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‘Plano Perfeito’ marca a volta de Spike Lee


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

27/03/2006 | 08:33


Spike Lee voltou aos cinemas, com a estréia na última sexta-feira de O Plano Perfeito. É fato a comemorar, não duvide, uma vez que o diretor volta e meia tem de engolir a indiferença do mercado distribuidor brasileiro. Será? Dos 19 longas dirigidos pelo cineasta norte-americano (excluídos do total filmes feitos para a TV, naturalmente), nove deles jamais sentiram sequer o cheiro do projetor brasileiro; a maioria acabou lançada em VHS e DVD. Também é motivo de festa o fato de Lee, habituado aos mecanismos independentes da produção, meter o bedelho no ramo dos grandes orçamentos, dos filmes com alta pretensão financeira, num gênero popular que não é muito sua praia. Então, até Spike Lee tem seu valor venal em Hollywood? Jamais. Lee prossegue com suas obsessões. Mudam os panoramas, mudam os cenários, mudam os contextos, mas não seus desejos enquanto artista. E que obsessões são essas, exatamente?

O filtro étnico é uma possível e evidente resposta, bem como a combatividade visual de seu cinema. Entretanto, Lee é combativo com relação ao status quo racial. Seu plano de ação é a utopia, o sonho de ver uma comunidade, uma unidade real entre as diferentes etnias de um cosmo – em seu caso, geralmente é Nova York. Não quer estabilidade nem tolerância pautadas tão-somente por códigos civis ou penais. Quer o entendimento a partir de códigos humanos, o respeito puro, sem medo de retaliações ou processos. Basta vislumbrar Faça a Coisa Certa (1989) e a panela de pressão entre habitantes negros e ítalo-americanos do Brooklyn. Ou ainda Todos a Bordo (1996) e seu ônibus-locação cujos passageiros estão a uma faísca de rasgar o manual da boa-vizinhança.

Ou seja, boa parte da intransigência de Lee é com relação aos relacionamentos inter-raciais orientados pela ameaça de revide ou de prisão. A política de comunidade possível apenas pela intervenção legisladora do Estado ou pela brutalidade da vingança e não pela essência do respeito. O próprio personagem que Spike Lee interpreta em seu Febre da Selva (1991), desaconselhando o romance entre o negro Wesley Snipes e a branca Annabella Sciorra, serve como uma consciência do mundo vivido, um delegado da demagogia entranhado na sociedade. Demagogia que merece a coroação do ridículo nos apontamentos de Hora do Show (2000).

Aos 49 anos, Lee é dos poucos diretores cuja trajetória é um registro de maturidade, nascida berrante e crescida ciente das mudanças a ela submetidas, mas sem abandonar suas teses sociais/filosóficas. Como Almodóvar, por exemplo. Se implanta um musical ou destaca os tons fosforescentes de Malcolm X (1992), não tenciona desviar os olhares do eixo central (a personalidade explosiva e a influência religiosa do protagonista), mas sintonizar séculos passados de uma sociedade e a diversidade atmosférica que uma mesma cultura pode proporcionar, como também ocorre em Mais e Melhores Blues (1990).

E ainda há a estrutura de convocar toda sorte de personagens, para formar extensos painéis multiculturais e dá-los à prova do contexto político, como em praticamente toda sua obra e mais sensivelmente em A Última Noite (2002). Neste fica provado que Spike Lee assume o papel do tenista que, do outro lado e num jogo mais do que amistoso, devolve as bolas lançadas por Martin Scorsese no que diz respeito a Nova York. A metrópole, ponto de referência mundial do equilíbrio urbano, é avaliada por ambos em suas características de recipiente geográfico e social de várias etnias e culturas e em sua incapacidade de equalizá-las. Não são como Woody Allen, que faz de Nova York a tela de projeção de seu individualismo num processo tão mais auto-censor.

E pode acreditar: tudo isso e mais um pouco está em O Plano Perfeito, com sua fina ironia sobre a hierarquia econômica fundada na maior cusparada anti-étnica que a humanidade recebeu no século XX. Não vá se assustar: o novo Spike Lee é muito mais que um bom filme de ação.


