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Região possui 80 mil que vivem na pobreza

DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Pelo menos 3% da população sobrevivem com R$ 89 per capita mensais; pandemia agravou situação


Flavia Kurotori
Do Diário do Grande ABC

28/09/2020 | 00:01


Na região, pelo menos 79.785 pessoas vivem na pobreza extrema, ou seja, sobrevivem com até R$ 89 mensais, equivalente a R$ 2,96 por dia, segundo dados das prefeituras do Grande ABC. O número representa 3% dos 2.807.712 habitantes estimados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Além de problemas como a fome e a falta de moradia digna, a pandemia do novo coronavírus agravou a situação dessas famílias, que passaram a conviver com o medo, o isolamento, a perda de ‘bicos’ e a morte de familiares e amigos.

Ivan Fernandes, professor de políticas públicas da UFABC (Universidade Federal do ABC), avaliou que a pandemia, assim como em toda a sociedade, afetou essas famílias na questão sanitária, relacionada ao medo da contaminação pelo coronavírus, e também causou problemas psicológicos em razão do isolamento físico e das incertezas do futuro. “Adicionalmente, a pandemia tem um efeito econômico devastador, impactando os rendimentos de parte majoritária da população brasileira”, completou o especialista.

“Na região, as prefeituras e o governo do Estado preferiram demitir as merendeiras que trabalhavam nas escolas, quando poderiam ter aberto as cozinhas das escolas públicas como cozinhas comunitárias para a distribuição de alimentações aos que mais precisam”, apontou Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos). Ele destacou que outros problemas enfrentados pelas famílias no período foram o desemprego e a perda de renda, além da morte de chefes de família.

Na análise dos especialistas, a situação só não ficou pior devido ao auxílio emergencial de R$ 600 disponibilizado pelo governo federal, e que é pago a pelo menos 685,3 mil pessoas no Grande ABC. O benefício, agora no valor de R$ 300, foi estendido até dezembro. “A iniciativa do governo, turbinada pelo Congresso Nacional <CF51>(que ampliou o auxílio de R$ 200 para R$ 600)</CF> foi extremamente feliz ao evitar os piores cenários imaginados de esgarçamento do tecido social nos primeiros momentos da pandemia”, afirmou Fernandes.

Santo André abriga 24.882 pessoas que vivem na pobreza extrema, 4,28% mais do que em 2019. Em Diadema, são 18.691 indivíduos nesta situação, 5,13% mais do que no ano passado. Mauá tem 6.289 moradores que vivem com até R$ 89 mensais, 13,52% mais do que há um ano. São Bernardo (26.623) e Ribeirão Pires (3.300) não informaram os números de 2019. São Caetano e Rio Grande da Serra não responderam aos questionamentos.

LUTA DIÁRIA

Moradora do Jardim Zaíra, em Mauá, há meio século, Geni Inácio da Silva, 78 anos, vive com mais 15 familiares, entre filhos, netos e bisnetos. Tendo como única fonte de renda fixa o BPC (Benefício de Prestação Continuada)/ Loas (Lei Orgânica da Assistência Social), no valor de um salário mínimo (R$ 1.045), as três casas de alvenaria que comportam a família foram construídas a partir da ajuda de terceiros e o alimento depende de doações. Se dividir o montante por todos os moradores, dá R$ 69,66 per capita mensais. “Para falar a verdade, é o povo que me ajuda. Quando estou com um pouquinho de arroz na lata, alguém fala para eu ir buscar um pacote de arroz”, contou. Uma das ajudas é a da Associação Casa do Senhor, instalada no mesmo bairro, que doa cestas básicas, itens de hortifrúti, entre outros produtos para a casa.

Entre os adultos que vivem com ela, apenas uma das filhas possui trabalho formal. Os demais estão desempregados, entre eles, pelo menos dois com deficiência e que não conseguem trabalhar. A esperança é na campanha eleitoral, que costuma render ‘bicos’ à família. Embora viva em área de risco, onde desabamentos são comuns em época de chuva, Geni não pensa em deixar o local, já que, segundo ela, o valor do auxílio moradia – cuja quantia varia de acordo com a cidade – não é suficiente para alugar uma casa que comporte os 16 integrantes da família. “Graças a Deus somos todos unidos e repartimos tudo. Eu nunca disse não para ninguém. É Deus quem comanda tudo”, disse.

