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Signos inspiram novo álbum de Xamã

 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

E, atualmente, usa o aprendizado do trato diário com o público (além de filmes e gibis que devorava na adolescência) a serviço da música



20/01/2021 | 07:26


Quando passava de vagão em vagão dos trens do subúrbio carioca vendendo balas e amendoim, o rapper carioca Xamã, de 31 anos, fez algumas descobertas que usa até hoje. Para vender - seja guloseimas ou música - é preciso seduzir o cliente.

Geizon Carlos da Cruz Fernandes (seu nome de batismo) conseguiu levar seu flow - a maneira como a letra se encaixa à batida, que o fez ser apontado como um dos mais promissores de sua geração - para além da periferia e das batalhas de rima que participava em Campo Grande, Bangu e São Gonçalo. E, atualmente, usa o aprendizado do trato diário com o público (além de filmes e gibis que devorava na adolescência) a serviço da música.

O mais recente álbum do rapper, Zodíaco (Bagua Records), acaba de sair e traz doze músicas, uma para cada signo. O rapper já havia feito algo parecido em seu primeiro trabalho, Pecado Capital, de 2018, quando dedicou um rap para cada desvirtude humana (segundo a visão da Igreja Católica). No seguinte, O Iluminado, de 2019, escreveu canções inspiradas em filmes como American Pie, Matrix, Central do Brasil e ao estrelado pelo ator Jack Nicholson, que dá nome ao disco.

"Os discos anteriores olhavam para fora, esse é para dentro. Quis fazer algo mais particular, para chegar a cada pessoa. Já tinha essa ideia há cerca de um ano. Com a quarentena, presos em casa, me observei, observei os outros, e percebi que a gente ficou carente para caramba. O ser humano sempre olhou para o céu e buscou explicação por meio das estrelas, dos astros, da Lua, do Sol. Senti-me mais completo me dedicando ao tema", justifica, sobre a escolha da vez.

Ele conta que tudo o que sabia sobre o assunto era o que tinha aprendido no desenho Os Cavaleiros do Zodíaco e nas seções dedicadas ao assunto nos jornais. Nada muito aprofundado. Para transformar a ideia do álbum em algo concreto, contou com a ajuda de uma astróloga, que lhe ensinou as características de cada signo e o que significavam os elementos água, terra, fogo e ar no zodíaco, além de fazer um mapa astral. "Sou de escorpião, com ascendente em gêmeos e lua em escorpião", diz.

Assim, construiu as letras e as melodias, que trazem, além do rap, influências do pop, do rock, do funk, do pagode - de acordo com o que o signo indica e os elementos naturais que eles representam. Os versos falam de amor e, por vezes, são carregados de sensualidade. O que ele descreve como "viscerais tempestades em copo de água".

"Quando eu trabalhava na rua, vendia doce, bala, amendoim. Hoje, meu produto é a minha arte. Faço tudo voltado para a linguagem popular brasileira, do que o povo fala nas ruas. O importante é me comunicar com todos, com todas as classes sociais. Minhas músicas, no geral, são ''''eu e você'''', independentemente do sexo do ouvinte. Isso é a verdadeira MPB, a música popular brasileira que toca nas ruas. Roberto Carlos sabe disso há muito tempo."

Touro, por exemplo, que é terra, traz uma batida mais pesada - e aborda a teimosia e a sensualidade dos taurinos - com uma pegada roqueira, ritmo pelo qual Xamã expressa admiração. "Eu queria ter uma banda de rock, mas aí são seis malucos para sair em turnê, né? Com o rap é só você e o DJ", brinca o artista, que admira Jimi Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin, Pink Floyd, Nirvana, Raul Seixas, Legião Urbana e Charlie Brown Jr.

A faixa Leão traz a participação da sertaneja Marília Mendonça e versa sobre a autoconfiança que marca o signo. "Se eu subo nesse palco aqui, foi Deus que me criou assim", diz um trecho da letra. Xamã e Marília gravaram o clipe da canção, que já passa de 6,5 milhões de visualizações no YouTube.

