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Especialistas veem como tardias ações do Carrefour contra o racismo

 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Empresa fechou lojas em respeito à morte de João Alberto, por seguranças, em Porto Alegre


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

27/11/2020 | 00:01


Especialistas consultados pelo Diário avaliaram como positivas as ações anunciadas pelo Carrefour Brasil no combate ao racismo, mas afirmam que elas chegam tarde. As medidas estão sendo tomadas após a morte do autônomo João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, que foi agredido por ao menos dois seguranças de uma loja da empresa em Porto Alegre, no dia 19 de novembro, e morreu por asfixia. Ontem, a unidade onde o crime aconteceu permaneceu fechada e as outras lojas do Brasil abriram depois do meio-dia em respeito ao luto da família de Freitas – no Grande ABC, as unidades reabriram às 14h.

Professora e especialista em direto das diversidades, Ingrid Limeira pontuou que o simples fato de se falar sobre o tema é importante, porque muitas pessoas não têm acesso às informações e, do ponto de visto jurídico, poucos sabem o que configura crime de racismo, de injúria racial, ou como procurar a Justiça, por exemplo. “Para além das ações sociais, esse tipo de treinamento é válido. Por outro lado, todos os crimes de ódio, não apenas a racial, são conceitos que vêm de berço. As pessoas nascem e aprendem a reproduzir os preconceitos”, citou.

Ingrid lembrou que muito embora dentro da empresa os funcionários venham a ter uma formação antirracista, na sociedade, na escola, na igreja, essas mesmas pessoas enfrentam o preconceito. “É uma questão social e isso deveria ser trabalhado dentro de todas as escolas, como uma matéria obrigatória”, opinou. Apesar de destacar a importância da educação antirracista, a docente ressalta que, na maioria dos livros didáticos, a representação dos negros é sempre negativa e não há oferta de conhecimento sobre heróis negros, como Zumbi dos Palmares, Ganga Zumba (primeiro líder do Quilombo dos Palmares), da Revolução de Malês, quando negros escravizados se voltaram contra os brancos, em 1835, em Salvador. “Muitas pessoas nunca ouviram falar sobre isso”, completou.

Professor e integrante do Neabi (Núcleo de Estudos Africanos) da UFABC (Universidade Federal do ABC), Ramatis Jacino afirmou que as medidas chegam muito tarde. “Foi preciso morrer uma pessoa daquela forma bárbara para que resolvessem tomar esse tipo de atitudes”, declarou. Para o docente, as ações anunciadas pelo Carrefour são resultado da pressão do movimento negro, mas também da perda econômico, já que após o homicídio do autônomo João Alberto Silveira Freitas as ações e as vendas da empresa caíram. “Isso não quer dizer que os dirigentes tenham mudado o seu pensamento racista, contudo, é positivo e tomara que essa tragédia sirva para que não somente essa empresa, mas todas as outras mudem sua postura”, completou. Jacino destacou, ainda, que é importante lembrar que, embora o crime tenha sido cometido por dois seguranças, a orientação para o tratamento violento dado a negros e pobres parte dos superiores. “Isso vem da cultura das empresas”, concluiu.

Cliente de São Bernardo processou empresa

Negro e deficiente físico, Luis Carlos Gomes, 52 anos, morador de São Bernardo, foi agredido em outubro de 2018 dentro de uma loja do Carrefour, localizada no bairro Demarchi, por seguranças do estabelecimento. 

Após o ocorrido, Gomes moveu processo contra a empresa por danos morais. Ele consumiu uma cerveja dentro da loja e, apesar de não ter se negado a pagar, foi agredido fisicamente. Imagens do circuito interno da loja mostram o cliente sendo carregado por um segurança para uma sala, onde entram diversos outros homens. 

Gomes pediu R$ 200 mil de indenização, mas o Carrefour foi condenado a pagar R$ 20 mil. Durante o processo, a empresa chegou a alegar que a acusação da vítima era exagerada e, apesar das imagens, negou que tivesse havido agressão. A defesa do Carrefour afirmou, ainda, que o cliente “aparentava sinais de embriaguez”.

A decisão favorável ao pagamento da indenização foi proferida em junho. O processo já transitou em julgado. A vítima foi procurada pelo Diário, mas não quis comentar.

MEDIDAS

O Carrefour Brasil colocou em prática oito eixos de iniciativas que visam mudar a cultura da empresa e promover a capacitação de funcionários negros, para que possam chegar mais rapidamente a cargos de liderança. “Esses compromissos não trazem de volta a vida de João Alberto Silveira Freitas, mas o Carrefour Brasil espera que estas medidas sejam importante passo de longo caminho no combate à discriminação racial”, informou a empresa, que pretende divulgar balanço das ações em 15 dias.



