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Pandemia muda a rotina de animais no Zoo do Estoril

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Funcionários relatam menos atropelamentos, mas mais casos de aves atingidas por linhas com cerol


Dérek Bittencourt
do Diário do Grande ABC

14/06/2020 | 07:31


Em 2018, 562 animais foram resgatados pelo Zoológico de São Bernardo, que integra o Parque Natural Estoril, no bairro de mesmo nome, às margens da Represa Billings. No ano passado, recorde de recebimento: 746. Porém, nos cinco primeiros meses de 2020, quase três deles sob pandemia do novo coronavírus, apenas 178 bichos chegaram ao local (média de quase um por dia), para onde são destinadas espécies silvestres encontradas nas sete cidades do Grande ABC.

A explicação para a redução está na própria pandemia, que provocou queda nos acidentes envolvendo animais, estes que estão mais à vontade em seu ambiente e, inclusive, aproveitando menor movimento de humanos e menos barulhos para explorar mais a fauna da Mata Atlântica na região – o município são-bernardense tem 46% do total de sua área composto por vegetação nativa (o equivalente a 191,4 quilômetros quadrados).

“Atropelamento é uma das grandes causas de animais que são resgatados e vêm para cá. Como o pessoal está ficando mais em casa, os atropelamentos caíram”, conta a bióloga Jeniffer Novaes, que aponta o aparecimento de espécies novas ou que estão se sentindo mais confortáveis sem a presença humana. “Os bichos estão mais à vontade. Não ter tanto a presença de humano, barulho, acaba sendo convidativo em ambiente que a gente tem natureza exuberante. Aqui é unidade de conservação. Temos visto bastante saracura, os jacus estão nos visitando mais, quatis, pavós e até o japu, que eu nunca tinha visto.”

Por outro lado, com mais pessoas de maneira forçada em casa por causa da quarentena, que vinha fechando a maior parte do comércio e mantém suspensas as rotinas escolares, aumentou a incidência de acidentes envolvendo pipas e aves e muitos destes animais acabam sofrendo cortes profundos em razão do cerol colocado propositadamente nas linhas. “É muito cruel”, lamenta Marcelo da Silva Gomes. “Este ano recebemos muita coruja, falcão e gavião, cortados por cerol. Morreram uns quatro, dilacerados, dois falcões-coleira e duas corujas. Os cortes são, principalmente, nas asas e ombros. Tem uma tal de linha chilena que corta até o osso, então pega circulação, gangrena. E tem também bicho que enrosca na árvore e fica lá por dias até morrer.”

Os animais que chegam ao zoológico machucados recebem atendimento e acompanhamento. Aqueles que sobrevivem têm dois destinos: a reabilitação para devolução à natureza ou a recuperação para permanência no próprio local, situação restrita àqueles que chegam com muitos filhotes ou que acabam com algum tipo de sequela. “São basicamente aqueles que não puderam voltar à natureza. Então vai encontrar bichos sem olho, sem pata, sem asa, mas que continua vivo e vai se aposentar aqui no zoo. Não vamos soltar para morrer devagar”, explica Marcelo enquanto faz processo de microchipagem em uma coruja que foi operada após fratura no tórax e passará por processo para treinar voo e recuperar a musculatura e ser solta.

O zoológico são-bernardense conta com 75 espécies e 750 animais exclusivamente da Mata Atlântica ou que estão colonizando e se incorporando à fauna presente na região.

NOMES ‘PANDÊMICOS’
O Zoo do Estoril vem realizando diversas ações de melhoria no espaço tanto para visitantes quanto para animais, aproveitando o fechamento para o público. Entretanto, não são apenas estas situações que ficarão como saldo da quarentena. Isso porque um animal resgatado e outro recém-nascido receberam nomes um tanto quanto curiosos. Recuperada enquanto caminhava ao lado de uma estrada em Ribeirão Pires, o veado fêmea filhote – que vem recebendo duas mamadeiras de leite de cabra diariamente – foi nomeado Cloroquina. Já o macaco-prego, que nasceu poucos dias após o início do isolamento físico, será Corona (se for fêmea) ou Covid (caso identificado como macho).