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‘Plano Perfeito’ marca a volta de Spike Lee

Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

27/03/2006 | 08:33


Spike Lee voltou aos cinemas, com a estréia na última sexta-feira de O Plano Perfeito. É fato a comemorar, não duvide, uma vez que o diretor volta e meia tem de engolir a indiferença do mercado distribuidor brasileiro. Será? Dos 19 longas dirigidos pelo cineasta norte-americano (excluídos do total filmes feitos para a TV, naturalmente), nove deles jamais sentiram sequer o cheiro do projetor brasileiro; a maioria acabou lançada em VHS e DVD. Também é motivo de festa o fato de Lee, habituado aos mecanismos independentes da produção, meter o bedelho no ramo dos grandes orçamentos, dos filmes com alta pretensão financeira, num gênero popular que não é muito sua praia. Então, até Spike Lee tem seu valor venal em Hollywood? Jamais. Lee prossegue com suas obsessões. Mudam os panoramas, mudam os cenários, mudam os contextos, mas não seus desejos enquanto artista. E que obsessões são essas, exatamente?

O filtro étnico é uma possível e evidente resposta, bem como a combatividade visual de seu cinema. Entretanto, Lee é combativo com relação ao status quo racial. Seu plano de ação é a utopia, o sonho de ver uma comunidade, uma unidade real entre as diferentes etnias de um cosmo – em seu caso, geralmente é Nova York. Não quer estabilidade nem tolerância pautadas tão-somente por códigos civis ou penais. Quer o entendimento a partir de códigos humanos, o respeito puro, sem medo de retaliações ou processos. Basta vislumbrar Faça a Coisa Certa (1989) e a panela de pressão entre habitantes negros e ítalo-americanos do Brooklyn. Ou ainda Todos a Bordo (1996) e seu ônibus-locação cujos passageiros estão a uma faísca de rasgar o manual da boa-vizinhança.

Ou seja, boa parte da intransigência de Lee é com relação aos relacionamentos inter-raciais orientados pela ameaça de revide ou de prisão. A política de comunidade possível apenas pela intervenção legisladora do Estado ou pela brutalidade da vingança e não pela essência do respeito. O próprio personagem que Spike Lee interpreta em seu Febre da Selva (1991), desaconselhando o romance entre o negro Wesley Snipes e a branca Annabella Sciorra, serve como uma consciência do mundo vivido, um delegado da demagogia entranhado na sociedade. Demagogia que merece a coroação do ridículo nos apontamentos de Hora do Show (2000).

Aos 49 anos, Lee é dos poucos diretores cuja trajetória é um registro de maturidade, nascida berrante e crescida ciente das mudanças a ela submetidas, mas sem abandonar suas teses sociais/filosóficas. Como Almodóvar, por exemplo. Se implanta um musical ou destaca os tons fosforescentes de Malcolm X (1992), não tenciona desviar os olhares do eixo central (a personalidade explosiva e a influência religiosa do protagonista), mas sintonizar séculos passados de uma sociedade e a diversidade atmosférica que uma mesma cultura pode proporcionar, como também ocorre em Mais e Melhores Blues (1990).

E ainda há a estrutura de convocar toda sorte de personagens, para formar extensos painéis multiculturais e dá-los à prova do contexto político, como em praticamente toda sua obra e mais sensivelmente em A Última Noite (2002). Neste fica provado que Spike Lee assume o papel do tenista que, do outro lado e num jogo mais do que amistoso, devolve as bolas lançadas por Martin Scorsese no que diz respeito a Nova York. A metrópole, ponto de referência mundial do equilíbrio urbano, é avaliada por ambos em suas características de recipiente geográfico e social de várias etnias e culturas e em sua incapacidade de equalizá-las. Não são como Woody Allen, que faz de Nova York a tela de projeção de seu individualismo num processo tão mais auto-censor.

E pode acreditar: tudo isso e mais um pouco está em O Plano Perfeito, com sua fina ironia sobre a hierarquia econômica fundada na maior cusparada anti-étnica que a humanidade recebeu no século XX. Não vá se assustar: o novo Spike Lee é muito mais que um bom filme de ação.

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