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Do Diário do Grande ABC

01/04/2021 | 00:01


Ele não acreditava. Mas depois de 15 dias no hospital, cinco deles entubado e sem qualquer consciência do que se passava ao redor, equilibrado em uma linha fina entre a vida e a morte, o mecânico Elenilson Henrique de Jesus só tem um apelo a fazer: 

“Peço a todos que tenham muito cuidado, que respeitem a lei.” Emociona-se e chora para contar que, mesmo alertado dos perigos da Covid e sua contaminação rápida, continuou trabalhando sem tomar qualquer providência especial. Máscara, não gostava de usar; na oficina de motos, entrava quem quisesse na hora que quisesse.

Sua única preocupação era a manutenção da casa e da família. E bem que a mulher avisava: “Ao menos use máscara, deixe entrar só um de cada vez”. Só que Elenilson, 39 anos, achava que a juventude o protegeria. Não só se contaminou como passou a doença para a mulher e a filha.

“Fiquei com muito medo, vi gente morrendo do meu lado. Eu não queria viver isso, e piorei”, relembra. Quando testou positivo para Covid, Elenilson ainda tentou fazer o tratamento em casa e até continuou trabalhando. Mas piorou muito e foi internado no Hospital de Campanha do Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, em Santo André.

Passou por maus bocados e hoje, depois de perder 11 quilos de massa muscular, tem de usar bombinha para asma por causa da falta de ar, ainda sente muito cansaço, dores nos pulmões; não sente cheiro nem gosto e tem dores musculares.

Ele conta que foi internado em um sábado e já no domingo precisou ser levado para a UTI. O médico que o atendia chegou a dizer que se ele não se esforçasse teria de ser entubado; é que já estava tomando antibióticos por quatro dias e não reagia. Não conseguia respirar nem comer.

Em casa, a mulher de Elenilson recebia o boletim médico diariamente, dizendo que ele não respondia ao tratamento.

Até psicólogos do serviço de apoio do Dell’Antonia foram chamados para ajudar Elenilson a reagir. “Aí me esforcei ao máximo para tentar me alimentar e me esforcei para poder vencer a doença. Porque é muito difícil.”

“Mas me acalmei e vi que tinha que me tratar. Ganhei forças e consegui vencer”, conta, emocionado, porque começou a ver, ao seu lado, muita gente que não conseguia a mesma força – e começou a imaginar que poderia seguir o mesmo caminho. “Graças a Deus, estou aqui.”

O medo foi grande, ele revela. “Olhei para os lados e todo mundo estava sendo entubado. Toda hora alguém era transferido para a Santa Casa (CHM – Centro Hospitalar do Município de Santo André)porque o estado de saúde se agravava. Chorei muito. Muita gente não vai poder voltar, abraçar o filho, o pai...”

E o pior é que muitos pacientes até melhoravam para, em seguida, piorar novamente. “Tem gente que até está bem e, de repente, fica pior. Eu vi pessoas que já iam ao banheiro e, do nada, pioravam e tinham de ser entubadas. Porque, infelizmente, é uma doença que agrava a qualquer momento. Você está quase bom, e pode piorar. É um mistério.”

Mistério doloroso e mais que preocupante. Elenilson pensava muito na família. “Se eu morresse, quem cuidaria delas?” Agora, aprendida a lição, ele avalia que tudo o que viu dentro do hospital e o que está acontecendo aqui fora, com muita gente sem tomar os cuidados necessários, só indicam um cenário: 

“Acho que vai piorar, os casos estão aumentando muito porque muitos não respeitam os cuidados básicos.”

Ele diz que vê muita gente na rua sem máscara. “Principalmente gente de idade. A gente vê muitos andando; é como se eles não acreditassem. E tem muitos lá internados”, lembra, para completar que também os jovens que saem para a balada, tomam no mesmo copo e levam a doença para dentro de casa precisam mudar de atitude.

Na atual fase, a emergencial, o mecânico afirma que está trabalhando com horário reduzido. “Depois de tudo que passei, eu entendo por que é necessário fechar, reduzir o horário de funcionamento.” 

Na oficina de Elenilson agora tem uma corrente na frente, para avisar os clientes que o jeito de trabalhar mudou. “Não dá para continuar tendo contato com as pessoas, porque a gente não sabe quem está contaminado. Não tem como ver, é um vírus invisível. Tem que tomar muito cuidado.”

Agora, o mecânico também apoia o lockdown. “Não adianta fechar só uma semaninha”, acredita ele. “Aí um abre, outro fecha... Devia funcionar só mesmo o que é essencial, para dar uma amenizada, uma respirada, senão vem o colapso. Isso é certeza.”

“Tenho a impressão de que, daqui a pouco, vai morrer gente dentro de casa. E não tem dinheiro que valha a pena; a Covid mata mesmo”, alerta. 

E quem se cura, cura-se apenas parcialmente. “Todo mundo que sai do hospital, sai com uma cicatriz no pulmão. Isso é real. E alguns tem perda de memória”, ele conta.

“Conheço uma pessoa cuja mãe não está falando nada com nada. Saiu do hospital assim por causa da Covid. Geralmente a gente fica com uma sequela e demora para melhorar. Continuo fazendo tratamento em casa e vou ter de continuar até mais tarde, com um pneumologista.”



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