Veterinário e bióloga ressaltam todos os cuidados para evitar Covid nos animais

O novo coronavírus vem mexendo com o modo de vida das pessoas, que vêm priorizando a saúde própria e do próximo. No Zoo do Estoril, além da preocupação com os funcionários, existe também o alerta com a possibilidade de contágio de algumas espécies.

“O vírus é o mesmo”, explica a bióloga Jeniffer Novaes, que alerta para a chance de contaminação de outra maneira. “Existe transmissão importante através das fezes”, afirma ela. Os testes para identificação nos animais é realizado como nos humanos: PCR e swab de orofaringe. Porém, também é possível examinar através do material fecal.

Em outros países, foram noticiados casos de animais que testaram positivo à Covid-19. “O National Zoo, em Washington, acusou coronavirose com sintomas em tigre e grupo de leões que ficava em volta aparentemente também teve. E primatas são muito próximos da gente, então tem intercâmbio de doenças muito grande. A vantagem é que aqui (Estoril) é aberto. Em zoológicos que têm casas de primatas, isso é mais arriscado”, explica o médico veterinário Marcelo da Silva Gomes, que indicou algumas medidas. “Estamos pedindo teste dos tratadores. Todos usando máscara, lavando as mãos, tomando cuidado com o material que sai para lavar.”

Virtualização para diminuir distância

Em um domingo de sol, o Zoológico de São Bernardo, dentro do Parque Natural Estoril, está acostumado a receber 3.500 visitantes. Já durante a semana, a rotina é composta por excursões de alunos que aprendem sobre a educação ambiental, fauna local e mata atlântica. Há quase três meses, entretanto, o espaço está restrito a funcionários. Mas, para driblar este distanciamento, está em desenvolvimento para implantação nas próximas semanas um acesso digitalizado ao espaço.

Não será necessariamente uma visita virtual, como em museus e outros zoológicos do mundo. Até por sua função educacional, o Zoo do Estoril pensa em ações diferentes. “A cada vídeo ou ao vivo (live) uma abordagem diferente. Por exemplo, enriquecimento ambiental para um bicho num dia. No outro o tratador preparando alimentação e entrando no recinto. Conscientização, rotina, animal que acabou de chegar, tratador fazendo alguma coisa diferente, situações que até mesmo como visitante não conseguiria ter acesso”, sugere a bióloga Jeniffer Novaes.

REABERTURA
Ainda é cedo para vislumbrar quando é que o zoológico vai reabrir para o público externo. Ainda assim, seus profissionais já pensam nas medidas que deverão ser tomadas para evitar aglomeração. Afinal, não é possível ter a certeza de que tal situação aconteça antes de uma vacina contra a Covid-19 ser criada. Portanto, precauções serão necessárias para seguir controlando e impedindo a disseminação do novo coronavírus.

“A gente não tem previsão, porque (a pandemia) ainda está em uma crescente, não chegou a estabilizar. Duvido que o zoológico seja reaberto tão cedo, vai ser uma das últimas prioridades. Apesar de estarmos num espaço aberto, mas que tem aglomerações, como para entrar no recinto (das aves) ou em corredores estreitos. O parque tem 773 mil metros quadrados, mas o zoológico tem 10 mil. Então não vale a pena ter essa pressa pelo risco com as pessoas e com os animais. Não posso ter visitante espirrando nos animais”, explica a bióloga. “A gente pensou em novas possibilidades, como aos fins de semana ter apenas visitação monitorada, com controle do número de pessoas e horário agendado. É situação que a gente está amadurecendo, mas seria positivo para todos: para o zoo, para a educação ambiental e para os animais, porque a visitação tem impacto na saúde e bem-estar deles”, concluiu. 