A cantora baiana Agnes Nunes, de 18 anos, ligada ao universo da MPB - elogiada por Caetano Veloso, Elza Soares e Seu Jorge -, é a convidada de Escorpião. O clipe da canção já foi assistido mais de 7,5 milhões de vezes. Luísa Sonza é a parceira de Câncer e a cantora drag Gloria Groove, de Capricórnio.

"Todas elas me transformaram em um artista melhor. Até na maneira de cantar, como me comportar com as notas, pois esse álbum é menos rap e tem mais notas. Eu nem imaginava que a Marília, essa grande cantora, me conhecia. Tomamos uns drinques no estúdio. Agnes é parceria antiga. Luísa, eu gosto muito dela. A Gloria é a melhor rapper do Brasil, minha consultora. Os rappers têm tantos padrões quadrados que são herdados, como o machismo. Ela me ajuda a saber como devo comportar. Quando eu tenho alguma dúvida sobre a minha masculinidade tóxica, recorro a ela", diz o rapper, que, em fotos recentes, pode ser visto com as unhas displicentemente pintadas de preto.

O álbum, que em um mês já foi ouvido 70 milhões de vezes nas plataformas digitais, onde foi lançado, foi produzido por nomes como NeoBeats, DJ Gustah, Xavi, WC no Beat e Portugal - esse último, um baiano de 17 anos que já trabalhou com artistas como Orochi e Baco Exu do Blues.

Todos esses números - de execuções e visualizações -, além de serem indicadores essenciais da indústria atual do entretenimento, também significam muito para Xamã. Um artista que ficou conhecido graças aos vídeos que postava com as músicas que fazia. "Você posta o seu trabalho e a galera gosta. Artista da rua não tem padrão. Isso é arte. E as pessoas veem no computador, no celular. É um ambiente democrático", diz ele, que diz ter ganhado seu primeiro cachê na música em 2015. Em 2017, ele ganhou apoio da gravadora 1Kilo.

Nas redes sociais, Xamã também tem destaque entre os rappers e sabe tirar proveito disso para obter o tão desejado engajamento. Soma mais de 7 milhões de seguidores entre Twitter e Instagram e costuma escolher muito bem fotos e frases que posta. Recentemente, recomendou que "jovens" escutassem Legião Urbana. Em outra postagem, de uma foto na praia, provocou: "sou eu bola de fogo".

Em 2019, subiu ao Palco Favela no Rock in Rio e, no começo de 2020, fez shows nos Estados Unidos. Passou também por países como Portugal, França e Holanda. Com a fama, e a mudança de Sepetiba, na zona oeste do Rio de Janeiro onde nasceu, para a Barra da Tijuca, o afastamento do underground parece ser algo inevitável - mas Xamã luta para que isso não aconteça. Diz que faz questão de conversar com os ex-colegas camelôs. É com eles que fica sabendo das gírias do momento, algo fundamental para o seu trabalho.

"Há uma lenda no rap que, ao se tornar pop, o artista perde sua essência. Mas tenho um grupo bem sujo, o Furamil 2Cão, que é com uma galera. A gente vai na rua mesmo. Porque sonhar com a barriga vazia é diferente de sonhar com a barriga cheia, saca? Estou sempre na rua, jogo bola. Não quero perder a essência. Vou à periferia e ao Copacabana Palace. Isso ajuda a derrubar preconceitos. Rap não é só coisa de pobre e música clássica não é só para ricos", diz.

