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Gil, de peito aberto, sobre sua obra e o Brasil



11/12/2019 | 07:20


Como ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil acompanha a situação do setor no atual governo. Mas não adiante você estimulá-lo a dizer o que quer que seja. "As manchetes abundam, não é preciso que eu diga nada", sorri. O cantor e compositor recebe a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo em seu escritório na Gávea. A entrevista realizou-se ontem à tarde, depois de o repórter assistir ao documentário de Lula Buarque de Holanda, Gilberto Gil - Antologia Volume 1. Gil posou para a foto sem camisa - de peito nu -, o que está de acordo com o espírito da obra. "O Lula, em quem eu tenho integral confiança, me propôs esse formato que achei bem interessante. Ele selecionou músicas dos anos 1960 aos 80, compostas na época do regime militar, e me pediu que comentasse cada uma delas."

Se há um Volume 1, é porque existe a expectativa de que a Antologia prossiga - Volume 2, 3... Volume 1 abriu ontem, no fim da tarde, a seção Retratos Musicais da Première Brasil, que sempre foi a grande vitrine da produção nacional no Festival do Rio. Gil mal teve tempo de se arrumar e correr para o Shopping da Gávea, onde ocorreu a sessão. O mais perto que chegou de uma crítica foi ao dizer - "O Brasil é muito maior e mais complexo do que essa camisa de força reducionista em que querem colocá-lo." No filme, é mais contundente. Ao revisar Cálice, evoca o absurdo da censura ao jornal O Estado de S. Paulo, nos anos de chumbo, à qual o jornal reagiu publicando receitas de bolos e trechos de Os Lusíadas. Lembra - "Havia combinado de ir no sábado à casa do Chico (Buarque), para colocarmos letra numa música que os militares queriam proibir. Mas era Sexta-Feira Santa, e o clima era de evocação do sofrimento do Cristo no Gólgota. Cheguei lá e o Chico me serviu uma bebida amarga, e foi assim que surgiu o 'Cálice', com o qual a gente investia contra o 'Cale-se'."

São muitas e deliciosas histórias. Gil estava reunido com amigos em sua casa, durante o exílio em Londres. Experimentaram um ácido, ele viajou. "Havia um caderninho e eu fiz umas anotações. Muito tempo depois, mais de ano, em outra casa, encontrei o caderno e aquelas linhas colocaram em circulação o Expresso 2222." Aquele Abraço? "Estava preso e no quartel ouvia muito os soldados repetirem 'Aquele Abraço', que era o bordão de um comediante de sucesso.

Quando saí, era Quarta-Feira de Cinzas, e a cidade (o Rio) exibia os restos da grande festa. E foi assim que surgiu O Rio de Janeiro continua lindo." E continua? "Claro, com todo o horror, com todos os problemas, o Rio é lindo, a Cidade Maravilhosa." O repórter arrisca - de todos os grandes compositores brasileiros, Gil talvez seja o que possui uma abordagem mais crítica da própria obra. Como foi para ele ouvir e comentar todas essas composições, mostradas por meio de material de arquivo, de época? "Você tem razão, sou mesmo reflexivo. Mesmo quando nascem de forma que parece espontânea, as músicas têm um propósito. Convido sempre o público a fazer essa reflexão comigo, a compartilhá-la." Não por acaso, um dos momentos mais emocionantes é quando Gil canta Viramundo: "...Pelo mundo do sertão/mas ainda viro esse mundo/em festa, trabalho e pão".

Gil conta que o acordeão surgiu muito cedo em sua vida, ligado ao seu amor por Luiz Gonzaga. Com João Gilberto, ele descobriu o violão, e hoje é inseparável. "Tenho violão em casa, no escritório, aqui embaixo, lá em cima. É só parar um pouco e eu já começo a dedilhar." Muitas composições nascem assim. Por se tratar de um filme, cabe perguntar pelo cinema, para o qual também já compôs. "O cinema, para mim, quando era garoto, adolescente, era diversão. Foi depois, e um pouco por influência de Caetano (Veloso), que me interessei pela estética, descobri os autores, a linguagem."

