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Fado com pitada brasileira


Thiago Mariano
Do Diário do Grande ABC

31/12/2009 | 07:00


"Fado Mulato" (Biscoito Fino, R$ 34 em média), CD da moçambiquenha naturalizada portuguesa Maria João Quadros, é um encontro musical.

De vertentes tão variadas, à primeira vista, a junção do fado português com um time de feras da música popular brasileira, que reúne nomes como Ivan Lins, Francis Hime, Olivia Byington, Chico César e Zeca Baleiro, fundidos ao banzo, sentimento de saudade do povo africano de sua terra, parece não fazer ligação. Mas, à primeira audição, a prova que se tem é que esses elementos todos agrupados configuram um peculiar registro, que encontra na voz rascante da cantora a marca de trabalho único.

Das 12 faixas, dez são poemas escritos pelo português Tiago Torres da Silva que ganham versão musicada de compositores brasileiros. A cantora ainda resgata duas pérolas que são coisas nossas: "Gota D'água", de Chico Buarque e "Amor Alheio", de Ivor Lancellotti e Paulo César Pinheiro. Mesmo o olhar destinado a essas canções brasileiras traz roupagem nova e faz penetrar na atmosfera saudosista do disco, tudo permeado pela riqueza instrumental da viola de fado.

Um dos pontos altos do disco é Fado Escravo, que mescla a doce voz de Olivia Byington à voz rouca de Maria João em uma canção que exemplifica bem a saudade negreira em versos como: "Não são as dores que o consomem/ só o consome a saudade/ há um chicote a estalar/ e há um navio que avança/ ninguém se atreve a chorar/ ninguém se atreve a ter esperança".

Sem se ater ao ritmo português, Maria João impressiona pela descaracterização fadista das interpretações de Vais Dizer Adeus, em canto crioulo, com parceria de Tito Paris, "Gente Vulgar", um tango que explica o fado, e "Desamparinho", que fecha o disco com os versos "E agora que sou/ o silêncio de ser/ desaprendo o que ensinei". Nesse último momento, a ausência total do sotaque de Portugal aproxima ainda mais a cantora da música brasileira.

Com um olhar estrangeiro para o fado, o grande mérito do álbum é privilegiar a língua em comum entre as regiões em que se inspira, e trabalhar a riqueza passional e instrumental fadista com a voz marcante de Maria João. É um trabalho que se atém ao tempo, mas também fala do amor e da saudade, sentimentos que todos carregam em si, e que não exigem explicação.



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