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A arte de ensinar e aprender com as lições da vida

Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Nilton Valentim

13/03/2018 | 07:00


A arte de ensinar sempre pontuou a vida da pedagoga e psicóloga Valdineia Cavalaro, 68 anos. Empresária do setor de Educação desde 1978, ela também soube aprender com as adversidades. Há 22 anos dedica-se a auxiliar pessoas que sofrem com o câncer, doença que enfrentou, venceu e que a inspirou a a ajudar aqueles que também lutam para superar a doença. A mãe, empreenderora e batalhadora prepara-se agora para inaugurar a sede própria da AVCC (Associação das Voluntárias de Combate ao Câncer), em São Bernardo. Iniciativa que a enche de orgulho. Assim como os rumos que sua escola tomou. O método desenvolvido por ela é utilizado por 30 mil alunos no País.

Valdineia e o Diário
Antes de se casar, Valdineia Cavalaro passava com o marido (à época noivo) pela Via Anchieta e vislumbrava a construção da escola dos sonhos. Em agosto de 1978, o projeto começou a se materializar. Tornou-se realidade e o método de ensino por ela desenvolvido atende 30 mil alunos em todo o País. Entretanto, ela foi além. Da adversidade surgiu outra iniciativa de sucesso. Passou a dedicar-se também às vítimas de câncer. “E o Diário sempre me ajudou muito. Quando criamos a Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Bernardo, há 22 anos, o jornal divulgou”, relembra.

A senhora é uma empresária de sucesso, com uma história construída no Grande ABC. Como começou a se interessar pelo voluntariado?
Eu tenho dois projetos de vida. Um é a escola. O segundo é uma ONG (Organização Não Governamental) que criei há 22 anos, e que não tinha planos de montar. Eu tive um câncer, em um estágio mais ou menos avançado. Eu me tratei com o doutor Dráuzio Varela, que ainda não era global, e cinco anos depois estava curada. Sou muito religiosa, e pensei que se Deus me curou, alguma coisa eu tenho de fazer (em benefício dos outros). Aí fiz um contato com o Hospital do Câncer de São Paulo, e me pediram para que eu criasse em São Bernardo a Rede Feminina de Combate ao Câncer.

E foi difícil avançar da ideia para a prática?
Na época, reuni um grupo de pessoas e o Diário fez uma convocação para mim, aí nós criamos a Rede. Isso ocorreu mais ou menos em setembro de 1995. Em março seguinte, ocorreu uma reunião com as Redes de to todo o Estado de São Paulo para um almoço. Quando chegamos lá, tivemos uma surpresa, pois a presidente falou que há 19 anos Catanduva era a cidade que mais arrecadava, mas que naquela ano havia uma nova vencedora, que era São Bernardo. Devo muito disso ao Diário, quando ocorre a divulgação, mais pessoas querem ajudar.

Sem dúvida, um grande início de trabalho.
Sim. Ganhamos de novo em 1996 e, no ano seguinte, fomos procurados pela Faculdade de Medicina do ABC. ‘Se vocês conseguem arrecadar tanto para São Paulo, por que não fazer uma coisa regional? Por que não nos ajudar com a construção de um centro de oncologia? Compramos essa ideia e montamos a AVCC (Associação das Voluntárias de Combate ao Câncer). Nós, o Rotary Club e o Projeto Crescer conseguimos erguer o centro. Antes disso, junto com o doutor Geraldo Reple, já havíamos comprado 6.000 kits ginecológicos para fazer exames de papanicolau em mulheres da periferia.

Vocês atendem pelo menos 70 famílias por mês. Como está a AVCC hoje?
Agora, além da Faculdade de Medicina, estamos também no Hospital Mário Covas, e este ano vamos inaugurar a nossa sede própria, um prédio, em São Bernardo. Estamos concluindo alguns detalhes e isso para mim é uma realização. Tenho muito orgulho disso. Ganhei o terreno da Prefeitura tem uns 14 anos. Espero inaugurar no próximo mês. Faltam apenas alguns ajustes finais para que possamos atender ainda melhor, e com mais conforto, aquelas pessoas que nos procuram. Aí, espero mais uma vez contar com o Diário para mostrar o nosso novo espaço. Tenho certeza que será muito especial.

