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Instituições de ensino superior da região são afetadas pela crise

Marcello Casal Jr/Agência Brasil Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Má gestão associada à dependência de recursos federais são apontadas como causas para o cenário


Aline Melo

21/04/2019 | 07:02


A crise financeira que assola o País desde o fim de 2014 parece estar longe do fim. A eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que era vista por especialistas como um “calmante para o mercado” antes do pleito, mostrou-se insuficiente para reverter a situação. Um dos setores que sentiu os efeitos da retração econômica foi o da educação superior, que viveu boom de criação de vagas e abertura de instituições nos governos petistas (de 2003 a 2015), mas vem registrando nos últimos anos redução no número de alunos, especialmente nos cursos presenciais – queda de 0,8% em 2017, na comparação com o ano anterior, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

No Grande ABC, são mais de 40 mil alunos matriculados, 200 cursos e 20 instituições de ensino superior, entre públicas e privadas – duas delas, embora tradicionais, vivem momentos de crise. Com atrasos de salários e demissão de professores, a Universidade Metodista, de São Bernardo, e a FSA (Fundação Santo André), de Santo André, têm colecionado problemas com sindicatos, que cobram os direitos de professores e funcionários, e alunos, que reclamam da queda da qualidade. <EM>Um dos fundadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor geral da Facamp (Faculdades de Campinas), João Manuel Cardoso de Mello, avalia que a depressão econômica que atinge o Brasil e a consequente alta do desemprego afetou com força a classe baixa, mas também parte significativa da classe média. Na sua concepção, a perda de emprego impactou em problemas de demanda para as universidades e faculdades particulares, com altos índices de evasão e inadimplência. “Causas externas e que independem de gestão”, cita.

Mello destaca que as mudanças promovidas no Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), do governo federal, desde 2016, com contenção de recursos por parte do MEC (Ministério da Educação), agravou a situação das instituições que expandiram a atuação nos tempos em que o subsídio era farto. “Atualmente, muitas instituições estão em dificuldades porque dependiam fortemente desse programa”, pontuou.

O especialista apontou ainda que, sobre a Metodista, há crise instaurada na igreja que comanda a instituição de ensino há vários anos. Segundo ele, antes dos problemas em São Bernardo, o grupo já enfrentava dificuldades em cidades do Interior. “É um caso de briga entre os pastores. Em momento de instabilidade interna, a crise financeira tem ainda mais impacto”, opinou.

Em março, reportagem do Diário mostrou que a FSA, que já teve 12 mil alunos entre os anos 1990 e 2000, tinha, no início deste ano letivo, cerca de 3.000 estudantes, e, desde 2008, enfrenta grave crise financeira. Além da dificuldade em equacionar os gastos à realidade financeira, a instituição também coleciona polêmicas, como a suspeita de que o reitor Francisco Milreu foi contratado sem ter passado por concurso público – fato confessado ao Diário em março de 2018 e posteriormente negado pela instituição, sem apresentação de documentos comprobatórios. O tema gerou sindicância interna que culminou na demissão em massa de 40 professores desde dezembro do ano passado, investigações do MP (Ministério Público) e CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara Municipal andreense.

O diretor da Facamp afirmou que faltam mecanismos para a sociedade fiscalizar as universidades, tanto do ponto de vista da qualidade, quanto de gestão, especialmente nas instituições públicas. “É preciso esse controle, sem que isso interfira na autonomia acadêmica. Reitores que realmente possam tomar decisões, e não sejam engessados por conselhos, que muitas vezes visam atender seus próprios interesses. São necessárias alternativas para que os reitores não se tornem tiranos e tenham a quem responder por suas ações”, frisou.

Em termos gerais, Mello avalia o cenário da educação superior no País como “nada animador”. “De um lado, universidades públicas com cortes draconianos de recursos. Do outro, instituições privadas com dificuldades financeiras. O resultado é menos profissionais formados, alguns com formação abaixo do que se espera, com possíveis impactos negativos na produtividade e no desenvolvimento do Brasil a médio e longo prazo”, finalizou.

Situação do MEC divide especialistas em educação

Um dos principais ministérios e também um dos maiores orçamentos do governo, a Educação coleciona polêmicas desde que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) tomou posse. O primeiro titular, Ricardo Velez Rodríguez, foi alvo de duras críticas e perdeu a cadeira em menos 100 dias. Seu substituto, Abraham Wintraub, assumiu o cargo em meio a crises e disputas de grupos, demissões de mais de uma dezena de funcionários, decisões e recuos sobre diferentes temas, e a falta de uma proposta para a educação do País. Para especialistas ouvidos pelo Diário, falta perfil técnico, embora haja indicativo de flexibilização.

Um dos fundadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor geral da Facamp (Faculdades de Campinas), João Manuel Cardoso de Mello, acredita falta alguém com perfil mais técnico para estar à frente das decisões no MEC. “Enquanto isso, o governo se ocupa de questões que afetam um pequeno número de pessoas, como a educação domiciliar”, opinou. “O panorama é muito ruim. Qual será a condução das universidades federais, uma das maiores preocupações do ambiente acadêmico atual. Ninguém sabe”, pontuou.

