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‘Acompanhei toda evolução da Oliveira Lima’

André Henriques  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Fábio Martins
Do Diário do Grande ABC

28/04/2018 | 07:00


Eleito quatro vezes ouvidor de Santo André, Saul Gelman, embora nascido na Capital, teve praticamente toda a sua carreira profissional ancorada na cidade. Iniciou vida no comércio da Rua Coronel Oliveira Lima, região central, ainda nos anos 1950. Foi um dos precursores a instalar loja – de artigos femininos – de um dos lados do calçadão. Ficou quase quatro décadas no ramo, quando se engajou na Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), no fim da década de 1990. Na sequência, foi convidado a participar do conceito da ouvidoria, criada pelo então prefeito Celso Daniel. Ganhou o pleito inaugural, e foi o que mais ocupou o cargo.

Como e quando o senhor iniciou sua carreira profissional no Grande ABC?
Nasci na Bela Vista, em São Paulo. Cheguei em março de 1950 a Santo André, com 14 anos. Por motivos profissionais, nos mudamos para cá. Quando viemos (para a região) atuei como comerciário, industriário, na International Harvester Company, fábrica de implementos agrícolas, na Laminação Nacional de Metais. Já na fase de comerciante fiquei por 40 anos. De meados de 1958 até 2000. Tivemos loja de artigos femininos, a Sly, conceituada na época. Trabalhei neste período na (Rua) Coronel Oliveira Lima, acompanhei a evolução do local, que foi mudando dentro da dinâmica da cidade, quando tinha cerca de 100 mil habitantes.

Como se deu essa transformação da Oliveira Lima do ponto de vista comercial da década de 1950 aos dias de hoje?
O lado direito de quem vai do Largo da Estátua para a estação era como a Lua da Terra. O lado esquerdo era comercial e o direito, não. Até que um dia começou a desabrochar. Nós fomos para o lado direito, um dos primeiros, à época. Neste meio tempo, à medida em que a Oliveira Lima começou a ficar mais popular, foi invadida por camelôs, estava entrando prenúncio de decadência. Por conta disso, considerei buscar entidade para lutar contra isso. Pode-se considerar até como disposição egoísta, mas legítima. Não era por mim. Era um conjunto de lojistas. Apesar do esforço, não consegui impedir (esse movimento). Na oportunidade, vi que aconteceria a mesma situação que já era cenário em São Paulo. Administrações de forma geral não procuram preservar, não tiveram cuidado. É crime quando se vê centros comerciais abandonados, degradados.

Esse foi o passo para o senhor entrar no ambiente da Acisa?
(O movimento) Foi o motivo principal pelo qual me inscrevi (como integrante da entidade) e acabei indo para a diretoria, à época comandada pelo Antonio Carlos Girelli (que ficou à frente de 1983 a 1990). Esse trabalho foi muito gratificante. Logo na sequência, estive também com o Wilson Ambrósio (primeiro mandato de 1991 a 1995) e o sucedi na presidência (entre 1996 e 1999).

Como foi esse período de comércio e de transição à Acisa?
A Sly era uma das boas lojas femininas na cidade. Como comentei, me instalei de um lado que, comercialmente, não tinha grande impacto. Da Rua Senador Flaquer para a estação. À medida em que algumas lojas foram se instalando, o lado direito começou a ser ocupado por comércio. A nossa loja contribuiu para isso. Nós iniciamos essa empreitada justamente em 1958, mesma época em que o Diário (então News Seller) começou com os Dotto e os Polesi. Só que eu parei, de certa maneira, porque minha filha desenvolveu forma de comércio e foi ela quem seguiu, hoje com ateliê, em São Paulo, tendo a Sly como professora. O nome Sly ficou até perto de completar 50 anos, mas eu já estava fora. Não conseguia mais me dedicar.

Mas por que, na ocasião, escolheu a região para se instalar?
Meu pai tinha sofrido revés comercial (no início da década de 1950). E a comunidade judaica estava crescendo em Santo André. A prosperidade atrai. Viemos para a Rua Coronel Francisco Amaro, quase esquina com a Perimetral, no Centro. Alugamos uma casa. Eu morei lá até me casar, em 1959. E meus pais ficaram lá até conseguirem comprar uma residência na Rua Estrela, no Ipiranguinha. Meu patrimônio está em Santo André. Formei a minha vida na cidade, embora não tenha me apaixonado logo no começo. Era muito diferente. Naquela época, ônibus que transitava entre Vila Pires e a estação o pessoal chamava de cata-caipira. Outro passo importante penso que foi a Acisa. Foi escola, um orgulho.

