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Assassino em massa pode ser o esquisito que vive ao lado


Artur Rodrigues
Do Diário do Grande ABC

02/05/2007 | 07:08


Eles passam a vida sendo os esquisitões, sozinhos com seus gostos bizarros. Até que, um dia, se tornam celebridades. São os matadores em massa. Com uma arma na mão e uma mensagem de rancor na cabeça, gente como o tímido estudante sul-coreano Cho Seung-Hui, 23 anos, que matou 32 pessoas em Virgínia, Estados Unidos, no último dia 17, dá o seu recado. O dele, contra os riquinhos que o desprezavam, foi veiculado em todas as línguas. Era tudo o que queria.

“Cho buscava antes de tudo uma identidade no mundo, ele era um nada. Hoje é uma personalidade. Mitos não são ruins nem bons e ele se tornou um”, diz a pesquisadora Ilana Casoy, autora de livros sobre criminosos e consultora da polícia na resolução de casos.

Ao contrário do que muita gente pensa, os matadores em massa não são psicopatas. Quase sempre, sofrem de doenças mentais como esquizofrenia, que afeta a percepção da pessoa sobre o que é ou não real. A auto-estima muito baixa é regra. Como são desorganizados mentalmente, são facilmente descobertos e, portanto, agem uma só vez. Com o máximo de poder de fogo.

As escolas e universidades, palcos sociais do jovem norte-americano, são o cenário perfeito para esse tipo de ação. “Esses indivíduos se voltam contra o grupo que eles acham que os oprimiu, os rejeitou.”

Uma sociedade como dos Estados Unidos, extremamente opressora e armada, é um prato cheio para que um doente se torne um assassino. “Se ele tivesse mais dificuldade em conseguir a pistola, por exemplo, poderia ter esfriado”, acredita Ilana.

Oito anos antes, Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, 17, conseguiram comprar um arsenal pela internet e mataram 12 alunos e um professor, ferindo mais 21 pessoas. Assim como o sul-coreano, queriam vingança. Realizados, não restava mais motivação para viver. Suicidaram-se.

À época, chacinas do tipo não faziam parte das preocupações de quem quer que fosse e, por isso, eram muito mais difíceis de ser evitadas.

O caso de Cho é diferente. Havia queixas sobre a conduta dele, que andara perseguindo colegas pelo campus da Virginia Tech, e preocupava os professores com textos perturbados. O caso foi levado à diretoria. Nada foi feito.

Depois que acontecem, não faltam condicionais às tragédias. Se ele tivesse sido tratado, por exemplo, talvez se tornasse um respeitável professor de Inglês, se casasse e tivesse filhos. Um quadro psicótico, capaz de gerar um comportamento similar ao do sul-coreano, poderia ser revertido por meio de tratamentos, explica o psiquiatra Sérgio Baldassin, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC. Mas como obrigar alguém a se tratar? Só com internação compulsória.

“Na Inglaterra, um indivíduo não tinha cometido um crime, mas pelo transtorno mental foi internado. É uma coisa perigosa. Ainda não é consenso. É difícil antever que alguém vai cometer um crime”, diz Ilana Casoy.

A escola, onde mais ocorre esse tipo de ação, também é o local ideal para o acompanhamento. Isso porque a família pode acabar se acostumando com o jeito do filho e não procurar tratamento. Professores e profissionais bem treinados podem salvar vidas sem nem saber.

No Brasil, casos similares não são freqüentes. O mais parecido ao do massacre na Virgínia foi protagonizado pelo estudante de Medicina Mateus da Costa Meira. Ele era uma exceção, não sofria de doença mental, mas de um transtorno conhecido como personalidade esquizóide, caracterizada também pelo afastamento social e atitudes excêntricas. Depois de anos de planejamento, entrou no cinema do Morumbi Shopping armado com uma submetralhadora 9mm. Cheirou cocaína, matou três pessoas e deixou quatro feridas.

O filme que era projetado no dia do crime, o subversivo Clube da Luta, virou motivo de polêmica. Na ocasião, veio à tona o debate sobre a ficção como incitadora à violência. Não se sabia ainda, mas, anos antes, quando não havia conhecido a cocaína, Mateus havia entrado no cinema armado com um bisturi e não teve coragem de atacar ninguém. Na tela, passava Esqueceram de Mim.