Há cerca de três anos, em uma entrevista, Xamã disse que seu sonho era de que as pessoas ouvissem sua música. E agora, que elas ouvem, qual seria o próximo desejo? "Confesso que estou meio perdido. Sabe aquela história do cachorro que quer muito a bola e, quando consegue, não sabe o que fazer com ela? Eu queria que fosse algo grande (o sucesso), mas foi muito maior". Quem sabe os astros lhe guiem.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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Signos inspiram novo álbum de Xamã

E, atualmente, usa o aprendizado do trato diário com o público (além de filmes e gibis que devorava na adolescência) a serviço da música


20/01/2021 | 07:26


Quando passava de vagão em vagão dos trens do subúrbio carioca vendendo balas e amendoim, o rapper carioca Xamã, de 31 anos, fez algumas descobertas que usa até hoje. Para vender - seja guloseimas ou música - é preciso seduzir o cliente.

Geizon Carlos da Cruz Fernandes (seu nome de batismo) conseguiu levar seu flow - a maneira como a letra se encaixa à batida, que o fez ser apontado como um dos mais promissores de sua geração - para além da periferia e das batalhas de rima que participava em Campo Grande, Bangu e São Gonçalo. E, atualmente, usa o aprendizado do trato diário com o público (além de filmes e gibis que devorava na adolescência) a serviço da música.

O mais recente álbum do rapper, Zodíaco (Bagua Records), acaba de sair e traz doze músicas, uma para cada signo. O rapper já havia feito algo parecido em seu primeiro trabalho, Pecado Capital, de 2018, quando dedicou um rap para cada desvirtude humana (segundo a visão da Igreja Católica). No seguinte, O Iluminado, de 2019, escreveu canções inspiradas em filmes como American Pie, Matrix, Central do Brasil e ao estrelado pelo ator Jack Nicholson, que dá nome ao disco.

"Os discos anteriores olhavam para fora, esse é para dentro. Quis fazer algo mais particular, para chegar a cada pessoa. Já tinha essa ideia há cerca de um ano. Com a quarentena, presos em casa, me observei, observei os outros, e percebi que a gente ficou carente para caramba. O ser humano sempre olhou para o céu e buscou explicação por meio das estrelas, dos astros, da Lua, do Sol. Senti-me mais completo me dedicando ao tema", justifica, sobre a escolha da vez.

Ele conta que tudo o que sabia sobre o assunto era o que tinha aprendido no desenho Os Cavaleiros do Zodíaco e nas seções dedicadas ao assunto nos jornais. Nada muito aprofundado. Para transformar a ideia do álbum em algo concreto, contou com a ajuda de uma astróloga, que lhe ensinou as características de cada signo e o que significavam os elementos água, terra, fogo e ar no zodíaco, além de fazer um mapa astral. "Sou de escorpião, com ascendente em gêmeos e lua em escorpião", diz.

Assim, construiu as letras e as melodias, que trazem, além do rap, influências do pop, do rock, do funk, do pagode - de acordo com o que o signo indica e os elementos naturais que eles representam. Os versos falam de amor e, por vezes, são carregados de sensualidade. O que ele descreve como "viscerais tempestades em copo de água".

"Quando eu trabalhava na rua, vendia doce, bala, amendoim. Hoje, meu produto é a minha arte. Faço tudo voltado para a linguagem popular brasileira, do que o povo fala nas ruas. O importante é me comunicar com todos, com todas as classes sociais. Minhas músicas, no geral, são ''''eu e você'''', independentemente do sexo do ouvinte. Isso é a verdadeira MPB, a música popular brasileira que toca nas ruas. Roberto Carlos sabe disso há muito tempo."

Touro, por exemplo, que é terra, traz uma batida mais pesada - e aborda a teimosia e a sensualidade dos taurinos - com uma pegada roqueira, ritmo pelo qual Xamã expressa admiração. "Eu queria ter uma banda de rock, mas aí são seis malucos para sair em turnê, né? Com o rap é só você e o DJ", brinca o artista, que admira Jimi Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin, Pink Floyd, Nirvana, Raul Seixas, Legião Urbana e Charlie Brown Jr.

A faixa Leão traz a participação da sertaneja Marília Mendonça e versa sobre a autoconfiança que marca o signo. "Se eu subo nesse palco aqui, foi Deus que me criou assim", diz um trecho da letra. Xamã e Marília gravaram o clipe da canção, que já passa de 6,5 milhões de visualizações no YouTube.

