Palavra do Leitor

O atraso como partida e chegada


Dias atrás um cliente me perguntou, por e-mail, quanto tempo demorará e quanto durará o rescaldo da crise da Covid-19. Provavelmente muito mais que em quase todos os outros países em tempo, duração, demora para recuperação e profundidade das sequelas sociais, respondi. No fim da tarde, ele me chamou pelo Skype e questionou como saber se não há amostragem estatística de algo similar. Para responder expus argumentos a seguir, com ressalva: considerar na análise não todos, mas número suficiente para impor a essência das conclusões.

Risco é algo que não aconteceu, mas pode acontecer. É olhar o futuro com lentes de probabilidade. O que não aconteceu é invisível, mas tem morada nas sutilezas da natureza, sociedade, empresas, instituições e pessoas. Para cavar o futuro procure evidências que o fundarão. Saber que somos lentos, ineficientes e atabalhoados, basta olhar pela janela. Nossa burocracia oficial: proporção dos lares com saneamento básico em pleno século XXI; pequeno acesso a serviços públicos minimamente adequados nas periferias; gastos públicos profundamente desequilibrados (há décadas); prioridades toscas (vide gastos exorbitantes para construir e manter Brasília e tantos outros; diuturno desrespeito às normas de civilidade. Milhões de quilômetros e vários séculos de amostragem estatística de fatos e violências.

Gostamos e debatemos opiniões como se fossem fundamentos. Priorizamos amigos e parentes. Quando nos criticam ou apontam erros, são inimigos, querem nosso mal. Lógica, raciocínio e fatos perdem de 7 a 1 da latinidade emocional pessoal. Há exemplos de figuras públicas de matizes ideológicas e trajetórias de vida profundamente antagônicas, que reproduzem essas características. Excesso de viés interpessoal, verborragia falsa ou rude, emotividade fora de lugar, prioridade aos amigos, filhos ou camaradas. Gostamos de quem se parece conosco. O que é realmente bom, depreciamos, fazemos piadas. Exemplo disso é o SUS, maior sistema universal de saúde que funciona em País continental para 210 milhões de pessoas com recursos aquém do razoável. Síndrome de cão vira-lata, nós o criticamos sem notar: ele é heroico. Ele suspirou e perguntou se vamos mudar. Pouquíssimo provável, sempre escamoteamos e naturalizamos violências. Procuramos narrativas carinhosas para vilezas. Santo do pau oco foi forma de carregar contrabando em procissões. Usamos o que temos de bom (sociabilidade, festividade, sorrisos) para escamotear o que precisaríamos amputar. Estamos fadados ao atraso. Sendo o que somos, continuaremos sendo o que somos. Os outros é que são culpados. Por que mudar? É triste ser especialista em probabilidade. O futuro injusto e violento fica óbvio.

Luiz Jurandir Simões de Araújo é professor de atuária e diretor administrativo da FapUnifesp (Fundação de Apoio à Unifesp).


PALAVRA DO LEITOR

Divergências
Fico indignado com os políticos do Grande ABC em como confiam no governador do Estado, João Doria. Primeiro aceitaram de maneira muito simples a mudança do VLT para BRT para a região. Este governo e os anteriores são todos farinha do mesmo saco. Sendo o Grande ABC a quarta economia do Brasil, ele não dá a mínima atenção para a região, sendo que as principais montadoras estão na região. Aceitaram pacificamente, não sei por quê. Agora tiveram outra decepção com a diferenciação da região com a Capital em relação ao enfrentamento à Covid-19. E nossos representantes estão todos de joelho pedindo a bênção a Doria para que olhe melhor para a região. Incrível não terem percebido que esse cara não passa de mentiroso. Disse que ia ser prefeito da Capital o mandato completo. Não cumpriu. E, agora, almeja ser presidente da República. Também falou que não pagaria multa para a empresa que iria construir o VLT porque não existia multa a ser paga. Agora está separando verba para pagar a multa por rescisão contratual. Acordem, políticos do Grande ABC!
Jose Alfeu Pagoto
Santo André

Jaboticabal
O Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica) do governo estadual, em carta dirigida a este Diário e publicada nesta Palavra do Leitor (Editorial, dia 2), a respeito das obras do Piscinão Jaboticabal, tentou apenas explicar o inexplicável a respeito do Editorial (Opinião, dia 31). A nota apenas confirma a reportagem deste respeitável periódico e o quanto é burocrática a máquina estatal. A construção desse reservatório, com capacidade para 900 mil metros cúbicos de água da chuva, nas divisas entre a Capital e os municípios de São Bernardo e São Caetano, só estará concluída no fim de 2021. Estranhamente, o governador João Doria, que dizia não ser político, mas sim gestor, mais uma vez decidiu ‘gestar’ e atrasar em um ano o início das obras. Isso porque foi preciso um ano para que o projeto fosse examinado, mesmo o caso tendo sido decretado de calamidade pública.
Arlindo Ligeirinho Ribeiro
Diadema

Arrependida
Prezada ‘diarionete’ Sônia Marilha de Sá, sua missiva, publicada neste prestigioso Diário (Frustrada, dia 1º), deixou-me reflexivo e propenso a rever minha posição enfática em colocar no mesmo balaio eleitores do presidente ignaro, tosco e inábil, que, para nossa desgraça mor, continua a proferir dia sim e no outro também sua inaptidão para implementar políticas públicas que atendam às necessidades dos nossos patrícios. Oxalá, mais patrícios arrazoados tornem de domínio público, como fizeste, a frustração por ter votado em candidato que venceu as eleições e se deu conta de que o problema do Brasil é crônico, onde a corrupção é endêmica. Espero que continue a escrever para esta nossa querida Palavra do Leitor.
João Paulo de Oliveira
Diadema

Ouvidoria
Interessante e oportuno o Artigo sobre ouvidoria e o novo normal (Opinião, dia 2). A ouvidoria é órgão de suma importância em qualquer organização, e terá que se adaptar às novas demandas diferenciadas pela pandemia. Recebe as sugestões, reclamações, elogios, ouve atentamente ambas as partes com toda a isenção. Para o correto funcionamento, a ouvidoria deve ser totalmente independente, não pode estar subordinada à estrutura organizacional e ter posicionamento de assessoria junto à presidência da entidade. A maior utilidade da ouvidoria é colaborar para o aperfeiçoamento dos processos, rotinas, sistema de informações e até da estrutura organizacional implantada na entidade, ou seja, eventuais falhas não podem ter demandas repetitivas na ouvidoria, sem atitudes para a sua correção de maneira estrutural. Pena que ainda não funcione muito bem no nosso País.
Evaristo de Carvalho Neto
Santo André

Floripa e Sampa
Em Florianópolis, Santa Catarina, em um mês constam 100 mortos por Covid-19. Já em São Paulo, justamente 15 dias após a desastrada atitude do prefeito Bruno Covas de retirar por uma semana carros de circulação, o que entupiu meios de transporte, casos de Covid disparam. Florianópolis cortou meios de transporte, que apenas voltarão a circular dia 17, embora todo o comércio esteja funcionando. Já em São Paulo, tudo fechado e ônibus e Metrô abarrotados. Nesta pandemia, políticos fracos, ineficientes e destrambelhados ficaram evidentes aos olhos do eleitorado. Já os conscientes e inteligentes com certeza terão vida política longa. Em 2020, bye bye Bruno Covas!
Beatriz Campos
Capital 

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