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Assassino em massa pode ser o esquisito que vive ao lado

Artur Rodrigues
Do Diário do Grande ABC

02/05/2007 | 07:08


Eles passam a vida sendo os esquisitões, sozinhos com seus gostos bizarros. Até que, um dia, se tornam celebridades. São os matadores em massa. Com uma arma na mão e uma mensagem de rancor na cabeça, gente como o tímido estudante sul-coreano Cho Seung-Hui, 23 anos, que matou 32 pessoas em Virgínia, Estados Unidos, no último dia 17, dá o seu recado. O dele, contra os riquinhos que o desprezavam, foi veiculado em todas as línguas. Era tudo o que queria.

“Cho buscava antes de tudo uma identidade no mundo, ele era um nada. Hoje é uma personalidade. Mitos não são ruins nem bons e ele se tornou um”, diz a pesquisadora Ilana Casoy, autora de livros sobre criminosos e consultora da polícia na resolução de casos.

Ao contrário do que muita gente pensa, os matadores em massa não são psicopatas. Quase sempre, sofrem de doenças mentais como esquizofrenia, que afeta a percepção da pessoa sobre o que é ou não real. A auto-estima muito baixa é regra. Como são desorganizados mentalmente, são facilmente descobertos e, portanto, agem uma só vez. Com o máximo de poder de fogo.

As escolas e universidades, palcos sociais do jovem norte-americano, são o cenário perfeito para esse tipo de ação. “Esses indivíduos se voltam contra o grupo que eles acham que os oprimiu, os rejeitou.”

Uma sociedade como dos Estados Unidos, extremamente opressora e armada, é um prato cheio para que um doente se torne um assassino. “Se ele tivesse mais dificuldade em conseguir a pistola, por exemplo, poderia ter esfriado”, acredita Ilana.

Oito anos antes, Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, 17, conseguiram comprar um arsenal pela internet e mataram 12 alunos e um professor, ferindo mais 21 pessoas. Assim como o sul-coreano, queriam vingança. Realizados, não restava mais motivação para viver. Suicidaram-se.

À época, chacinas do tipo não faziam parte das preocupações de quem quer que fosse e, por isso, eram muito mais difíceis de ser evitadas.

O caso de Cho é diferente. Havia queixas sobre a conduta dele, que andara perseguindo colegas pelo campus da Virginia Tech, e preocupava os professores com textos perturbados. O caso foi levado à diretoria. Nada foi feito.

Depois que acontecem, não faltam condicionais às tragédias. Se ele tivesse sido tratado, por exemplo, talvez se tornasse um respeitável professor de Inglês, se casasse e tivesse filhos. Um quadro psicótico, capaz de gerar um comportamento similar ao do sul-coreano, poderia ser revertido por meio de tratamentos, explica o psiquiatra Sérgio Baldassin, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC. Mas como obrigar alguém a se tratar? Só com internação compulsória.

“Na Inglaterra, um indivíduo não tinha cometido um crime, mas pelo transtorno mental foi internado. É uma coisa perigosa. Ainda não é consenso. É difícil antever que alguém vai cometer um crime”, diz Ilana Casoy.

A escola, onde mais ocorre esse tipo de ação, também é o local ideal para o acompanhamento. Isso porque a família pode acabar se acostumando com o jeito do filho e não procurar tratamento. Professores e profissionais bem treinados podem salvar vidas sem nem saber.

No Brasil, casos similares não são freqüentes. O mais parecido ao do massacre na Virgínia foi protagonizado pelo estudante de Medicina Mateus da Costa Meira. Ele era uma exceção, não sofria de doença mental, mas de um transtorno conhecido como personalidade esquizóide, caracterizada também pelo afastamento social e atitudes excêntricas. Depois de anos de planejamento, entrou no cinema do Morumbi Shopping armado com uma submetralhadora 9mm. Cheirou cocaína, matou três pessoas e deixou quatro feridas.

O filme que era projetado no dia do crime, o subversivo Clube da Luta, virou motivo de polêmica. Na ocasião, veio à tona o debate sobre a ficção como incitadora à violência. Não se sabia ainda, mas, anos antes, quando não havia conhecido a cocaína, Mateus havia entrado no cinema armado com um bisturi e não teve coragem de atacar ninguém. Na tela, passava Esqueceram de Mim.

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