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Tecidos Olivi fecha portas após 64 anos

Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Decisão do tradicional comércio andreense se baseia na instabilidade econômica, agravada pelo novo coronavírus


Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

12/09/2020 | 23:01


Com uma infinidade de rolos coloridos nas prateleiras e atendentes sorridentes em clima de família, a loja Tecidos Olivi está localizada no principal corredor comercial de Santo André, a Rua Coronel Oliveira Lima, desde 1956. Na época, a via ainda permitia passagem de carros e não tinha asfalto, cenário em que os três irmãos de Monte Azul Paulista, no Interior – Albino, Jordão e Reynaldo – construíram uma das mais tradicionais lojas do ramo na região. Agora, a família encerra uma história de 64 anos ao decidir fechar as portas do comércio em outubro. Cenário de instabilidade econômica que já se arrasta há alguns anos, acentuado pela crise trazida pela pandemia do novo coronavírus, estimulou a decisão, aliado ao fato de peças prontas importadas chegarem ao mercado brasileiro a preços baixos e impactarem a competitividade de todo o setor.

Foi uma mensagem no Facebook que comunicou a medida aos clientes, que têm famílias inteiras e mais de uma geração como frequentadores da loja (leia mais abaixo). “Não é falência, cumprimos com nossos deveres e obrigações desde o começo, é apenas uma mudança coletiva mediante tal situação dos dias de hoje, cheia de incertezas e instabilidades que nosso País vive e, com isso, mudanças são necessárias”, informou o texto, que também agradece os frequentadores. Até a noite de sexta-feira havia mais de 500 compartilhamentos e lamentos pelo fim das atividades.

Jairo Pacheco Olivi, 58 anos, é filho de Jordão, um dos fundadores – os três já morreram e a loja continuou a ser tocada pela família. Ele, que trabalha há 35 anos no local, é categórico ao ser questionado sobre o encerramento. “Tudo tem seu começo, meio e fim”, disse ele, que é formando em publicidade e marketing e teve na loja seu segundo emprego, onde diz que se encontrou.

“Antigamente, era completamente diferente. Nos anos 1970 e 1980, as pessoas compravam tecidos para fazer roupas. Na década de 1990, houve uma abertura econômica na época do Collor (então presidente da República, que sofreu impeachment em 1992) e, com o aumento dos investimentos externos, foram fechando fábricas”, explicou. Ele, que já chegou a trabalhar com 20 fornecedores diferentes, hoje está concentrado em dez.

De fato, a situação para quem trabalha com tecidos começou a mudar na década em que a produção física de tecelagem do País passou por um declínio, já que em 1994 era de 1,042 milhão de toneladas e, em 1997, foi para 734 mil, conforme dados da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Números da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) e do Sinditêxtil-SP (Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo) mostram que o saldo – diferença entre exportações e importações – da balança comercial do setor também apresentou queda no período – em 1994, era positivo em US$ 80 milhões e, em 1997, ficou negativo em US$ 1,1 bilhão. Foi quando as importações começaram a superar as exportações. O Plano Real acabou facilitando a entrada de produtos de outros países no mercado nacional, ainda mais que naquela época as moedas eram pareadas, e o dólar girava em torno de R$ 1.

Nas décadas anteriores, a demanda era tanta que foi aberta uma filial da loja em frente, na mesma via, em 1972 – ela foi fechada justamente em 1997.

Segundo Lucia Teresa Olivi, 74, mulher de Reynaldo que também é um dos três fundadores, a pandemia acabou ajudando na tomada da decisão, por causa do cenário de incerteza, mas o veredito foi acertado em conjunto pelos sete sócios, todos eles da família, que incluem Eliana Pacheco Olivi, 60, irmã de Jairo, e mais quatro primos (Rafael Wentzocovit Olivi, Maria Catarina Wentzocovit Olivi, Ronaldo Olivi e Renata Olivi). 