Qual foi a movimentação necessária para construir grupo que pudesse gerir a Acisa?
A composição era sempre formada por grandes empresas: Rhodia, Firestone, Pirelli. O restante era de pequenos empresários. O fato de estar na Acisa e pretender uma melhor atenção da Prefeitura não quer dizer que consegui. Talvez retardar esse processo. Cada um de nós pôs um tijolinho. Não dependíamos de subsídios, o que a Acisa aufere é por conta de serviços prestados e vende. Houve época melhor com o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), quando o comércio se expandiu. A criação de venda a prestação. Lojista consultava se cliente era bom pagador. A Acisa tinha trabalho de coletar informações. As coisas foram mudando: cheque, cartão de crédito. Fui feliz na gestão de trazer a Junta Comercial, que só funcionava em São Paulo. O (então governador) Mário Covas (morto em 2001) abriu possibilidade de diversificar espaço, facilitando a vida do cidadão do Grande ABC. Tivemos que fazer investimento. Além da criação do Banco do Povo, que parece tão esquecido, obra social gigantesca. Na gestão do (então prefeito) Celso Daniel (morto em 2002) foi levantada ideia. Me diziam: ‘Você combate camelô e quer emprestar dinheiro ao pobre’. Mas uma coisa é o ilícito e outra é ajudar o minúsculo a sobreviver. Não estamos privilegiando o ilícito. Banco do Povo é minha paixão.

Em relação à ouvidoria, o senhor foi o primeiro a exercer o cargo em Santo André. Como foi esse processo?
Participei de grupo e ouvíamos a proposta que vinha do Celso Daniel, no fim da década de 1990. A grande revolução desenvolvida foi feita pela Miriam Belchior, mulher dele e secretária de Administração, que fez a modernização do sistema administrativo, que virou modelo para muitas cidades do Interior. Existia o Fórum da Cidadania (do Grande ABC). Foi discutido com a sociedade. O Legislativo não apoiou a ideia. Enxergava como concorrente, o que é visão vesga. Eu estava terminando a segunda gestão na Acisa. Fui convidado a participar da eleição. Não exigia Ensino Superior, pois iniciei faculdade de Economia, mas tive que parar para me dedicar aos negócios. O sistema foi o primeiro, com pleito tendo representantes da sociedade civil. O colegiado que elege. Não é perfeito, mas é democrático. Eu aceitei, e por alguma razão fui eleito (em 1999). Tinham, acho, que 25 candidatos. Consegui ser eleito e reeleito (em 2001). E pensei ter pendurado a chuteira da ouvidoria, só que na época do ex-prefeito Aidan (Ravin, Podemos, 2009-2012) sentimos que estava ameaçada de ser liquidada. Novamente, como Dom Quixote, resolvi tentar retornar, mesmo achando que perderia. Consegui voltar, fui eleito sete anos depois (em 2010), e depois reeleito (em 2012).

O que senhor avalia ter deixado de legado na ouvidoria?
O trabalho. Papel é ser ponte particular entre munícipe e os serviços que o município presta. O vereador cuida do geral. Se ele (parlamentar) cuida do particular faz clientelismo. A ouvidoria, quando recebe reclamação, procura entrar em contato com a área específica para tentar resolver. Não resolve tudo, impossível, não tem poder de determinar. Trabalha para que os órgãos compreendam e se proponham a corrigir eventual erro. Ouvidor, na minha opinião, não deve ter veleidades políticas. A lei, inclusive, o impede de participar na primeira eleição após o trabalho. Deveria ser na primeira, segunda e na última. Pois ele pode criar condições em ligação com o munícipe. Não tem direito a usar, não é essa a finalidade. É ouvidoria especial a de Santo André. Foi instituída neste sentido.