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Pandemia muda a rotina de animais no Zoo do Estoril

Funcionários relatam menos atropelamentos, mas mais casos de aves atingidas por linhas com cerol

Dérek Bittencourt
do Diário do Grande ABC

14/06/2020 | 07:31


Em 2018, 562 animais foram resgatados pelo Zoológico de São Bernardo, que integra o Parque Natural Estoril, no bairro de mesmo nome, às margens da Represa Billings. No ano passado, recorde de recebimento: 746. Porém, nos cinco primeiros meses de 2020, quase três deles sob pandemia do novo coronavírus, apenas 178 bichos chegaram ao local (média de quase um por dia), para onde são destinadas espécies silvestres encontradas nas sete cidades do Grande ABC.

A explicação para a redução está na própria pandemia, que provocou queda nos acidentes envolvendo animais, estes que estão mais à vontade em seu ambiente e, inclusive, aproveitando menor movimento de humanos e menos barulhos para explorar mais a fauna da Mata Atlântica na região – o município são-bernardense tem 46% do total de sua área composto por vegetação nativa (o equivalente a 191,4 quilômetros quadrados).

“Atropelamento é uma das grandes causas de animais que são resgatados e vêm para cá. Como o pessoal está ficando mais em casa, os atropelamentos caíram”, conta a bióloga Jeniffer Novaes, que aponta o aparecimento de espécies novas ou que estão se sentindo mais confortáveis sem a presença humana. “Os bichos estão mais à vontade. Não ter tanto a presença de humano, barulho, acaba sendo convidativo em ambiente que a gente tem natureza exuberante. Aqui é unidade de conservação. Temos visto bastante saracura, os jacus estão nos visitando mais, quatis, pavós e até o japu, que eu nunca tinha visto.”

Por outro lado, com mais pessoas de maneira forçada em casa por causa da quarentena, que vinha fechando a maior parte do comércio e mantém suspensas as rotinas escolares, aumentou a incidência de acidentes envolvendo pipas e aves e muitos destes animais acabam sofrendo cortes profundos em razão do cerol colocado propositadamente nas linhas. “É muito cruel”, lamenta Marcelo da Silva Gomes. “Este ano recebemos muita coruja, falcão e gavião, cortados por cerol. Morreram uns quatro, dilacerados, dois falcões-coleira e duas corujas. Os cortes são, principalmente, nas asas e ombros. Tem uma tal de linha chilena que corta até o osso, então pega circulação, gangrena. E tem também bicho que enrosca na árvore e fica lá por dias até morrer.”

Os animais que chegam ao zoológico machucados recebem atendimento e acompanhamento. Aqueles que sobrevivem têm dois destinos: a reabilitação para devolução à natureza ou a recuperação para permanência no próprio local, situação restrita àqueles que chegam com muitos filhotes ou que acabam com algum tipo de sequela. “São basicamente aqueles que não puderam voltar à natureza. Então vai encontrar bichos sem olho, sem pata, sem asa, mas que continua vivo e vai se aposentar aqui no zoo. Não vamos soltar para morrer devagar”, explica Marcelo enquanto faz processo de microchipagem em uma coruja que foi operada após fratura no tórax e passará por processo para treinar voo e recuperar a musculatura e ser solta.

O zoológico são-bernardense conta com 75 espécies e 750 animais exclusivamente da Mata Atlântica ou que estão colonizando e se incorporando à fauna presente na região.

NOMES ‘PANDÊMICOS’
O Zoo do Estoril vem realizando diversas ações de melhoria no espaço tanto para visitantes quanto para animais, aproveitando o fechamento para o público. Entretanto, não são apenas estas situações que ficarão como saldo da quarentena. Isso porque um animal resgatado e outro recém-nascido receberam nomes um tanto quanto curiosos. Recuperada enquanto caminhava ao lado de uma estrada em Ribeirão Pires, o veado fêmea filhote – que vem recebendo duas mamadeiras de leite de cabra diariamente – foi nomeado Cloroquina. Já o macaco-prego, que nasceu poucos dias após o início do isolamento físico, será Corona (se for fêmea) ou Covid (caso identificado como macho).