Embora o filme seja centrado nele, aparecem Chico, Caetano, ele próprio tenta compor como Jorge Ben(jor). A amizade? "Foram as pessoas que conheci e com quem convivi que me abriram os horizontes, a mente. A arte ilumina, é para ser compartilhada, faz crescer. Por isso, mete medo." Depois do Festival do Rio, Gilberto Gil - Antologia Volume 1 chega ao canal Curta! no dia 23. É belíssimo. Uma viagem (auto)comentada pela obra de um grande artista, e na qual se reflete o Brasil.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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Gil, de peito aberto, sobre sua obra e o Brasil


11/12/2019 | 07:20


Como ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil acompanha a situação do setor no atual governo. Mas não adiante você estimulá-lo a dizer o que quer que seja. "As manchetes abundam, não é preciso que eu diga nada", sorri. O cantor e compositor recebe a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo em seu escritório na Gávea. A entrevista realizou-se ontem à tarde, depois de o repórter assistir ao documentário de Lula Buarque de Holanda, Gilberto Gil - Antologia Volume 1. Gil posou para a foto sem camisa - de peito nu -, o que está de acordo com o espírito da obra. "O Lula, em quem eu tenho integral confiança, me propôs esse formato que achei bem interessante. Ele selecionou músicas dos anos 1960 aos 80, compostas na época do regime militar, e me pediu que comentasse cada uma delas."

Se há um Volume 1, é porque existe a expectativa de que a Antologia prossiga - Volume 2, 3... Volume 1 abriu ontem, no fim da tarde, a seção Retratos Musicais da Première Brasil, que sempre foi a grande vitrine da produção nacional no Festival do Rio. Gil mal teve tempo de se arrumar e correr para o Shopping da Gávea, onde ocorreu a sessão. O mais perto que chegou de uma crítica foi ao dizer - "O Brasil é muito maior e mais complexo do que essa camisa de força reducionista em que querem colocá-lo." No filme, é mais contundente. Ao revisar Cálice, evoca o absurdo da censura ao jornal O Estado de S. Paulo, nos anos de chumbo, à qual o jornal reagiu publicando receitas de bolos e trechos de Os Lusíadas. Lembra - "Havia combinado de ir no sábado à casa do Chico (Buarque), para colocarmos letra numa música que os militares queriam proibir. Mas era Sexta-Feira Santa, e o clima era de evocação do sofrimento do Cristo no Gólgota. Cheguei lá e o Chico me serviu uma bebida amarga, e foi assim que surgiu o 'Cálice', com o qual a gente investia contra o 'Cale-se'."

São muitas e deliciosas histórias. Gil estava reunido com amigos em sua casa, durante o exílio em Londres. Experimentaram um ácido, ele viajou. "Havia um caderninho e eu fiz umas anotações. Muito tempo depois, mais de ano, em outra casa, encontrei o caderno e aquelas linhas colocaram em circulação o Expresso 2222." Aquele Abraço? "Estava preso e no quartel ouvia muito os soldados repetirem 'Aquele Abraço', que era o bordão de um comediante de sucesso.

Quando saí, era Quarta-Feira de Cinzas, e a cidade (o Rio) exibia os restos da grande festa. E foi assim que surgiu O Rio de Janeiro continua lindo." E continua? "Claro, com todo o horror, com todos os problemas, o Rio é lindo, a Cidade Maravilhosa." O repórter arrisca - de todos os grandes compositores brasileiros, Gil talvez seja o que possui uma abordagem mais crítica da própria obra. Como foi para ele ouvir e comentar todas essas composições, mostradas por meio de material de arquivo, de época? "Você tem razão, sou mesmo reflexivo. Mesmo quando nascem de forma que parece espontânea, as músicas têm um propósito. Convido sempre o público a fazer essa reflexão comigo, a compartilhá-la." Não por acaso, um dos momentos mais emocionantes é quando Gil canta Viramundo: "...Pelo mundo do sertão/mas ainda viro esse mundo/em festa, trabalho e pão".

Gil conta que o acordeão surgiu muito cedo em sua vida, ligado ao seu amor por Luiz Gonzaga. Com João Gilberto, ele descobriu o violão, e hoje é inseparável. "Tenho violão em casa, no escritório, aqui embaixo, lá em cima. É só parar um pouco e eu já começo a dedilhar." Muitas composições nascem assim. Por se tratar de um filme, cabe perguntar pelo cinema, para o qual também já compôs. "O cinema, para mim, quando era garoto, adolescente, era diversão. Foi depois, e um pouco por influência de Caetano (Veloso), que me interessei pela estética, descobri os autores, a linguagem."

Embora o filme seja centrado nele, aparecem Chico, Caetano, ele próprio tenta compor como Jorge Ben(jor). A amizade? "Foram as pessoas que conheci e com quem convivi que me abriram os horizontes, a mente. A arte ilumina, é para ser compartilhada, faz crescer. Por isso, mete medo." Depois do Festival do Rio, Gilberto Gil - Antologia Volume 1 chega ao canal Curta! no dia 23. É belíssimo. Uma viagem (auto)comentada pela obra de um grande artista, e na qual se reflete o Brasil.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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