Cotidiano

Velho não senhor!


A tarde era de sol e a luz cumpria bem o seu papel de realçar os matizes da Serra de Petrópolis. O trânsito estava calmo naquele dia, situação nada corriqueira ali, devo confessar. Só quem percorre aquele trajeto com alguma frequência sabe do que eu falo.

Muitas curvas na subida e o ronco do motor silenciado pelo samba que rolava solto no rádio determinavam o ritmo do passeio. E, apesar das longas horas de viagem, o clima era de relaxamento, além, claro, do bate-papo gostoso que também contribuía para a descontração. Tudo seguia, pois, numa calma que até assustava. A ausência de engarrafamento e caminhão quebrado naquele trecho longo, sinuoso e sempre propenso a tudo isso, causava uma estranheza e um sossego que há muito não experimentávamos.

Repentinamente, uma cena inusitada abusou do seu direito de ser incomum, e sacudiu os nossos ânimos, que já começavam a descambar para o tédio. Conduziu-nos, inclusive, a uma breve reflexão acerca desta vida de percalços, serras altas e tempo que voa, empurrando ladeira abaixo os dias de cada um. No quadro, o artista pintara caprichosamente um homem que há muito deixara para trás os gloriosos anos 1960. Claro que sua calva com paralamas branquinhos, avistada de longe, não era suficiente para se obter diagnóstico preciso de sua idade. Apenas o rosto vincado denunciava a longa quilometragem percorrida através das décadas.

Nada demais encontrar um homem velho numa época em que se vive mais do que em passado não muito distante, admito. Mas o tal sujeito demonstrava ali disposição pouco comum para alguém que carrega nos ombros tão elevada faixa etária. Subia, pois, a serra, montado numa bicicleta. Isso mesmo! Pedalava, elegante e sem esforço aparente, estrada acima. Exibia uma tranquilidade que não denotava cansaço muscular ou fôlego esgotado. Curioso, reduzi um pouco a marcha para melhor observar seu desempenho. Parece bobagem, mas aquilo me fez pensar na força do ser humano que não se rende aos rigores da vida e da implacável passagem do tempo.

Subia, pois, determinado, rumo a um destino qualquer, assim como nós. Por certo que não se deu conta da nossa presença nem dos nossos olhares indagadores. Lembrou-me até alguém de idade igualmente avançada que pedalou muitos dias num cárcere e de lá saiu fortalecido pelo exercício e por não se render à velhice. É gente que não sucumbe ao desânimo e que segue estrada acima, desconsiderando o peso dos anos e da bota opressora.

Percebemos até que o realce às cores do lugar não vinha somente da claridade da tarde, mas também da leveza da cena que ensinava, sem palavras, a importância de se viver plenamente. O homem, sem perceber, enviava ao mundo ao seu redor mensagem de resistência e simplicidade. 

Seguimos, enfim, nosso caminho até que o velho homem desapareceu na curva, deixando somente a boa lembrança. Aliás, ele nem suspeita, esteja onde estiver, de que, neste momento de criação, conduz a minha pena digital, esta que está sempre afoita por relatar o insólito que costuma se refugiar nas entrelinhas da vida.

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Muitas curvas na subida e o ronco...

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