para iniciar um movimento maior de assistência, estendendo a ajuda para o Sul. Ele e a equipe querem retornar no dia 17 de junho. Além disso, Isaac revela ter um projeto de ajuda humanitária para a Amazônia. “Pensei que não fazia sentido eu estar aqui. As pessoas de lá precisam de mim mais do que as pessoas daqui.”

APOIO

Isaac foi “sozinho” ao Rio Grande do Sul, enquanto sua esposa, Alessandra Pazzini Prado, ficou em São Paulo. Segundo ele, ela desempenhou um papel crucial na organização de toda a arrecadação de donativos na igreja em Santo André. A esposa sempre teve um forte interesse em campanhas de arrecadação, mas, inicialmente, estava receosa devido ao medo de desvios nas doações. Com a ida de Isaac, a possibilidade de garantir que os donativos chegassem ao destino se concretizou. 

“Mesmo sendo pouco tempo de arrecadação conseguimos R$ 1.780. Compramos água e alimentos e também tivemos doações que recebemos de roupas, cobertores, toalhas de banho, calçados, medicamentos e livros infantis,” conta Alessandra, que busca ajudar mesmo estando atualmente em tratamento de um câncer de mama.

Veterinária de Santo André lidera abrigo de animais em Pelotas

A região está bem representada no apoio à população do Rio Grande do Sul, que sofre com as consequências das fortes chuvas. Laís Formiga, 25, veterinária de Santo André formada pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas), está coordenando um abrigo de animais em Pelotas após as enchentes que afetaram a região. Laís, que se formou em Medicina Veterinária em 2022, voltou para fazer mestrado na cidade e se envolveu ativamente na ajuda aos animais durante a crise no Sul do País.

“Despertou um instinto de solidariedade em todo mundo e ninguém ficou sem fazer nada”, relata Laís sobre a mobilização da comunidade para ajudar. “Muita gente abandonava suas casas e deixava os animais amarrados dentro, já com água subindo na canela. Íamos pegando esses animais e tirando as pessoas de casa. Já faz mais de um mês (que estou) trabalhando de domingo a domingo,” diz a andreense.

O abrigo que Laís está coordenando, localizado no Estádio Bento Freitas, do Brasil de Pelotas, chegou a abrigar quase 60 animais. Muitos desses pets tinham donos que não queriam deixar os animais para trás – outros os abandonavam. “Foi por essa necessidade também que começaram a surgir os locais para cães, para as pessoas poderem ir para os abrigos e deixarem seus animais conosco”, conta Laís.

Laís destaca a solidariedade das pessoas, que doaram insumos, materiais e ração para o abrigo, além de voluntariado para auxiliar no espaço. Apesar do trabalho difícil, Laís reconhece que a maior dificuldade foi lidar com o aspecto psicológico da situação, especialmente ao ver as pessoas e animais em condições tão vulneráveis. “Havia dias que não podíamos receber animais, por lotação, mas vinham as pessoas chorando, pedindo pelo amor de Deus. Isso é pesado psicologicamente.”

Agora, com a situação se acalmando e a necessidade de devolução dos espaços, os animais estão retornando para suas casas e o abrigo será fechado.




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