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Moradores de áreas de
risco têm ‘protocolo’

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

A cada temporal, famílias adotam rotina de recolher pertences e buscar abrigo em local seguro


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

25/02/2019 | 07:00


Diante das tragédias registradas rotineiramente no Grande ABC com as chuvas de verão – quatro crianças morreram em deslizamento de terra em Mauá na semana passada –, famílias que vivem em áreas de risco ligam o sinal de alerta logo que o céu escurece e anuncia que uma tempestade está para chegar a qualquer momento. Não por acaso, quando o temporal começa já virou rotina levantar móveis, recolher pertences e buscar abrigo nas casas de vizinhos ou parentes situadas em locais mais seguros. Espécie de protocolo regido pelo instinto de sobrevivência.

Este é o caso da família de Sá, que vive no Jardim Irene, em Santo André, há pelo menos 40 anos. Quando a auxiliar de serviços gerais Maria Aparecida de Sá, 55 anos, comprou terreno sobre o Rio Guarará, não sabia que a área poderia representar risco à sua vida e de seus filhos. Para ter acesso à residência, que tem mais dois ‘puxadinhos’ – já que abriga nove pessoas – é preciso atravessar ponte de madeira construída entre a beira do córrego e a plataforma da casa.

Nora de Maria Aparecida, Rosilene Alves de Melo, 29, relata que, por necessidade, mora há dez anos com a sogra. “(Na casa) Somos em sete adultos e duas crianças, sendo uma bebê. Nenhum de nós tem dinheiro para pagar aluguel, tampouco comprar um terreno ou moradia, então ficamos por aqui mesmo.”

De todo o bairro, a casa de dona Maria é sempre a mais afetada pelas enchentes. “Em 2013, teve uma chuva em que a água chegou a um metro e vinte de altura. Perdemos absolutamente tudo. Nem sei dizer quantas vezes, de lá para cá, encheu nossa casa e perdemos móveis e eletrodomésticos de novo”, lamentou o filho Bruno de Sá, 27.

Integrante de Nupdec (Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil) – responsável por alertar a comunidade sobre possíveis riscos – e morador do Jardim Irene, Reinaldo Mendonça, 64, relatou que desde novembro não consegue dormir de preocupação. “Quando recebo aviso de chuva nem sei para onde devo correr primeiro. O morro de cima tem alto risco de desabamento.”

No Jardim Santo André, o cenário se repete. Em novembro de 2018, a equipe do Diário percorreu o bairro e conversou com mais de cinco famílias que tiveram suas casas afetadas após temporal, no dia 24. Três meses depois, a reportagem constatou que a situação se agravou.

De acordo com a Associação Beneficente do Jardim Santo André e Adjacências, nas áreas invadidas vivem cerca de 4.000 famílias. Todas estão sob risco de desabamento, já que as construções, à beira de encostas, não têm estrutura para suportar tempestades como as da semana passada – choveu o equivalente a 87,4 milímetros entre os dias 16 e 17. “Está tendo uma ação do Estado que, aos poucos, vai remover as famílias. O problema é que isso é moroso e sentimos muita dificuldade em manter a vida dessas pessoas em segurança.”

Na Vila Lutécia, também no município andreense, as famílias relataram viverem “à espera da tragédia”. Em São Bernardo, a comunidade do Montanhão também sofreu com as chuvas, já que árvores caíram sobre as casas.

MAUÁ
Aproximadamente 8.000 pessoas vivem em área de assentamento precário no Chafic/Macuco, no Jardim Zaíra, em Mauá. Após tragédia que deixou quatro crianças mortas e outras quatro pessoas feridas, há uma semana, nas redondezas, as famílias dizem estar “ainda mais apreensivas”.

Há oito anos, deslizamento matou cinco pessoas e desalojou outras 500 no Macuco. A sensação de medo, desde a época, é a que predomina na vida de Juliana Cardoso, 27. Na chuva do penúltimo fim de semana, sua casa encheu de água e, temendo pela vida de seus três filhos – Ana Beatriz, 9, Christor, 7, e Isabely, 5, a família está hospedada na residência da irmã. “Não dá para confiar que à noite não terei surpresas.”

Tia de Juliana, Maria Aparecida Cardoso, 46, ressalta que a família não tem como pagar moradia em outro local. “Se o tempo muda e percebemos que vem chuva já entramos em pânico. No sábado passado (dia 16), ouvimos o barulho do deslizamento. Nunca sabemos o que vai acontecer conosco. A cada chuva é um tormento.”

Em três meses, chuva deixa sete mortos

Entre alagamentos, desabamentos e estruturas abaladas, o Grande ABC vive momento de alerta, já que a situação nas áreas de risco se agrava a cada tempestade. De novembro para cá, sete pessoas foram vítimas fatais das enxurradas que castigaram o Grande ABC. Em novembro do ano passado, o temporal do dia 24 deixou três mortos por afogamento em São Bernardo. Já no sábado retrasado, quatro crianças foram soterradas em Mauá.

