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'Blindness' é recebido com respeito



15/05/2008 | 07:02


No cartaz do 61º Festival de Cannes, que homenageia David Lynch, uma tarja cobre os olhos de uma mulher loira, de lábios e unhas pintados de vermelho, a cor da paixão. Ela não pode ou não quer ver? É uma imagem que remete a desejos interditos - perversos - como nos filmes do homenageado? Mais ou menos como perguntar quem, ou o que, nasceu primeiro - a galinha ou o ovo -, seria perguntar quem, ou o que, foi escolhido primeiro - o cartaz ou o filme de Fernando Meirelles para abrir o maior evento de cinema do mundo?

Blindness, que abriu o Festiva de Cannes e no Brasil vai se chamar Ensaio Sobre a Cegueira, é bom, sobretudo muito bem-feito, mas não é um filme fácil. O próprio livro de José Saramago que lhe deu origem é uma obra muito complexa - o escritor cria uma metáfora, mas sob essa aparência o filme tem uma base brutalmente realista, e deve ter sido este o fator decisivo para que o autor de Cidade de Deus fosse chamado pelo produtor canadense para dirigir a adaptação.

Um filme sobre a cegueira abrindo um festival cujo cartaz é esta mulher de olhos censurados (vendados?) Parece até obviedade. Na coletiva, Meirelles lembrou que há dez anos tentou comprar os direitos, mas Saramago lhe disse não, porque o cinema é contrário ao espírito do livro. O cinema mata a imaginação - o cinema mostra, e a cegueira branca, metafórica, que atinge seus personagens (e a humanidade em geral), está na contramão desta tendência realista-naturalista.

O resultado é intrigante, mas Blindness não é de fácil adesão. Algumas pessoas, no fim da sessão, achavam que o filme banaliza a complexidade do romance. Ou então é a velha diferença entre cinema e literatura. Um filme como Blindness dificilmente pode aspirar à unanimidade. A platéia de Cannes reagiu ao filme com profundo respeito, senão entusiasmo, pela carpintaria que Meirelles, mais uma vez, revela.

A história não é muito diferente da de outros filmes fantásticos. Um vírus, ou sabe-se lá o que, infecta algumas pessoas, que vão perdendo a visão. Só que, em vez de ingressar num mundo de sombras, elas ingressam num mundo de excesso de luz - a tal cegueira branca. São confinadas e aí o filme chega ao ponto. Quando a ordem estabelecida entra em colapso, a barbárie se estabelece. Apenas uma mulher, a personagem de Julianne Moore, consegue enxergar.

A metáfora de Saramago, expressa na primeira frase que o espectador ouve, refere-se justamente a essa tragédia do mundo moderno. As pessoas vêem sem ver. Danny Glover fez o discurso mais político da coletiva - ele diz que no mundo atual, as pessoas perderam a capacidade de ver o sofrimento do outro.

Para Meirelles, seu filme é sobre a barbárie. Para o roteirista Don McKellar, é sobre a luta das pessoas para não perder a dignidade.
Como disse a atriz Jeanne Balibar, na coletiva do júri, certos filmes, mais do que outros, exigem uma segunda visão para que se possa emitir um juízo definitivo.

Talvez seja o caso de Blindness, que desperta uma admiração fria. O excepcional tratamento fotográfico de César Charlone, o som e as interpretações, de qualquer maneira, saltam a uma primeira visão. Cannes não serviu nenhum refresco em sua abertura. Ponto para o festival, e para Meirelles.



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'Blindness' é recebido com respeito


15/05/2008 | 07:02


No cartaz do 61º Festival de Cannes, que homenageia David Lynch, uma tarja cobre os olhos de uma mulher loira, de lábios e unhas pintados de vermelho, a cor da paixão. Ela não pode ou não quer ver? É uma imagem que remete a desejos interditos - perversos - como nos filmes do homenageado? Mais ou menos como perguntar quem, ou o que, nasceu primeiro - a galinha ou o ovo -, seria perguntar quem, ou o que, foi escolhido primeiro - o cartaz ou o filme de Fernando Meirelles para abrir o maior evento de cinema do mundo?

Blindness, que abriu o Festiva de Cannes e no Brasil vai se chamar Ensaio Sobre a Cegueira, é bom, sobretudo muito bem-feito, mas não é um filme fácil. O próprio livro de José Saramago que lhe deu origem é uma obra muito complexa - o escritor cria uma metáfora, mas sob essa aparência o filme tem uma base brutalmente realista, e deve ter sido este o fator decisivo para que o autor de Cidade de Deus fosse chamado pelo produtor canadense para dirigir a adaptação.

Um filme sobre a cegueira abrindo um festival cujo cartaz é esta mulher de olhos censurados (vendados?) Parece até obviedade. Na coletiva, Meirelles lembrou que há dez anos tentou comprar os direitos, mas Saramago lhe disse não, porque o cinema é contrário ao espírito do livro. O cinema mata a imaginação - o cinema mostra, e a cegueira branca, metafórica, que atinge seus personagens (e a humanidade em geral), está na contramão desta tendência realista-naturalista.

O resultado é intrigante, mas Blindness não é de fácil adesão. Algumas pessoas, no fim da sessão, achavam que o filme banaliza a complexidade do romance. Ou então é a velha diferença entre cinema e literatura. Um filme como Blindness dificilmente pode aspirar à unanimidade. A platéia de Cannes reagiu ao filme com profundo respeito, senão entusiasmo, pela carpintaria que Meirelles, mais uma vez, revela.

A história não é muito diferente da de outros filmes fantásticos. Um vírus, ou sabe-se lá o que, infecta algumas pessoas, que vão perdendo a visão. Só que, em vez de ingressar num mundo de sombras, elas ingressam num mundo de excesso de luz - a tal cegueira branca. São confinadas e aí o filme chega ao ponto. Quando a ordem estabelecida entra em colapso, a barbárie se estabelece. Apenas uma mulher, a personagem de Julianne Moore, consegue enxergar.

A metáfora de Saramago, expressa na primeira frase que o espectador ouve, refere-se justamente a essa tragédia do mundo moderno. As pessoas vêem sem ver. Danny Glover fez o discurso mais político da coletiva - ele diz que no mundo atual, as pessoas perderam a capacidade de ver o sofrimento do outro.

Para Meirelles, seu filme é sobre a barbárie. Para o roteirista Don McKellar, é sobre a luta das pessoas para não perder a dignidade.
Como disse a atriz Jeanne Balibar, na coletiva do júri, certos filmes, mais do que outros, exigem uma segunda visão para que se possa emitir um juízo definitivo.

Talvez seja o caso de Blindness, que desperta uma admiração fria. O excepcional tratamento fotográfico de César Charlone, o som e as interpretações, de qualquer maneira, saltam a uma primeira visão. Cannes não serviu nenhum refresco em sua abertura. Ponto para o festival, e para Meirelles.

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