Com a migração para uma vida em Santo André, qual foi sua relação com o Diário?
Eu sempre fui assinante do Diário, recebia em casa, e sou leitor até hoje. E comecei desde os tempos de News Seller. O jornal abriu espaço. Tomou outro vulto, eu era cliente de anúncios. Tem até um aspecto interessante neste meu período como comerciante. Fiz um anúncio de página inteira a cores no Diário, um dos primeiros nestes moldes à época. Está num quadro até hoje no meu escritório. É do começo dos anos 1960. Teve jornal que ficou ‘P’ da vida comigo. Queria saber o por quê. Porque era o Diário. A ideia era enviar mensagem diferenciada em relação às outras lojas da cidade. Essa era a fórmula: formar imagem de loja séria, que trabalhava com produtos de primeira linha. Era de firmar uma imagem. Foi muito ousado, na oportunidade.

Neste tempo como assinante, o que considera como histórico publicado pelo Diário?
Tem tanta coisa marcante. Não sei se sou o número um, mas acompanho desde o início. Quando mudou para (o nome de) Diário se transformou em publicação muito maior, mais abrangente. Mas acredito que dá para dizer sobre a queda do prefeito, o primeiro impeachment (de Oswaldo Gimenes, em 1962) do País. Poderia puxar a brasa para a minha sardinha e falar também das coberturas dos eventos da Acisa, principalmente de Natal. O jornal dava publicidade a isso. Devo ter recorte de entrevistas que concedi nas ocasiões.

Existe discussão sobre remodelação da ouvidoria. O que deveria mudar na legislação?
Tem que acompanhar os tempos. Na primeira gestão as reclamações só eram pessoalmente, assinando. Por lei, tem o direito a sigilo, até para evitar represália. É avançar no tempo. Fundamental é relacionamento entre ouvidor e vários departamentos da Prefeitura. Na ouvidoria, uma ponta fica o mandatário. Ele tem que, junto ao secretariado, ter respeito, porque está lá para ajudar de alguma forma a administração. Quando é atendido, o mandatário capitaliza visão favorável. Ouvidor entra no assunto quando não foi resolvido. Não é a primeira porta. À medida em que o ouvidor não tem poder de resolver, precisa negociar, sempre com a visão favorável ao munícipe. Pode fazer por várias vias. Não existe fórmula mágica, trânsito na Prefeitura.

O senhor chegou a receber pedido para entrar na política e ser candidato?
Meu perfil não é molde para conviver no meio político. Não recebi convite (para postular cargo eletivo). Cheguei a trabalhar na Secretaria de Obras (de Santo André) a convite da Ivete Garcia, vice-prefeita do João (Avamileno, PT). Recebi convites de colegas de trabalho para me filiar no PT. E aceitei. Isso depois de ter cumprido os dois primeiros mandatos (na ouvidoria). Acho que foi em 2005, 2006. Depois me desfiliei e continuo desfiliado.

Qual futuro o senhor vê a médio e longo prazos para Santo André e região?
Santo André é muito importante, mesmo com todos os problemas e com as administrações falíveis. E mesmo com a perda de um pré-estadista assassinado, que mudou completamente o futuro da cidade. No pouco tempo em que ficou ele já se mostrava visionário. Claro que cometeu erros, mas recuperou, por exemplo, a Avenida Industrial, decadente há décadas. Transformou-se em polo comercial, residencial. Só isso já significou enorme passo para sua modernização. Mostrou que a cidade poderia viver em pé de boa qualidade. Tenho esperança, mesmo com as péssimas notícias, que esse ciclo vai terminar (de crise). Há condições de se desenvolver amplamente. Um gestor que tenha no sangue o espírito empreendedor pode fazer a cidade retornar de algum modo a um polo industrial, comercial, residencial e social.

Saul Gelman e o Diário

Aos 82 anos, Saul Gelman lembra que começou sua empreitada como comerciante justamente em 1958, mesmo ano de nascimento do News Seller, antecessor do Diário. O ex-presidente da Acisa frisou que sempre foi assinante do jornal. “Recebia em casa, e sou leitor até hoje. Iniciei desde os tempos de News Seller.” Outro aspecto curioso apontado por Saul em sua relação – ainda no ramo dos negócios – com o Diário foi um anúncio de página inteira a cores, na década de 1960. “Um dos primeiros nestes moldes à época (da loja Sly). Está num quadro até hoje no meu escritório. (...) Foi muito ousado, na oportunidade.”  



