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Pais denunciam maus-tratos em escola de Ribeirão Pires

Grupo de 10 pessoas relata situações que teriam ocorrido desde 2008; instituição nega; caso é arquivado por falta de provas

12/04/2022 | 00:32
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Reprodução  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Atualizado em 6 de maio de 2026

Grupo de dez pessoas, que reúne pais de ex-alunos e ex-funcionários da Escola Waldorf Pomar, em Ribeirão Pires, acusa a instituição de praticar, desde 2008, maus-tratos e abuso verbal contra as crianças, além de perseguição a trabalhadores e famílias que questionassem a instituição. As denúncias têm como alvo a diretora e fundadora da escola, Cínzia Amaral, e sua filha, Raíssa Amaral, que é professora no estabelecimento, que atende do berçário ao 9º ano do ensino fundamental.

Uma das principais denúncias é a da filósofa Daniele Bruno, que registrou BO (Boletim de Ocorrência) relatando que Raíssa gritava muito com seu filho, usava termos classificados pela mãe como constrangedores e praticava assédio verbal, além de relatar fala violenta proferida pelo professor de música, Renan Marques Regados. No documento, a mãe diz que a criança foi colocada para fora da sala em ambiente vasto e sem supervisão de adultos, em área próxima à mata. Daniele chegou a mandar um celular para tentar gravar os diálogos dos professores e preferiu pela transferência para outra instituição de ensino.

A diretora Cínzia negou que a criança tivesse sofrido qualquer tipo de maus-tratos. Já Raíssa admitiu que tem tom de voz alto e que, muitas vezes, acaba elevando-a, mas também negou que grite com as crianças. Sobre a fala do professor de música, que teria dito “vocês só aprendem na porrada? Então vão ter porrada”, o docente argumentou que dois alunos de outra turma brigaram em ocasião e as crianças presentes passaram a gritar “porrada, porrada”. Que algo que ele disse nesse contexto poderia ter sido mal interpretado. “Aqui na escola todas as crianças são responsabilidade de todos, e se o aluno estava fora da sala, com certeza outras professoras o estavam olhando”, afirmou a diretora sobre a exclusão do aluno da sala.

Daniele, é a única mãe do grupo que permitiu que fosse identificada. A direção da escola também registrou BO contra a filósofa por calúnia, após ela fazer postagens em suas redes sociais pedindo que as pessoas respondessem o que ela faria se alguém maltratasse crianças em uma escola. As respostas incluíam termos como flechada, paulada e fogo e, apesar de não citar o nome unidade escolar, a instituição classificou o gesto como incitação à violência.

Outros nove pais e ex-funcionários também fizeram diversas acusações contra a escola. Segundo os relatos, as situações ocorreram entre 2008 e 2020 e vão desde manipulação emocional das crianças e dos pais (especialmente os separados) pela professora Raíssa e pela diretora Cínzia, até casos de agressão contra crianças (um aluno bateu na professora e ela devolveu, um aluno cuspiu na professora e ela devolveu), até episódios em que Raíssa teria segurado uma criança para que outras a agredissem (como resposta ao aluno ter agredido uma colega) e um episódio em que ela teria lavado com sabão a boca de um estudante que falou um palavrão.

Raíssa negou todas as acusações e garantiu que nunca agrediu nenhuma criança. A professora disse que, segundo a pedagogia Waldorf, crianças em crise podem ser contidas com os chamados “abraços de urso” e que nessas ocasiões, muitas vezes, foi agredida por estudantes. Que nunca lavou a boca de ninguém com sabão e que sobre o episódio de ter segurado um aluno, ela o estava contendo durante uma crise. A escola nega também a acusação de manipulação emocional e argumenta que na pedagogia Waldorf tudo é resolvido de forma muito próxima entre a família e a escola. “Talvez, no começo, a gente não tenha adotado a melhor forma de separar as coisas”, ponderou Cínzia.

Há também relatos sobre problemas trabalhistas, como jornadas de trabalho extensas, auxiliares de sala sem salário e trabalhando apenas por bolsa para os filhos, entre outras situações. Em 2018, o MPT (Ministério Público do Trabalho) chegou a vistoriar o local e exigir série de adequações. A escola alegou que cumpre as obrigações trabalhistas e apresentou certidão negativa de débitos trabalhistas, emitida em 1 de abril de 2022.

Quando questionados sobre porque levaram tanto tempo para denunciar o que ocorria na escola, de forma geral, os pais afirmam que acreditam muito na metodologia, que tentaram alertar a direção sobre os problemas e que esperavam que as coisas mudassem.  

Federação afirma que vai averiguar acusações

A Federação das Escolas Waldorf no Brasil foi informada sobre as denúncias de maus tratos feitas por grupo de pais e ex-funcionários da Escola Waldorf Pomar de Ribeirão Pires. A entidade informou, em nota assinada por Denise Seignemartin, que está apurando os fatos para que possam se pronunciar com clareza, mas que isso leva tempo, porque querem ouvir a escola e as referidas famílias. A federação informou ainda que, a princípio, não há registros de queixas contra a escola, mas que certamente não podem ficar omissos diante de tal denúncia e que, por isso, farão a devida averiguação.

A Seduc (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) informou que a DE (Diretoria de Ensino) de Mauá, responsável pela cidade, enviou três supervisores à escola para averiguar relatos e as aulas ocorreram normalmente. A DE esclareceu que, dentro de suas funções compete verificar se as unidades particulares possuem capacidade física e pedagógica para manterem atividades e disse que sobre possíveis crimes, cabe à SSP (Secretaria da Segurança Pública) se manifestar.

Questionada sobre o BO (Boletim de Ocorrência) aberto pela mãe de um aluno, a SSP informou que o caso foi registrado como não criminal na delegacia eletrônica e encaminhado para a unidade de Ribeirão Pires. A pasta informou que equipe analisa os fatos relatados e comunicou os órgãos de educação pertinentes, assim como o conselho tutelar, para as devidas providências. A secretaria disse que, após a tratativa da questão pelas referidas instituições, havendo elementos que indiquem a prática de crimes, será instaurado inquérito policial pela autoridade responsável para as devidas providências de polícia judiciária.

O Conselho Tutelar de Ribeirão Pires informou que o atual colegiado atende a Escola Waldorf Pomar a partir do ano de 2020 sem nenhuma situação referente a maus-tratos ou qualquer outra situação que desabone a instituição. Que os anos anteriores foram atendidos por outros colegiados, mas que também não existem registros de denúncias que configurassem investigações.

Atualização
Em decisão da 2ª Vara da Comarca de Ribeirão Pires, o caso foi arquivado por falta de provas. "Os fatos foram apurados administrativamente pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, pela Supervisão de Ensino de Mauá, pela Promotoria da Infância e Juventude e pelo Ministério Público do Trabalho, sendo todos os procedimentos arquivados em virtude da ausência de provas das condutas imputadas", traz trecho da decisão assinada por Paula Quaggio, promotora de Justiça, e Emanuelle Sobral Schmidt Souza, analista jurídico. 

DGABC

Ainda segundo a decisão, em diligências realizadas pela Diretoria de Ensino de Mauá, foram ouvidos diversos pais de alunos da citada Raissa, os quais elogiaram o trabalho realizado e afirmaram que seus filhos nutriam verdadeira adoração pela docente.




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