E com a nova sede, a senhora poderá fazer ainda mais no comando da AVCC?
Certamente vamos poder realizar muito mais. Entretanto, eu vou sair da presidência neste ano, mas seguirei como integrante da diretoria.

No setor educacional a senhora também é uma referência, que projeta o Grande ABC em todo o País. Como começou tudo isso?
Tudo começou em 1978. Eu havia me formado em Pedagogia e Psicologia, e já tinha duas filhas, que então eram o meu meu projeto de vida. Mas eu não queria engavetar os meus diplomas. Eu queria fazer alguma coisa, pois realmente eu gostada da carreira que eu havia escolhido. Começamos só com Educação Infantil, pois a minha ideia era ser só uma escolinha. Mas daí a pouco os pais começaram a falar que acreditavam muito no nosso trabalho. Aí entramos com o Primário. Aí fui ampliando... Hoje a escola ocupa 25 mil metros quadrados. Tenho 1.000 alunos aqui em São Bernardo, que é a nossa capacidade máxima, e 30 mil no nosso sistema de ensino, J.Piaget, que foi criado aqui e que hoje está pelo Brasil todo. Tudo o que se usa nos colégios que utilizam o nosso método é criado aqui, com o apoio das minhas equipes técnica e pedagógica. Hoje eu tenho consultores na maioria dos Estados. Estamos no Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio, Minas, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Amapá, Mato Grosso e Goiás.

A sua escola é uma referência. Como foi a escolha do local para instalação?
Eu e o meu marido éramos noivos e quando passávamos por aqui (na Via Anchieta) e eu falava para ele que, dentro das minhas convicções do que deve ser a Educação Infantil, seria o ideal para uma escola. Depois nos casamos, ele estava passando por aqui e viu que estavam limpando o terreno. Chegou em casa, me falou que iriam alugar, e isso mexeu comigo. Alugamos, construímos seis salinhas de aula, playground, um quiosque e reconstruímos a história da Branca de Neve, com sete casinhas, uma para cada anão. Começamos em agosto de 1978, vamos fazer 40 anos.

Como a senhora se sente vendo as suas ideias profissionais ganharem o mundo?
Sabe o que acontece? Nada foi planejado. As coisas aconteceram. Quando comecei a Educação Infantil não tinha nada pronto para comprar e trazer para as crianças. Nada se encaixava naquilo que eu acreditava. Perguntavam se Jean Piaget (biólogo e psicólogo suíço, considerado um dos mais importantes pensadores do século 20 e que dá nome à escola) era meu pai, pois ele nem era muito conhecido aqui no Brasil. Em 1980, tivemos o primeiro congresso internacional piagetiano. Ele viria, mas faleceu antes (morreu em 16 de setembro de 1980). Eu não tinha esse material, então começava a criar, não pensando em sistematizar, mas sim em usar para os meus alunos. Usava mimeógrafo com álcool para fazer as apostilas. E isso deu origem ao sistema sem que eu percebesse. Foi um vislumbre do meu marido. Nós montávamos tudo aqui na escola e ele tentava me convencer a comercializar. Eu achava que ele estava louco. Mas aí o pai de um aluno, que tinha criado uma empresa de software para Educação, ia participar de um congresso sobre o tema e me ofereceu um espacinho. Naquela época eu já havia criado aulas em multimídia, com cores e movimento. Aí, durante o evento, seis escolas se interessaram pelo meu método.

E a senhora estava preparada para esse salto?
Eu tenho gente muito boa trabalhando comigo. Tem pessoas aqui desde que eu abri a escola. Meus professores vieram, compraram a ideia e só param quando se aposentam. E mesmo assim, ainda me ajudam.