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‘Acompanhei toda evolução da Oliveira Lima’

Fábio Martins
Do Diário do Grande ABC

28/04/2018 | 07:00


Eleito quatro vezes ouvidor de Santo André, Saul Gelman, embora nascido na Capital, teve praticamente toda a sua carreira profissional ancorada na cidade. Iniciou vida no comércio da Rua Coronel Oliveira Lima, região central, ainda nos anos 1950. Foi um dos precursores a instalar loja – de artigos femininos – de um dos lados do calçadão. Ficou quase quatro décadas no ramo, quando se engajou na Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), no fim da década de 1990. Na sequência, foi convidado a participar do conceito da ouvidoria, criada pelo então prefeito Celso Daniel. Ganhou o pleito inaugural, e foi o que mais ocupou o cargo.

Como e quando o senhor iniciou sua carreira profissional no Grande ABC?
Nasci na Bela Vista, em São Paulo. Cheguei em março de 1950 a Santo André, com 14 anos. Por motivos profissionais, nos mudamos para cá. Quando viemos (para a região) atuei como comerciário, industriário, na International Harvester Company, fábrica de implementos agrícolas, na Laminação Nacional de Metais. Já na fase de comerciante fiquei por 40 anos. De meados de 1958 até 2000. Tivemos loja de artigos femininos, a Sly, conceituada na época. Trabalhei neste período na (Rua) Coronel Oliveira Lima, acompanhei a evolução do local, que foi mudando dentro da dinâmica da cidade, quando tinha cerca de 100 mil habitantes.

Como se deu essa transformação da Oliveira Lima do ponto de vista comercial da década de 1950 aos dias de hoje?
O lado direito de quem vai do Largo da Estátua para a estação era como a Lua da Terra. O lado esquerdo era comercial e o direito, não. Até que um dia começou a desabrochar. Nós fomos para o lado direito, um dos primeiros, à época. Neste meio tempo, à medida em que a Oliveira Lima começou a ficar mais popular, foi invadida por camelôs, estava entrando prenúncio de decadência. Por conta disso, considerei buscar entidade para lutar contra isso. Pode-se considerar até como disposição egoísta, mas legítima. Não era por mim. Era um conjunto de lojistas. Apesar do esforço, não consegui impedir (esse movimento). Na oportunidade, vi que aconteceria a mesma situação que já era cenário em São Paulo. Administrações de forma geral não procuram preservar, não tiveram cuidado. É crime quando se vê centros comerciais abandonados, degradados.

Esse foi o passo para o senhor entrar no ambiente da Acisa?
(O movimento) Foi o motivo principal pelo qual me inscrevi (como integrante da entidade) e acabei indo para a diretoria, à época comandada pelo Antonio Carlos Girelli (que ficou à frente de 1983 a 1990). Esse trabalho foi muito gratificante. Logo na sequência, estive também com o Wilson Ambrósio (primeiro mandato de 1991 a 1995) e o sucedi na presidência (entre 1996 e 1999).

Como foi esse período de comércio e de transição à Acisa?
A Sly era uma das boas lojas femininas na cidade. Como comentei, me instalei de um lado que, comercialmente, não tinha grande impacto. Da Rua Senador Flaquer para a estação. À medida em que algumas lojas foram se instalando, o lado direito começou a ser ocupado por comércio. A nossa loja contribuiu para isso. Nós iniciamos essa empreitada justamente em 1958, mesma época em que o Diário (então News Seller) começou com os Dotto e os Polesi. Só que eu parei, de certa maneira, porque minha filha desenvolveu forma de comércio e foi ela quem seguiu, hoje com ateliê, em São Paulo, tendo a Sly como professora. O nome Sly ficou até perto de completar 50 anos, mas eu já estava fora. Não conseguia mais me dedicar.

Mas por que, na ocasião, escolheu a região para se instalar?
Meu pai tinha sofrido revés comercial (no início da década de 1950). E a comunidade judaica estava crescendo em Santo André. A prosperidade atrai. Viemos para a Rua Coronel Francisco Amaro, quase esquina com a Perimetral, no Centro. Alugamos uma casa. Eu morei lá até me casar, em 1959. E meus pais ficaram lá até conseguirem comprar uma residência na Rua Estrela, no Ipiranguinha. Meu patrimônio está em Santo André. Formei a minha vida na cidade, embora não tenha me apaixonado logo no começo. Era muito diferente. Naquela época, ônibus que transitava entre Vila Pires e a estação o pessoal chamava de cata-caipira. Outro passo importante penso que foi a Acisa. Foi escola, um orgulho.