Já para o pró-reitor de EAD (Ensino a Distância) da Unicesumar (Centro Universitário de Maringá) Janes Fidélis Tomelin, as perspectivas são otimistas. “Apesar das polêmicas, vejo mais indicativos de abertura e flexibilização. Acho que podemos esperar, também, intenso processo de auditorias e avaliações, buscando o saneamento de instituições”, concluiu.

EAD não é vilão do ensino presencial, afirma gestor

A queda de 0,8% em 2017 no número de matrículas no ensino superior no País é um contraste ao aumento de 16% no aumento de alunos em cursos a distância, segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

Para o pró-reitor de EAD (Ensino a Distância) da Unicesumar (Centro Universitário de Maringá) Janes Fidélis Tomelin, a flexibilidade de tempo e o uso de novas tecnologias têm sido os grandes atrativos para a modalidade. “Desde 2017, com novas legislações sobre o tema, houve expansão dos polos presenciais, que triplicaram em todo o País. O aluno de hoje não quer mais ficar enclausurado em uma sala de aula, apenas com aulas expositivas. O ensino a distância não é o vilão da educação presencial”, afirmou.

Na visão de Tomelin, assim como acontece no comércio, onde o cliente é atraído mais pela experiência da compra do que pelo produto em si, o processo de aprendizado precisa ser revisto para se tornar mais atrativo. “Professores não podem mais ser instrutores. Devem ser incentivadores, motivadores, abandonar as aulas expositivas e integrar o aprendizado à situações reais.”

Nem mesmo a crise financeira é encarada pelo pró-reitor como justificativa para os problemas em instituições de ensino superior. “Na Unicesumar, aumentamos em 5% o índice de permanência com experiências que buscam associar o aprendizado ao projeto de vida do aluno. Em momento de crise, ele vai priorizar os gastos com educação”, comparou.

Região tem assistido ao fechamento de instituições

Seja pela crise financeira instalada no País ou por problemas de gestão, a região do Grande ABC tem assistido ao fechamento de instituições de ensino superior nos últimos anos. Em Santo André, a Fainc (Faculdades Integradas Coração de Jesus) e a Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André) encerraram suas atividades em 2017 e 2015, respectivamente.

Em São Caetano, a Faculdade Tijucussu, que pertencia ao Grupo Uniesp, encerrou as atividades em dezembro de 2018. Grandes grupos também assumiram o controle de instituições menores, como o Anhanguera Educacional, que é responsável pela Faculdade São Bernardo de Tecnologia, em São Bernardo. 



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Instituições de ensino superior da região são afetadas pela crise

Má gestão associada à dependência de recursos federais são apontadas como causas para o cenário

Aline Melo

21/04/2019 | 07:02


A crise financeira que assola o País desde o fim de 2014 parece estar longe do fim. A eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que era vista por especialistas como um “calmante para o mercado” antes do pleito, mostrou-se insuficiente para reverter a situação. Um dos setores que sentiu os efeitos da retração econômica foi o da educação superior, que viveu boom de criação de vagas e abertura de instituições nos governos petistas (de 2003 a 2015), mas vem registrando nos últimos anos redução no número de alunos, especialmente nos cursos presenciais – queda de 0,8% em 2017, na comparação com o ano anterior, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

No Grande ABC, são mais de 40 mil alunos matriculados, 200 cursos e 20 instituições de ensino superior, entre públicas e privadas – duas delas, embora tradicionais, vivem momentos de crise. Com atrasos de salários e demissão de professores, a Universidade Metodista, de São Bernardo, e a FSA (Fundação Santo André), de Santo André, têm colecionado problemas com sindicatos, que cobram os direitos de professores e funcionários, e alunos, que reclamam da queda da qualidade. <EM>Um dos fundadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor geral da Facamp (Faculdades de Campinas), João Manuel Cardoso de Mello, avalia que a depressão econômica que atinge o Brasil e a consequente alta do desemprego afetou com força a classe baixa, mas também parte significativa da classe média. Na sua concepção, a perda de emprego impactou em problemas de demanda para as universidades e faculdades particulares, com altos índices de evasão e inadimplência. “Causas externas e que independem de gestão”, cita.

Mello destaca que as mudanças promovidas no Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), do governo federal, desde 2016, com contenção de recursos por parte do MEC (Ministério da Educação), agravou a situação das instituições que expandiram a atuação nos tempos em que o subsídio era farto. “Atualmente, muitas instituições estão em dificuldades porque dependiam fortemente desse programa”, pontuou.

O especialista apontou ainda que, sobre a Metodista, há crise instaurada na igreja que comanda a instituição de ensino há vários anos. Segundo ele, antes dos problemas em São Bernardo, o grupo já enfrentava dificuldades em cidades do Interior. “É um caso de briga entre os pastores. Em momento de instabilidade interna, a crise financeira tem ainda mais impacto”, opinou.