Professor da Universidade Metodista e consultor na área de saneamento e resíduos sólidos, Carlos Henrique de Oliveira ressalta que essas tragédias também estão ligadas ao processo de formação e expansão das cidades brasileiras, o que reflete no cenário de desigualdade existente, tanto no campo social, quanto no econômico. “Os setores imobiliário e de construção civil sempre definiram a forma e os critérios de expansão urbana, assim como as intervenções urbanas. No caso das áreas de risco, que são encostas de morros e margens de córregos, a forma de ocupação também aumenta estas tragédias”, explica.

Não por acaso, o professor ressalta que a expansão urbana desenfreada resultou em rios assoreados, morros desabando e falta de estrutura para suportar os danos em quantidades elevadas de água.

REGIÃO
Todas as cidades afirmam ter controle sobre as áreas de risco e cadastro das famílias que precisam de respaldo. Em Santo André, a Defesa Civil já caracterizou nove áreas como de risco: Jardim Irene, Jardim Santo André, Vila América, Recreio da Borda do Campo, Cata Preta, Núcleo Espírito Santo, Sítio dos Vianas, Vista Alegre e bacia do Rio Tamanduateí.

O município de São Bernardo conta com aproximadamente 1.600 locais monitorados. A cidade de Mauá já apresenta mais espaços, como Macuco/Chafick, Zaíra 4, Zaíra 6, Jardim Rosina, Jardim Oratório, Vila Magini, Morro dos Carecas/Jardim Itapark e favela do Jardim Mauá. Segundo levantamento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) – órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – áreas como Jardim Miranda, Alto da Boa Vista, Santa Rosa, Éden, Jardim Colombo, Parque Bandeirantes, Bela Vista e Chácara Maria Aparecida também aparecem na listagem.

Em Diadema, são 27 pontos cadastrados, porém, a Prefeitura não informou os bairros. Ribeirão Pires tem áreas suscetíveis a deslizamentos no Jardim Itacolomy, com 55 famílias em situação de risco; Jardim Mirante (nove famílias); Jardim Santa Rosa (63), e Morro do Embaixador (30).

As cidade de São Caetano e Rio Grande da Serra não informaram se há áreas de risco em seus territórios até o fechamento desta edição.



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Moradores de áreas de
risco têm ‘protocolo’

A cada temporal, famílias adotam rotina de recolher pertences e buscar abrigo em local seguro

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

25/02/2019 | 07:00


Diante das tragédias registradas rotineiramente no Grande ABC com as chuvas de verão – quatro crianças morreram em deslizamento de terra em Mauá na semana passada –, famílias que vivem em áreas de risco ligam o sinal de alerta logo que o céu escurece e anuncia que uma tempestade está para chegar a qualquer momento. Não por acaso, quando o temporal começa já virou rotina levantar móveis, recolher pertences e buscar abrigo nas casas de vizinhos ou parentes situadas em locais mais seguros. Espécie de protocolo regido pelo instinto de sobrevivência.

Este é o caso da família de Sá, que vive no Jardim Irene, em Santo André, há pelo menos 40 anos. Quando a auxiliar de serviços gerais Maria Aparecida de Sá, 55 anos, comprou terreno sobre o Rio Guarará, não sabia que a área poderia representar risco à sua vida e de seus filhos. Para ter acesso à residência, que tem mais dois ‘puxadinhos’ – já que abriga nove pessoas – é preciso atravessar ponte de madeira construída entre a beira do córrego e a plataforma da casa.

Nora de Maria Aparecida, Rosilene Alves de Melo, 29, relata que, por necessidade, mora há dez anos com a sogra. “(Na casa) Somos em sete adultos e duas crianças, sendo uma bebê. Nenhum de nós tem dinheiro para pagar aluguel, tampouco comprar um terreno ou moradia, então ficamos por aqui mesmo.”

De todo o bairro, a casa de dona Maria é sempre a mais afetada pelas enchentes. “Em 2013, teve uma chuva em que a água chegou a um metro e vinte de altura. Perdemos absolutamente tudo. Nem sei dizer quantas vezes, de lá para cá, encheu nossa casa e perdemos móveis e eletrodomésticos de novo”, lamentou o filho Bruno de Sá, 27.

Integrante de Nupdec (Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil) – responsável por alertar a comunidade sobre possíveis riscos – e morador do Jardim Irene, Reinaldo Mendonça, 64, relatou que desde novembro não consegue dormir de preocupação. “Quando recebo aviso de chuva nem sei para onde devo correr primeiro. O morro de cima tem alto risco de desabamento.”