Qual foi a movimentação necessária para construir grupo que pudesse gerir a Acisa?
A composição era sempre formada por grandes empresas: Rhodia, Firestone, Pirelli. O restante era de pequenos empresários. O fato de estar na Acisa e pretender uma melhor atenção da Prefeitura não quer dizer que consegui. Talvez retardar esse processo. Cada um de nós pôs um tijolinho. Não dependíamos de subsídios, o que a Acisa aufere é por conta de serviços prestados e vende. Houve época melhor com o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), quando o comércio se expandiu. A criação de venda a prestação. Lojista consultava se cliente era bom pagador. A Acisa tinha trabalho de coletar informações. As coisas foram mudando: cheque, cartão de crédito. Fui feliz na gestão de trazer a Junta Comercial, que só funcionava em São Paulo. O (então governador) Mário Covas (morto em 2001) abriu possibilidade de diversificar espaço, facilitando a vida do cidadão do Grande ABC. Tivemos que fazer investimento. Além da criação do Banco do Povo, que parece tão esquecido, obra social gigantesca. Na gestão do (então prefeito) Celso Daniel (morto em 2002) foi levantada ideia. Me diziam: ‘Você combate camelô e quer emprestar dinheiro ao pobre’. Mas uma coisa é o ilícito e outra é ajudar o minúsculo a sobreviver. Não estamos privilegiando o ilícito. Banco do Povo é minha paixão.

Em relação à ouvidoria, o senhor foi o primeiro a exercer o cargo em Santo André. Como foi esse processo?
Participei de grupo e ouvíamos a proposta que vinha do Celso Daniel, no fim da década de 1990. A grande revolução desenvolvida foi feita pela Miriam Belchior, mulher dele e secretária de Administração, que fez a modernização do sistema administrativo, que virou modelo para muitas cidades do Interior. Existia o Fórum da Cidadania (do Grande ABC). Foi discutido com a sociedade. O Legislativo não apoiou a ideia. Enxergava como concorrente, o que é visão vesga. Eu estava terminando a segunda gestão na Acisa. Fui convidado a participar da eleição. Não exigia Ensino Superior, pois iniciei faculdade de Economia, mas tive que parar para me dedicar aos negócios. O sistema foi o primeiro, com pleito tendo representantes da sociedade civil. O colegiado que elege. Não é perfeito, mas é democrático. Eu aceitei, e por alguma razão fui eleito (em 1999). Tinham, acho, que 25 candidatos. Consegui ser eleito e reeleito (em 2001). E pensei ter pendurado a chuteira da ouvidoria, só que na época do ex-prefeito Aidan (Ravin, Podemos, 2009-2012) sentimos que estava ameaçada de ser liquidada. Novamente, como Dom Quixote, resolvi tentar retornar, mesmo achando que perderia. Consegui voltar, fui eleito sete anos depois (em 2010), e depois reeleito (em 2012).

O que senhor avalia ter deixado de legado na ouvidoria?
O trabalho. Papel é ser ponte particular entre munícipe e os serviços que o município presta. O vereador cuida do geral. Se ele (parlamentar) cuida do particular faz clientelismo. A ouvidoria, quando recebe reclamação, procura entrar em contato com a área específica para tentar resolver. Não resolve tudo, impossível, não tem poder de determinar. Trabalha para que os órgãos compreendam e se proponham a corrigir eventual erro. Ouvidor, na minha opinião, não deve ter veleidades políticas. A lei, inclusive, o impede de participar na primeira eleição após o trabalho. Deveria ser na primeira, segunda e na última. Pois ele pode criar condições em ligação com o munícipe. Não tem direito a usar, não é essa a finalidade. É ouvidoria especial a de Santo André. Foi instituída neste sentido.