A senhora é uma das principais empreendedoras da região e iniciou a sua jornada em uma época em que as mulheres não tinham tanto espaço. Como foi conciliar família e trabalho?
Eu fui da primeira turma da Faculdade de Educação e Cultura do ABC, tanto em Pedagogia quando em Psicologia. Quando eu comecei a organizar o projeto de construção da escola, eu já tinha duas filhas. Mas neste período eu engravidei pela terceira vez. Inaugurei a escola em agosto e, em outubro, tive a minha terceira filha. Graças a Deus a área que eu escolhi me permitiu que as minhas filhas crescessem ao meu lado. A mais velha já estava em outro nível escolar quando eu comecei aqui, mas aos 15 anos ela quis vir me ajudar na escola. Ela passou por todas as funções e hoje é diretora do colégio. As outras passaram por aqui desde o maternal até o ensino Médio. Aqui foi uma extensão da casa.

Elas não reclamavam de estudar no colégio da mãe?
Nunca tive nenhum tipo de problema. Elas sempre interagiram muito bem aqui. Desde o início até o fim do Ensino Médio. Só saíram para a faculdade.

A trajetória profissional delas também está ligada ao seu colégio?
Sim, hoje todas trabalham comigo aqui na escola. A minha filha do meio quis fazer Arquitetura. Depois se encantou com Rádio e TV e começou a cursar as duas áreas. Foi fazer estágio em Londres (Inglaterra), na BBC. Depois, quando voltou após dois anos, eu precisava de uma série de coisas para deixar o sistema de ensino mais dinâmico, como fotografias de algum lugar, imagens, ela buscava esses recursos com pessoas conhecidadas de fora do País. Cursou fotografia e passou a colaborar com o sistema, apesar de trabalhar em TV brasileira, até ‘voltar para casa’. A mais nova fez Psicologia, com ênfase em pesquisa, traduzia protocolos internacionais, estava em uma diretoria de uma empresa internacional de pesquisas, mas também veio para cá.

Como empresária de sucesso, a senhora tem conhecimento e expertise para dar conselho para quem quer empreender. O que a senhora diria para quem pretende começar uma carreira agora?
As coisas para mim em termos de vida sempre tiveram as mãos de Deus encaminhando. Tudo o que você vai fazer é preciso que goste. Não pode ser porque é bonito ou dá dinheiro. É necessário ter uma noção do que te espera e também estar preparado. Senão não adianta. Veja o que te faz feliz. Aí não tem como dar errado.

E a família continua frequentando a sua escola?
Tenho sete netos, três que passaram pela escola, do maternal ao Ensino Médio. Uma das minhas netas é estudante de Medicina da PUC (Pontifícia Universidade Católica), a outra faz Direito no Mackenzie e o mais velho, de 23 anos, fez Administração e termina Economia agora. E tem agora os quatro pequeninos que estão aqui na escola. Não há como mensurar o fato de eles estarem aqui agora. Eles não têm regalia alguma aqui. Isso é importante para a formação deles. Se tem fila vão ter de esperar. Se não estão tão bem em determinada matéria, precisam estudar mais. Temos de deixar o coração de lado. O professor de Matemática que deu aula para o meu neto foi saber quem ele era no segundo ano que estava dando aula para ele.

Diante de tudo isso, a senhora se considera uma pessoa realizada?
Muito. Como esposa, mãe avó e profissionalmente. Fiz tudo o que me propuz a fezer e sempre benfeito.

A senhora demostra ter muita energia. Quais os próximos planos?
Eu e o meu marido agora estamos parando. Ele cuida de toda a parte comercial do sistema. Me ajuda muito. Após o treinamento para os nossos associados de todo o País, realizado aqui em São Bernardo, ele chegou em casa e falou que tinha trabalhado 14 horas pela última vez na vida. A partir deste mês é de descanso. As meninas assumiram os rumos do colégio. Então dá para a gente sair de cena.
 



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