Além do uso de máscara, o que a pandemia mais afetou no cotidiano da dona Geni foi o isolamento. Ela, que sempre foi responsável por “correr atrás” das coisas para a família, se viu obrigada a ficar em casa, já que é do grupo de risco da Covid-19 em razão da idade. “Fiquei até me sentindo mal. Minha filha falava que era para eu descansar, que ela faria as coisas. Mas quando ela via, o varal já estava com as roupas que eu lavei”, lembra. Ela ficou em casa desde março e só na última semana voltou a sair de casa para ir ao posto de saúde.

Ajuda à população ainda é insuficiente

Mesmo que o auxílio emergencial tenha sido alento às famílias em extrema pobreza, especialistas avaliam que os programas de apoio a essa população precisam melhorar. 

Ivan Fernandes, professor de políticas públicas da UFABC (Universidade Federal do ABC), defende que a principal arma é a ampliação e a recuperação da estrutura do Bolsa Família e também disposição do governo para combater o problema de maneira ampliada. “Além disso, são necessários investimentos públicos em saneamento básico em regiões vulneráveis e periféricas, saúde e educação, políticas que atingem de maneira mais consistente a fração mais vulnerável da sociedade”, adicionou.

Segundo Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos), é preciso aumentar o orçamento das áreas de assistência social e proteção de crianças, adolescentes, famílias vulneráveis, idosos, mulheres e pessoas com deficiência. Para angariar recursos, o especialista defende a taxação das grandes fortunas.

Alves assinalou que no pós-pandemia é essencial reforçar os programas de transferência de renda. “E outros programas precisam surgir, como frentes de trabalho, auxílios de alimentação e distribuição de cestas básicas, centrais de apoio e renda para preparação e encaminhamento de pessoas ao mercado de trabalho”, sugeriu.

NA REGIÃO

As prefeituras de Santo André, São Bernardo, Diadema, Mauá e Ribeirão Pires garantiram que trabalham na inclusão das pessoas em situação de pobreza extrema em programas e benefícios sociais, como o Bolsa Família, o auxílio emergencial e o Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil). Normalmente, o suporte é iniciado pelo Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e, a partir das demandas apresentadas, são encaminhadas para os programas de transferência de renda e a serviços de assistência social.



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Região possui 80 mil que vivem na pobreza

Pelo menos 3% da população sobrevivem com R$ 89 per capita mensais; pandemia agravou situação

Flavia Kurotori
Do Diário do Grande ABC

28/09/2020 | 00:01


Na região, pelo menos 79.785 pessoas vivem na pobreza extrema, ou seja, sobrevivem com até R$ 89 mensais, equivalente a R$ 2,96 por dia, segundo dados das prefeituras do Grande ABC. O número representa 3% dos 2.807.712 habitantes estimados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Além de problemas como a fome e a falta de moradia digna, a pandemia do novo coronavírus agravou a situação dessas famílias, que passaram a conviver com o medo, o isolamento, a perda de ‘bicos’ e a morte de familiares e amigos.

Ivan Fernandes, professor de políticas públicas da UFABC (Universidade Federal do ABC), avaliou que a pandemia, assim como em toda a sociedade, afetou essas famílias na questão sanitária, relacionada ao medo da contaminação pelo coronavírus, e também causou problemas psicológicos em razão do isolamento físico e das incertezas do futuro. “Adicionalmente, a pandemia tem um efeito econômico devastador, impactando os rendimentos de parte majoritária da população brasileira”, completou o especialista.

“Na região, as prefeituras e o governo do Estado preferiram demitir as merendeiras que trabalhavam nas escolas, quando poderiam ter aberto as cozinhas das escolas públicas como cozinhas comunitárias para a distribuição de alimentações aos que mais precisam”, apontou Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos). Ele destacou que outros problemas enfrentados pelas famílias no período foram o desemprego e a perda de renda, além da morte de chefes de família.

Na análise dos especialistas, a situação só não ficou pior devido ao auxílio emergencial de R$ 600 disponibilizado pelo governo federal, e que é pago a pelo menos 685,3 mil pessoas no Grande ABC. O benefício, agora no valor de R$ 300, foi estendido até dezembro. “A iniciativa do governo, turbinada pelo Congresso Nacional <CF51>(que ampliou o auxílio de R$ 200 para R$ 600)</CF> foi extremamente feliz ao evitar os piores cenários imaginados de esgarçamento do tecido social nos primeiros momentos da pandemia”, afirmou Fernandes.