Com a migração para uma vida em Santo André, qual foi sua relação com o Diário?
Eu sempre fui assinante do Diário, recebia em casa, e sou leitor até hoje. E comecei desde os tempos de News Seller. O jornal abriu espaço. Tomou outro vulto, eu era cliente de anúncios. Tem até um aspecto interessante neste meu período como comerciante. Fiz um anúncio de página inteira a cores no Diário, um dos primeiros nestes moldes à época. Está num quadro até hoje no meu escritório. É do começo dos anos 1960. Teve jornal que ficou ‘P’ da vida comigo. Queria saber o por quê. Porque era o Diário. A ideia era enviar mensagem diferenciada em relação às outras lojas da cidade. Essa era a fórmula: formar imagem de loja séria, que trabalhava com produtos de primeira linha. Era de firmar uma imagem. Foi muito ousado, na oportunidade.

Neste tempo como assinante, o que considera como histórico publicado pelo Diário?
Tem tanta coisa marcante. Não sei se sou o número um, mas acompanho desde o início. Quando mudou para (o nome de) Diário se transformou em publicação muito maior, mais abrangente. Mas acredito que dá para dizer sobre a queda do prefeito, o primeiro impeachment (de Oswaldo Gimenes, em 1962) do País. Poderia puxar a brasa para a minha sardinha e falar também das coberturas dos eventos da Acisa, principalmente de Natal. O jornal dava publicidade a isso. Devo ter recorte de entrevistas que concedi nas ocasiões.

Existe discussão sobre remodelação da ouvidoria. O que deveria mudar na legislação?
Tem que acompanhar os tempos. Na primeira gestão as reclamações só eram pessoalmente, assinando. Por lei, tem o direito a sigilo, até para evitar represália. É avançar no tempo. Fundamental é relacionamento entre ouvidor e vários departamentos da Prefeitura. Na ouvidoria, uma ponta fica o mandatário. Ele tem que, junto ao secretariado, ter respeito, porque está lá para ajudar de alguma forma a administração. Quando é atendido, o mandatário capitaliza visão favorável. Ouvidor entra no assunto quando não foi resolvido. Não é a primeira porta. À medida em que o ouvidor não tem poder de resolver, precisa negociar, sempre com a visão favorável ao munícipe. Pode fazer por várias vias. Não existe fórmula mágica, trânsito na Prefeitura.

O senhor chegou a receber pedido para entrar na política e ser candidato?
Meu perfil não é molde para conviver no meio político. Não recebi convite (para postular cargo eletivo). Cheguei a trabalhar na Secretaria de Obras (de Santo André) a convite da Ivete Garcia, vice-prefeita do João (Avamileno, PT). Recebi convites de colegas de trabalho para me filiar no PT. E aceitei. Isso depois de ter cumprido os dois primeiros mandatos (na ouvidoria). Acho que foi em 2005, 2006. Depois me desfiliei e continuo desfiliado.

Qual futuro o senhor vê a médio e longo prazos para Santo André e região?
Santo André é muito importante, mesmo com todos os problemas e com as administrações falíveis. E mesmo com a perda de um pré-estadista assassinado, que mudou completamente o futuro da cidade. No pouco tempo em que ficou ele já se mostrava visionário. Claro que cometeu erros, mas recuperou, por exemplo, a Avenida Industrial, decadente há décadas. Transformou-se em polo comercial, residencial. Só isso já significou enorme passo para sua modernização. Mostrou que a cidade poderia viver em pé de boa qualidade. Tenho esperança, mesmo com as péssimas notícias, que esse ciclo vai terminar (de crise). Há condições de se desenvolver amplamente. Um gestor que tenha no sangue o espírito empreendedor pode fazer a cidade retornar de algum modo a um polo industrial, comercial, residencial e social.

Saul Gelman e o Diário

Aos 82 anos, Saul Gelman lembra que começou sua empreitada como comerciante justamente em 1958, mesmo ano de nascimento do News Seller, antecessor do Diário. O ex-presidente da Acisa frisou que sempre foi assinante do jornal. “Recebia em casa, e sou leitor até hoje. Iniciei desde os tempos de News Seller.” Outro aspecto curioso apontado por Saul em sua relação – ainda no ramo dos negócios – com o Diário foi um anúncio de página inteira a cores, na década de 1960. “Um dos primeiros nestes moldes à época (da loja Sly). Está num quadro até hoje no meu escritório. (...) Foi muito ousado, na oportunidade.”  

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