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Medo da Covid faz procura
por testamentos subir 11%

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

De janeiro a maio deste ano foram registrados 224 documentos deste tipo nos cartórios


Daniel Tossato
Do Diário do Grande ABC

25/07/2021 | 00:01


O medo da Covid fez com que 224 moradores do Grande ABC procurassem os cartórios da região para elaborar testamentos entre janeiro e maio deste ano. O número é 11,4% maior do que o do mesmo período do ano passado, quando 201 pessoas formalizaram suas partilhas. Os dados foram levantados pelo Colégio Notarial do Brasil a pedido do Diário. No País, o aumento foi ainda mais significativo, de 40%, passando de 9.865 atos realizados em 2020 para 13.924 em 2021.

Uma das pessoas que optaram por antecipar a partilha dos bens foi a comunicadora Agnes Franco, 42 anos, que viveu em Santo André grande parte da vida, mas que se mudou para Tabatinga, no Interior, justamente com a intenção de fugir do estresse causado pela pandemia. Agnes, que tem um filho de 18 anos, passou pelo que chamou de “momento mais difícil da sua vida até o momento” ao perder a mãe e a tia para a Covid em espaço de 26 horas. “Foi e está sendo um momento muito difícil”, declarou.

A situação recebeu contornos mais dramáticos quando a partilha dos bens de sua mãe e de sua tia acabou por criar atrito entre os familiares. “Essa situação me deixou em alerta e eu tomei duas medidas. A primeira é o testamento e a segunda foi deixar as coisas para o meu filho, que é meu herdeiro único. Mas, apesar de ele ser maior, não acredito que esteja pronto para administrar essa situação e coloquei uma pessoas como tutora dele”, relatou Agnes.

Do levantamento realizado pelo Colégio Notarial do Brasil, São Bernardo foi a cidade que contabilizou o maior número de testamentos este ano. De janeiro a julho, foram 71 documentos elaborados nos cartórios. Em Santo André, no mesmo período, foram 69 documentos dividindo a herança.

A empresária Edna Pereira, 53, pensou em elaborar testamento para deixar tudo preparado caso fosse acometida pelo coronavírus e perdesse a batalha contra a doença. A formalização da documentação, entretanto, esbarrou na falta de coragem. Edna, então, montou grupo de amigas mais próximas, e que detêm seus dados mais importantes caso o pior aconteça em meio à crise sanitária.

“Na primeira semana em que foi decretada a pandemia imediatamente pensei em fazer um grupo, pois ninguém sabia se ia sobreviver ou não. Juntei quatro amigas, cada uma com viés de personalidade. Deixei informações sobre aplicações e de contador”, relata Edna.

De acordo com a psicóloga Ana Paula Casaggioni, na pandemia houve aumento de adoecimento mental como um todo. A especialista relata que grande parte do estresse e da agonia vivida pelas pessoas é a ameaça de um inimigo invisível e mortal. “Não é fácil manter a saúde mental enquanto pessoas estão morrendo devido a Covid. Isso gera estresse e incerteza”, declarou.

IMPORTANTE
Além de preservar a vontade do testador em relação ao a seu patrimônio, o testamento tem se tornado instrumento eficaz para realização de planejamento patrimonial efetivo, evitando desavenças entre os herdeiros. O documento pode beneficiar terceiros não incluídos entre os herdeiros necessários, assegurar mais garantias no futuro ao cônjuge ou companheiro e até mesmo reconhecer um filho.

“Nunca falamos tanto sobre a morte como nos últimos dois anos e acredito que isso tenha feito com que as pessoas passassem a pensar sobre o tema, que antes era um tabu”, explica a presidente do Colégio Notarial do Brasil, Giselle Oliveira de Barros. “Poder, em momento ainda lúcido, planejar de forma adequada a destinação do patrimônio é uma segurança não só para o testador, como também para a família”, completa.  



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