Santo André abriga 24.882 pessoas que vivem na pobreza extrema, 4,28% mais do que em 2019. Em Diadema, são 18.691 indivíduos nesta situação, 5,13% mais do que no ano passado. Mauá tem 6.289 moradores que vivem com até R$ 89 mensais, 13,52% mais do que há um ano. São Bernardo (26.623) e Ribeirão Pires (3.300) não informaram os números de 2019. São Caetano e Rio Grande da Serra não responderam aos questionamentos.

LUTA DIÁRIA

Moradora do Jardim Zaíra, em Mauá, há meio século, Geni Inácio da Silva, 78 anos, vive com mais 15 familiares, entre filhos, netos e bisnetos. Tendo como única fonte de renda fixa o BPC (Benefício de Prestação Continuada)/ Loas (Lei Orgânica da Assistência Social), no valor de um salário mínimo (R$ 1.045), as três casas de alvenaria que comportam a família foram construídas a partir da ajuda de terceiros e o alimento depende de doações. Se dividir o montante por todos os moradores, dá R$ 69,66 per capita mensais. “Para falar a verdade, é o povo que me ajuda. Quando estou com um pouquinho de arroz na lata, alguém fala para eu ir buscar um pacote de arroz”, contou. Uma das ajudas é a da Associação Casa do Senhor, instalada no mesmo bairro, que doa cestas básicas, itens de hortifrúti, entre outros produtos para a casa.

Entre os adultos que vivem com ela, apenas uma das filhas possui trabalho formal. Os demais estão desempregados, entre eles, pelo menos dois com deficiência e que não conseguem trabalhar. A esperança é na campanha eleitoral, que costuma render ‘bicos’ à família. Embora viva em área de risco, onde desabamentos são comuns em época de chuva, Geni não pensa em deixar o local, já que, segundo ela, o valor do auxílio moradia – cuja quantia varia de acordo com a cidade – não é suficiente para alugar uma casa que comporte os 16 integrantes da família. “Graças a Deus somos todos unidos e repartimos tudo. Eu nunca disse não para ninguém. É Deus quem comanda tudo”, disse.

Além do uso de máscara, o que a pandemia mais afetou no cotidiano da dona Geni foi o isolamento. Ela, que sempre foi responsável por “correr atrás” das coisas para a família, se viu obrigada a ficar em casa, já que é do grupo de risco da Covid-19 em razão da idade. “Fiquei até me sentindo mal. Minha filha falava que era para eu descansar, que ela faria as coisas. Mas quando ela via, o varal já estava com as roupas que eu lavei”, lembra. Ela ficou em casa desde março e só na última semana voltou a sair de casa para ir ao posto de saúde.

Ajuda à população ainda é insuficiente

Mesmo que o auxílio emergencial tenha sido alento às famílias em extrema pobreza, especialistas avaliam que os programas de apoio a essa população precisam melhorar. 

Ivan Fernandes, professor de políticas públicas da UFABC (Universidade Federal do ABC), defende que a principal arma é a ampliação e a recuperação da estrutura do Bolsa Família e também disposição do governo para combater o problema de maneira ampliada. “Além disso, são necessários investimentos públicos em saneamento básico em regiões vulneráveis e periféricas, saúde e educação, políticas que atingem de maneira mais consistente a fração mais vulnerável da sociedade”, adicionou.

Segundo Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos), é preciso aumentar o orçamento das áreas de assistência social e proteção de crianças, adolescentes, famílias vulneráveis, idosos, mulheres e pessoas com deficiência. Para angariar recursos, o especialista defende a taxação das grandes fortunas.

Alves assinalou que no pós-pandemia é essencial reforçar os programas de transferência de renda. “E outros programas precisam surgir, como frentes de trabalho, auxílios de alimentação e distribuição de cestas básicas, centrais de apoio e renda para preparação e encaminhamento de pessoas ao mercado de trabalho”, sugeriu.

NA REGIÃO

As prefeituras de Santo André, São Bernardo, Diadema, Mauá e Ribeirão Pires garantiram que trabalham na inclusão das pessoas em situação de pobreza extrema em programas e benefícios sociais, como o Bolsa Família, o auxílio emergencial e o Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil). Normalmente, o suporte é iniciado pelo Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e, a partir das demandas apresentadas, são encaminhadas para os programas de transferência de renda e a serviços de assistência social.

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