A cantora baiana Agnes Nunes, de 18 anos, ligada ao universo da MPB - elogiada por Caetano Veloso, Elza Soares e Seu Jorge -, é a convidada de Escorpião. O clipe da canção já foi assistido mais de 7,5 milhões de vezes. Luísa Sonza é a parceira de Câncer e a cantora drag Gloria Groove, de Capricórnio.

"Todas elas me transformaram em um artista melhor. Até na maneira de cantar, como me comportar com as notas, pois esse álbum é menos rap e tem mais notas. Eu nem imaginava que a Marília, essa grande cantora, me conhecia. Tomamos uns drinques no estúdio. Agnes é parceria antiga. Luísa, eu gosto muito dela. A Gloria é a melhor rapper do Brasil, minha consultora. Os rappers têm tantos padrões quadrados que são herdados, como o machismo. Ela me ajuda a saber como devo comportar. Quando eu tenho alguma dúvida sobre a minha masculinidade tóxica, recorro a ela", diz o rapper, que, em fotos recentes, pode ser visto com as unhas displicentemente pintadas de preto.

O álbum, que em um mês já foi ouvido 70 milhões de vezes nas plataformas digitais, onde foi lançado, foi produzido por nomes como NeoBeats, DJ Gustah, Xavi, WC no Beat e Portugal - esse último, um baiano de 17 anos que já trabalhou com artistas como Orochi e Baco Exu do Blues.

Todos esses números - de execuções e visualizações -, além de serem indicadores essenciais da indústria atual do entretenimento, também significam muito para Xamã. Um artista que ficou conhecido graças aos vídeos que postava com as músicas que fazia. "Você posta o seu trabalho e a galera gosta. Artista da rua não tem padrão. Isso é arte. E as pessoas veem no computador, no celular. É um ambiente democrático", diz ele, que diz ter ganhado seu primeiro cachê na música em 2015. Em 2017, ele ganhou apoio da gravadora 1Kilo.

Nas redes sociais, Xamã também tem destaque entre os rappers e sabe tirar proveito disso para obter o tão desejado engajamento. Soma mais de 7 milhões de seguidores entre Twitter e Instagram e costuma escolher muito bem fotos e frases que posta. Recentemente, recomendou que "jovens" escutassem Legião Urbana. Em outra postagem, de uma foto na praia, provocou: "sou eu bola de fogo".

Em 2019, subiu ao Palco Favela no Rock in Rio e, no começo de 2020, fez shows nos Estados Unidos. Passou também por países como Portugal, França e Holanda. Com a fama, e a mudança de Sepetiba, na zona oeste do Rio de Janeiro onde nasceu, para a Barra da Tijuca, o afastamento do underground parece ser algo inevitável - mas Xamã luta para que isso não aconteça. Diz que faz questão de conversar com os ex-colegas camelôs. É com eles que fica sabendo das gírias do momento, algo fundamental para o seu trabalho.

"Há uma lenda no rap que, ao se tornar pop, o artista perde sua essência. Mas tenho um grupo bem sujo, o Furamil 2Cão, que é com uma galera. A gente vai na rua mesmo. Porque sonhar com a barriga vazia é diferente de sonhar com a barriga cheia, saca? Estou sempre na rua, jogo bola. Não quero perder a essência. Vou à periferia e ao Copacabana Palace. Isso ajuda a derrubar preconceitos. Rap não é só coisa de pobre e música clássica não é só para ricos", diz.

Há cerca de três anos, em uma entrevista, Xamã disse que seu sonho era de que as pessoas ouvissem sua música. E agora, que elas ouvem, qual seria o próximo desejo? "Confesso que estou meio perdido. Sabe aquela história do cachorro que quer muito a bola e, quando consegue, não sabe o que fazer com ela? Eu queria que fosse algo grande (o sucesso), mas foi muito maior". Quem sabe os astros lhe guiem.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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