"Estamos atendendo só para retirada. O difícil é que a nossa despedida de muitos clientes acabou sendo por telefone e não deu nem para dar um abraço. Foi um ciclo que se encerrou e a pandemia ajudou na decisão, mesmo tendo vendido muito tecido para fazer máscara. Ainda assim, não comercializamos a máscara pronta porque optamos por dar oportunidade para costureiras e artesãos”, afirmou Lucia. De acordo com a Abit, de janeiro a maio deste ano, a indústria do segmento têxtil teve queda de 21,4% e, a de confecção, redução de 34,3%, já impactados pela pandemia.

Mesmo com as dificuldades do segmento, a clientela fiel continua indo até o local. São cerca de 100 atendimentos diários, que muito mais do que tecidos levam sorrisos e a certeza de uma amizade. “O que eu sempre aprendi com o meu pai foi a ter esse excelente atendimento aos clientes, que viraram amigos”, disse Jairo.

Para quem se dedicou ao trabalho na unidade, também é uma sensação de dever cumprido que encerra a história do comércio. A funcionária Silvia Elena de Oliveira Bellisone, 71, começou a trabalhar no local com 16 anos, mas parou por um período quando teve sua filha, e, hoje, soma 40 anos de casa como uma das oito vendedoras. “Minha tia era costureira e um dia vim com ela até a loja. Um dos fundadores, o seu Jordão, me ofereceu um emprego. Eu comecei embalando os pacotes, quando a gente ainda fazia isso com papel e amarrava com barbante”, lembrou ela.

“Todo fim de ano nós trabalhávamos até as 22h porque vendia muito. Hoje, mesmo com fluxo menor de clientes a gente ainda trabalhava bastante. Tem quem fique emocionado porque vem aqui e lembra da avó e da mãe”, contou ela, que também se emocionou ao relembrar toda a história. “Vai deixar muitas saudade. Eu gosto tanto de tecidos e sempre falei tanto sobre isso que minha filha acabou fazendo design de moda.”

Cliente começou a comprar no local tecido para sua mãe na década de 1970

Para os clientes, o sentimento que fica é o de saudade. Mesmo com a mensagem no Facebook, alguns não acreditaram no encerramento da loja e foram até o local, que fez parte de momentos importantes das famílias, como casamentos, e vestiu mais de uma geração. A unidade fica aberta para vender os estoques até dia 30 de outubro, tempo também de se despedir da clientela antiga.

“Eu pensei que era fake news”, disse Leonice Paino, 63 anos, moradora do Parque Capuava, em Santo André. “Liguei para a loja imediatamente e, infelizmente não era. Fiquei chocada e fui até lá conferir”, afirmou.

Leonice trabalhava em uma loja de fotografia ao lado do comércio de tecidos, na década de 1970. Foi ali que conheceu os fundadores, que sempre cumprimentava e com quem conversava quando ia comprar tecidos para a mãe, que mandava fazer roupas na costureira.

“Comprei muitos tecidos para a minha mãe lá. E, hoje, continuo comprando para fazer almofadas e cortinas da minha casa. Não é só ir comprar. Nós batemos papo, falamos sobre os filhos. É um relacionamento de amigos dos bons e que atravessa gerações”, contou.

Leonice, que estava seguindo rigorosamente o isolamento social, abriu exceção para dar um até logo aos amigos. “Eu liguei para a minha filha e avisei que eu precisava ir até lá. Ela é professora, então a gente compra tecido para ela usar nas aulas de arte. Além disso, foi lá que comprei o enxoval de casamento dela, há mais de dez anos”, lembrou, ao garantir que, se depender dela, a amizade vai continuar.

Taisa Adud, 58, moradora da Vila Bastos, também é frequentadora assídua desde que começou a se interessar por costura. Ainda hoje, ela encomenda roupas sob medida. “Eu sempre gostei de ter roupas mais exclusivas. Então sempre comprei lá os meus tecidos. Todos os casamentos e eventos importantes que tive comprei tecidos da Olivi”, disse ela, ao também afirmar que o espaço vai deixar saudades. “Agora, não sei como vai ser. Onde vamos comprar nossos tecidos. Com certeza, é uma grande perda para a cidade e para toda a região.”