Em março, reportagem do Diário mostrou que a FSA, que já teve 12 mil alunos entre os anos 1990 e 2000, tinha, no início deste ano letivo, cerca de 3.000 estudantes, e, desde 2008, enfrenta grave crise financeira. Além da dificuldade em equacionar os gastos à realidade financeira, a instituição também coleciona polêmicas, como a suspeita de que o reitor Francisco Milreu foi contratado sem ter passado por concurso público – fato confessado ao Diário em março de 2018 e posteriormente negado pela instituição, sem apresentação de documentos comprobatórios. O tema gerou sindicância interna que culminou na demissão em massa de 40 professores desde dezembro do ano passado, investigações do MP (Ministério Público) e CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara Municipal andreense.

O diretor da Facamp afirmou que faltam mecanismos para a sociedade fiscalizar as universidades, tanto do ponto de vista da qualidade, quanto de gestão, especialmente nas instituições públicas. “É preciso esse controle, sem que isso interfira na autonomia acadêmica. Reitores que realmente possam tomar decisões, e não sejam engessados por conselhos, que muitas vezes visam atender seus próprios interesses. São necessárias alternativas para que os reitores não se tornem tiranos e tenham a quem responder por suas ações”, frisou.

Em termos gerais, Mello avalia o cenário da educação superior no País como “nada animador”. “De um lado, universidades públicas com cortes draconianos de recursos. Do outro, instituições privadas com dificuldades financeiras. O resultado é menos profissionais formados, alguns com formação abaixo do que se espera, com possíveis impactos negativos na produtividade e no desenvolvimento do Brasil a médio e longo prazo”, finalizou.

Situação do MEC divide especialistas em educação

Um dos principais ministérios e também um dos maiores orçamentos do governo, a Educação coleciona polêmicas desde que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) tomou posse. O primeiro titular, Ricardo Velez Rodríguez, foi alvo de duras críticas e perdeu a cadeira em menos 100 dias. Seu substituto, Abraham Wintraub, assumiu o cargo em meio a crises e disputas de grupos, demissões de mais de uma dezena de funcionários, decisões e recuos sobre diferentes temas, e a falta de uma proposta para a educação do País. Para especialistas ouvidos pelo Diário, falta perfil técnico, embora haja indicativo de flexibilização.

Um dos fundadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor geral da Facamp (Faculdades de Campinas), João Manuel Cardoso de Mello, acredita falta alguém com perfil mais técnico para estar à frente das decisões no MEC. “Enquanto isso, o governo se ocupa de questões que afetam um pequeno número de pessoas, como a educação domiciliar”, opinou. “O panorama é muito ruim. Qual será a condução das universidades federais, uma das maiores preocupações do ambiente acadêmico atual. Ninguém sabe”, pontuou.

Já para o pró-reitor de EAD (Ensino a Distância) da Unicesumar (Centro Universitário de Maringá) Janes Fidélis Tomelin, as perspectivas são otimistas. “Apesar das polêmicas, vejo mais indicativos de abertura e flexibilização. Acho que podemos esperar, também, intenso processo de auditorias e avaliações, buscando o saneamento de instituições”, concluiu.

EAD não é vilão do ensino presencial, afirma gestor

A queda de 0,8% em 2017 no número de matrículas no ensino superior no País é um contraste ao aumento de 16% no aumento de alunos em cursos a distância, segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

Para o pró-reitor de EAD (Ensino a Distância) da Unicesumar (Centro Universitário de Maringá) Janes Fidélis Tomelin, a flexibilidade de tempo e o uso de novas tecnologias têm sido os grandes atrativos para a modalidade. “Desde 2017, com novas legislações sobre o tema, houve expansão dos polos presenciais, que triplicaram em todo o País. O aluno de hoje não quer mais ficar enclausurado em uma sala de aula, apenas com aulas expositivas. O ensino a distância não é o vilão da educação presencial”, afirmou.

Na visão de Tomelin, assim como acontece no comércio, onde o cliente é atraído mais pela experiência da compra do que pelo produto em si, o processo de aprendizado precisa ser revisto para se tornar mais atrativo. “Professores não podem mais ser instrutores. Devem ser incentivadores, motivadores, abandonar as aulas expositivas e integrar o aprendizado à situações reais.”

Nem mesmo a crise financeira é encarada pelo pró-reitor como justificativa para os problemas em instituições de ensino superior. “Na Unicesumar, aumentamos em 5% o índice de permanência com experiências que buscam associar o aprendizado ao projeto de vida do aluno. Em momento de crise, ele vai priorizar os gastos com educação”, comparou.

Região tem assistido ao fechamento de instituições

Seja pela crise financeira instalada no País ou por problemas de gestão, a região do Grande ABC tem assistido ao fechamento de instituições de ensino superior nos últimos anos. Em Santo André, a Fainc (Faculdades Integradas Coração de Jesus) e a Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André) encerraram suas atividades em 2017 e 2015, respectivamente.

Em São Caetano, a Faculdade Tijucussu, que pertencia ao Grupo Uniesp, encerrou as atividades em dezembro de 2018. Grandes grupos também assumiram o controle de instituições menores, como o Anhanguera Educacional, que é responsável pela Faculdade São Bernardo de Tecnologia, em São Bernardo. 

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