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Especialistas veem como tardias ações do Carrefour contra o racismo

Empresa fechou lojas em respeito à morte de João Alberto, por seguranças, em Porto Alegre

Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

27/11/2020 | 00:01


Especialistas consultados pelo Diário avaliaram como positivas as ações anunciadas pelo Carrefour Brasil no combate ao racismo, mas afirmam que elas chegam tarde. As medidas estão sendo tomadas após a morte do autônomo João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, que foi agredido por ao menos dois seguranças de uma loja da empresa em Porto Alegre, no dia 19 de novembro, e morreu por asfixia. Ontem, a unidade onde o crime aconteceu permaneceu fechada e as outras lojas do Brasil abriram depois do meio-dia em respeito ao luto da família de Freitas – no Grande ABC, as unidades reabriram às 14h.

Professora e especialista em direto das diversidades, Ingrid Limeira pontuou que o simples fato de se falar sobre o tema é importante, porque muitas pessoas não têm acesso às informações e, do ponto de visto jurídico, poucos sabem o que configura crime de racismo, de injúria racial, ou como procurar a Justiça, por exemplo. “Para além das ações sociais, esse tipo de treinamento é válido. Por outro lado, todos os crimes de ódio, não apenas a racial, são conceitos que vêm de berço. As pessoas nascem e aprendem a reproduzir os preconceitos”, citou.

Ingrid lembrou que muito embora dentro da empresa os funcionários venham a ter uma formação antirracista, na sociedade, na escola, na igreja, essas mesmas pessoas enfrentam o preconceito. “É uma questão social e isso deveria ser trabalhado dentro de todas as escolas, como uma matéria obrigatória”, opinou. Apesar de destacar a importância da educação antirracista, a docente ressalta que, na maioria dos livros didáticos, a representação dos negros é sempre negativa e não há oferta de conhecimento sobre heróis negros, como Zumbi dos Palmares, Ganga Zumba (primeiro líder do Quilombo dos Palmares), da Revolução de Malês, quando negros escravizados se voltaram contra os brancos, em 1835, em Salvador. “Muitas pessoas nunca ouviram falar sobre isso”, completou.

Professor e integrante do Neabi (Núcleo de Estudos Africanos) da UFABC (Universidade Federal do ABC), Ramatis Jacino afirmou que as medidas chegam muito tarde. “Foi preciso morrer uma pessoa daquela forma bárbara para que resolvessem tomar esse tipo de atitudes”, declarou. Para o docente, as ações anunciadas pelo Carrefour são resultado da pressão do movimento negro, mas também da perda econômico, já que após o homicídio do autônomo João Alberto Silveira Freitas as ações e as vendas da empresa caíram. “Isso não quer dizer que os dirigentes tenham mudado o seu pensamento racista, contudo, é positivo e tomara que essa tragédia sirva para que não somente essa empresa, mas todas as outras mudem sua postura”, completou. Jacino destacou, ainda, que é importante lembrar que, embora o crime tenha sido cometido por dois seguranças, a orientação para o tratamento violento dado a negros e pobres parte dos superiores. “Isso vem da cultura das empresas”, concluiu.

Cliente de São Bernardo processou empresa

Negro e deficiente físico, Luis Carlos Gomes, 52 anos, morador de São Bernardo, foi agredido em outubro de 2018 dentro de uma loja do Carrefour, localizada no bairro Demarchi, por seguranças do estabelecimento. 

Após o ocorrido, Gomes moveu processo contra a empresa por danos morais. Ele consumiu uma cerveja dentro da loja e, apesar de não ter se negado a pagar, foi agredido fisicamente. Imagens do circuito interno da loja mostram o cliente sendo carregado por um segurança para uma sala, onde entram diversos outros homens. 

Gomes pediu R$ 200 mil de indenização, mas o Carrefour foi condenado a pagar R$ 20 mil. Durante o processo, a empresa chegou a alegar que a acusação da vítima era exagerada e, apesar das imagens, negou que tivesse havido agressão. A defesa do Carrefour afirmou, ainda, que o cliente “aparentava sinais de embriaguez”.

A decisão favorável ao pagamento da indenização foi proferida em junho. O processo já transitou em julgado. A vítima foi procurada pelo Diário, mas não quis comentar.

MEDIDAS

O Carrefour Brasil colocou em prática oito eixos de iniciativas que visam mudar a cultura da empresa e promover a capacitação de funcionários negros, para que possam chegar mais rapidamente a cargos de liderança. “Esses compromissos não trazem de volta a vida de João Alberto Silveira Freitas, mas o Carrefour Brasil espera que estas medidas sejam importante passo de longo caminho no combate à discriminação racial”, informou a empresa, que pretende divulgar balanço das ações em 15 dias.

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