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Tecidos Olivi fecha portas após 64 anos

Decisão do tradicional comércio andreense se baseia na instabilidade econômica, agravada pelo novo coronavírus

Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

12/09/2020 | 23:01


Com uma infinidade de rolos coloridos nas prateleiras e atendentes sorridentes em clima de família, a loja Tecidos Olivi está localizada no principal corredor comercial de Santo André, a Rua Coronel Oliveira Lima, desde 1956. Na época, a via ainda permitia passagem de carros e não tinha asfalto, cenário em que os três irmãos de Monte Azul Paulista, no Interior – Albino, Jordão e Reynaldo – construíram uma das mais tradicionais lojas do ramo na região. Agora, a família encerra uma história de 64 anos ao decidir fechar as portas do comércio em outubro. Cenário de instabilidade econômica que já se arrasta há alguns anos, acentuado pela crise trazida pela pandemia do novo coronavírus, estimulou a decisão, aliado ao fato de peças prontas importadas chegarem ao mercado brasileiro a preços baixos e impactarem a competitividade de todo o setor.

Foi uma mensagem no Facebook que comunicou a medida aos clientes, que têm famílias inteiras e mais de uma geração como frequentadores da loja (leia mais abaixo). “Não é falência, cumprimos com nossos deveres e obrigações desde o começo, é apenas uma mudança coletiva mediante tal situação dos dias de hoje, cheia de incertezas e instabilidades que nosso País vive e, com isso, mudanças são necessárias”, informou o texto, que também agradece os frequentadores. Até a noite de sexta-feira havia mais de 500 compartilhamentos e lamentos pelo fim das atividades.

Jairo Pacheco Olivi, 58 anos, é filho de Jordão, um dos fundadores – os três já morreram e a loja continuou a ser tocada pela família. Ele, que trabalha há 35 anos no local, é categórico ao ser questionado sobre o encerramento. “Tudo tem seu começo, meio e fim”, disse ele, que é formando em publicidade e marketing e teve na loja seu segundo emprego, onde diz que se encontrou.

“Antigamente, era completamente diferente. Nos anos 1970 e 1980, as pessoas compravam tecidos para fazer roupas. Na década de 1990, houve uma abertura econômica na época do Collor (então presidente da República, que sofreu impeachment em 1992) e, com o aumento dos investimentos externos, foram fechando fábricas”, explicou. Ele, que já chegou a trabalhar com 20 fornecedores diferentes, hoje está concentrado em dez.

De fato, a situação para quem trabalha com tecidos começou a mudar na década em que a produção física de tecelagem do País passou por um declínio, já que em 1994 era de 1,042 milhão de toneladas e, em 1997, foi para 734 mil, conforme dados da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Números da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) e do Sinditêxtil-SP (Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo) mostram que o saldo – diferença entre exportações e importações – da balança comercial do setor também apresentou queda no período – em 1994, era positivo em US$ 80 milhões e, em 1997, ficou negativo em US$ 1,1 bilhão. Foi quando as importações começaram a superar as exportações. O Plano Real acabou facilitando a entrada de produtos de outros países no mercado nacional, ainda mais que naquela época as moedas eram pareadas, e o dólar girava em torno de R$ 1.

Nas décadas anteriores, a demanda era tanta que foi aberta uma filial da loja em frente, na mesma via, em 1972 – ela foi fechada justamente em 1997.

Segundo Lucia Teresa Olivi, 74, mulher de Reynaldo que também é um dos três fundadores, a pandemia acabou ajudando na tomada da decisão, por causa do cenário de incerteza, mas o veredito foi acertado em conjunto pelos sete sócios, todos eles da família, que incluem Eliana Pacheco Olivi, 60, irmã de Jairo, e mais quatro primos (Rafael Wentzocovit Olivi, Maria Catarina Wentzocovit Olivi, Ronaldo Olivi e Renata Olivi). 