Veterinário e bióloga ressaltam todos os cuidados para evitar Covid nos animais

O novo coronavírus vem mexendo com o modo de vida das pessoas, que vêm priorizando a saúde própria e do próximo. No Zoo do Estoril, além da preocupação com os funcionários, existe também o alerta com a possibilidade de contágio de algumas espécies.

“O vírus é o mesmo”, explica a bióloga Jeniffer Novaes, que alerta para a chance de contaminação de outra maneira. “Existe transmissão importante através das fezes”, afirma ela. Os testes para identificação nos animais é realizado como nos humanos: PCR e swab de orofaringe. Porém, também é possível examinar através do material fecal.

Em outros países, foram noticiados casos de animais que testaram positivo à Covid-19. “O National Zoo, em Washington, acusou coronavirose com sintomas em tigre e grupo de leões que ficava em volta aparentemente também teve. E primatas são muito próximos da gente, então tem intercâmbio de doenças muito grande. A vantagem é que aqui (Estoril) é aberto. Em zoológicos que têm casas de primatas, isso é mais arriscado”, explica o médico veterinário Marcelo da Silva Gomes, que indicou algumas medidas. “Estamos pedindo teste dos tratadores. Todos usando máscara, lavando as mãos, tomando cuidado com o material que sai para lavar.”

Virtualização para diminuir distância

Em um domingo de sol, o Zoológico de São Bernardo, dentro do Parque Natural Estoril, está acostumado a receber 3.500 visitantes. Já durante a semana, a rotina é composta por excursões de alunos que aprendem sobre a educação ambiental, fauna local e mata atlântica. Há quase três meses, entretanto, o espaço está restrito a funcionários. Mas, para driblar este distanciamento, está em desenvolvimento para implantação nas próximas semanas um acesso digitalizado ao espaço.

Não será necessariamente uma visita virtual, como em museus e outros zoológicos do mundo. Até por sua função educacional, o Zoo do Estoril pensa em ações diferentes. “A cada vídeo ou ao vivo (live) uma abordagem diferente. Por exemplo, enriquecimento ambiental para um bicho num dia. No outro o tratador preparando alimentação e entrando no recinto. Conscientização, rotina, animal que acabou de chegar, tratador fazendo alguma coisa diferente, situações que até mesmo como visitante não conseguiria ter acesso”, sugere a bióloga Jeniffer Novaes.

REABERTURA
Ainda é cedo para vislumbrar quando é que o zoológico vai reabrir para o público externo. Ainda assim, seus profissionais já pensam nas medidas que deverão ser tomadas para evitar aglomeração. Afinal, não é possível ter a certeza de que tal situação aconteça antes de uma vacina contra a Covid-19 ser criada. Portanto, precauções serão necessárias para seguir controlando e impedindo a disseminação do novo coronavírus.

“A gente não tem previsão, porque (a pandemia) ainda está em uma crescente, não chegou a estabilizar. Duvido que o zoológico seja reaberto tão cedo, vai ser uma das últimas prioridades. Apesar de estarmos num espaço aberto, mas que tem aglomerações, como para entrar no recinto (das aves) ou em corredores estreitos. O parque tem 773 mil metros quadrados, mas o zoológico tem 10 mil. Então não vale a pena ter essa pressa pelo risco com as pessoas e com os animais. Não posso ter visitante espirrando nos animais”, explica a bióloga. “A gente pensou em novas possibilidades, como aos fins de semana ter apenas visitação monitorada, com controle do número de pessoas e horário agendado. É situação que a gente está amadurecendo, mas seria positivo para todos: para o zoo, para a educação ambiental e para os animais, porque a visitação tem impacto na saúde e bem-estar deles”, concluiu. 

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