No Jardim Santo André, o cenário se repete. Em novembro de 2018, a equipe do Diário percorreu o bairro e conversou com mais de cinco famílias que tiveram suas casas afetadas após temporal, no dia 24. Três meses depois, a reportagem constatou que a situação se agravou.

De acordo com a Associação Beneficente do Jardim Santo André e Adjacências, nas áreas invadidas vivem cerca de 4.000 famílias. Todas estão sob risco de desabamento, já que as construções, à beira de encostas, não têm estrutura para suportar tempestades como as da semana passada – choveu o equivalente a 87,4 milímetros entre os dias 16 e 17. “Está tendo uma ação do Estado que, aos poucos, vai remover as famílias. O problema é que isso é moroso e sentimos muita dificuldade em manter a vida dessas pessoas em segurança.”

Na Vila Lutécia, também no município andreense, as famílias relataram viverem “à espera da tragédia”. Em São Bernardo, a comunidade do Montanhão também sofreu com as chuvas, já que árvores caíram sobre as casas.

MAUÁ
Aproximadamente 8.000 pessoas vivem em área de assentamento precário no Chafic/Macuco, no Jardim Zaíra, em Mauá. Após tragédia que deixou quatro crianças mortas e outras quatro pessoas feridas, há uma semana, nas redondezas, as famílias dizem estar “ainda mais apreensivas”.

Há oito anos, deslizamento matou cinco pessoas e desalojou outras 500 no Macuco. A sensação de medo, desde a época, é a que predomina na vida de Juliana Cardoso, 27. Na chuva do penúltimo fim de semana, sua casa encheu de água e, temendo pela vida de seus três filhos – Ana Beatriz, 9, Christor, 7, e Isabely, 5, a família está hospedada na residência da irmã. “Não dá para confiar que à noite não terei surpresas.”

Tia de Juliana, Maria Aparecida Cardoso, 46, ressalta que a família não tem como pagar moradia em outro local. “Se o tempo muda e percebemos que vem chuva já entramos em pânico. No sábado passado (dia 16), ouvimos o barulho do deslizamento. Nunca sabemos o que vai acontecer conosco. A cada chuva é um tormento.”

Em três meses, chuva deixa sete mortos

Entre alagamentos, desabamentos e estruturas abaladas, o Grande ABC vive momento de alerta, já que a situação nas áreas de risco se agrava a cada tempestade. De novembro para cá, sete pessoas foram vítimas fatais das enxurradas que castigaram o Grande ABC. Em novembro do ano passado, o temporal do dia 24 deixou três mortos por afogamento em São Bernardo. Já no sábado retrasado, quatro crianças foram soterradas em Mauá.

Professor da Universidade Metodista e consultor na área de saneamento e resíduos sólidos, Carlos Henrique de Oliveira ressalta que essas tragédias também estão ligadas ao processo de formação e expansão das cidades brasileiras, o que reflete no cenário de desigualdade existente, tanto no campo social, quanto no econômico. “Os setores imobiliário e de construção civil sempre definiram a forma e os critérios de expansão urbana, assim como as intervenções urbanas. No caso das áreas de risco, que são encostas de morros e margens de córregos, a forma de ocupação também aumenta estas tragédias”, explica.

Não por acaso, o professor ressalta que a expansão urbana desenfreada resultou em rios assoreados, morros desabando e falta de estrutura para suportar os danos em quantidades elevadas de água.

REGIÃO
Todas as cidades afirmam ter controle sobre as áreas de risco e cadastro das famílias que precisam de respaldo. Em Santo André, a Defesa Civil já caracterizou nove áreas como de risco: Jardim Irene, Jardim Santo André, Vila América, Recreio da Borda do Campo, Cata Preta, Núcleo Espírito Santo, Sítio dos Vianas, Vista Alegre e bacia do Rio Tamanduateí.

O município de São Bernardo conta com aproximadamente 1.600 locais monitorados. A cidade de Mauá já apresenta mais espaços, como Macuco/Chafick, Zaíra 4, Zaíra 6, Jardim Rosina, Jardim Oratório, Vila Magini, Morro dos Carecas/Jardim Itapark e favela do Jardim Mauá. Segundo levantamento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) – órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – áreas como Jardim Miranda, Alto da Boa Vista, Santa Rosa, Éden, Jardim Colombo, Parque Bandeirantes, Bela Vista e Chácara Maria Aparecida também aparecem na listagem.

Em Diadema, são 27 pontos cadastrados, porém, a Prefeitura não informou os bairros. Ribeirão Pires tem áreas suscetíveis a deslizamentos no Jardim Itacolomy, com 55 famílias em situação de risco; Jardim Mirante (nove famílias); Jardim Santa Rosa (63), e Morro do Embaixador (30).

As cidade de São Caetano e Rio Grande da Serra não informaram se há áreas de risco em seus territórios até o fechamento desta edição.

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