"Estamos atendendo só para retirada. O difícil é que a nossa despedida de muitos clientes acabou sendo por telefone e não deu nem para dar um abraço. Foi um ciclo que se encerrou e a pandemia ajudou na decisão, mesmo tendo vendido muito tecido para fazer máscara. Ainda assim, não comercializamos a máscara pronta porque optamos por dar oportunidade para costureiras e artesãos”, afirmou Lucia. De acordo com a Abit, de janeiro a maio deste ano, a indústria do segmento têxtil teve queda de 21,4% e, a de confecção, redução de 34,3%, já impactados pela pandemia.

Mesmo com as dificuldades do segmento, a clientela fiel continua indo até o local. São cerca de 100 atendimentos diários, que muito mais do que tecidos levam sorrisos e a certeza de uma amizade. “O que eu sempre aprendi com o meu pai foi a ter esse excelente atendimento aos clientes, que viraram amigos”, disse Jairo.

Para quem se dedicou ao trabalho na unidade, também é uma sensação de dever cumprido que encerra a história do comércio. A funcionária Silvia Elena de Oliveira Bellisone, 71, começou a trabalhar no local com 16 anos, mas parou por um período quando teve sua filha, e, hoje, soma 40 anos de casa como uma das oito vendedoras. “Minha tia era costureira e um dia vim com ela até a loja. Um dos fundadores, o seu Jordão, me ofereceu um emprego. Eu comecei embalando os pacotes, quando a gente ainda fazia isso com papel e amarrava com barbante”, lembrou ela.

“Todo fim de ano nós trabalhávamos até as 22h porque vendia muito. Hoje, mesmo com fluxo menor de clientes a gente ainda trabalhava bastante. Tem quem fique emocionado porque vem aqui e lembra da avó e da mãe”, contou ela, que também se emocionou ao relembrar toda a história. “Vai deixar muitas saudade. Eu gosto tanto de tecidos e sempre falei tanto sobre isso que minha filha acabou fazendo design de moda.”

Cliente começou a comprar no local tecido para sua mãe na década de 1970

Para os clientes, o sentimento que fica é o de saudade. Mesmo com a mensagem no Facebook, alguns não acreditaram no encerramento da loja e foram até o local, que fez parte de momentos importantes das famílias, como casamentos, e vestiu mais de uma geração. A unidade fica aberta para vender os estoques até dia 30 de outubro, tempo também de se despedir da clientela antiga.

“Eu pensei que era fake news”, disse Leonice Paino, 63 anos, moradora do Parque Capuava, em Santo André. “Liguei para a loja imediatamente e, infelizmente não era. Fiquei chocada e fui até lá conferir”, afirmou.

Leonice trabalhava em uma loja de fotografia ao lado do comércio de tecidos, na década de 1970. Foi ali que conheceu os fundadores, que sempre cumprimentava e com quem conversava quando ia comprar tecidos para a mãe, que mandava fazer roupas na costureira.

“Comprei muitos tecidos para a minha mãe lá. E, hoje, continuo comprando para fazer almofadas e cortinas da minha casa. Não é só ir comprar. Nós batemos papo, falamos sobre os filhos. É um relacionamento de amigos dos bons e que atravessa gerações”, contou.

Leonice, que estava seguindo rigorosamente o isolamento social, abriu exceção para dar um até logo aos amigos. “Eu liguei para a minha filha e avisei que eu precisava ir até lá. Ela é professora, então a gente compra tecido para ela usar nas aulas de arte. Além disso, foi lá que comprei o enxoval de casamento dela, há mais de dez anos”, lembrou, ao garantir que, se depender dela, a amizade vai continuar.

Taisa Adud, 58, moradora da Vila Bastos, também é frequentadora assídua desde que começou a se interessar por costura. Ainda hoje, ela encomenda roupas sob medida. “Eu sempre gostei de ter roupas mais exclusivas. Então sempre comprei lá os meus tecidos. Todos os casamentos e eventos importantes que tive comprei tecidos da Olivi”, disse ela, ao também afirmar que o espaço vai deixar saudades. “Agora, não sei como vai ser. Onde vamos comprar nossos tecidos. Com certeza, é uma grande perda para a cidade e para toda a região.”

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