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Teatro como missão


Thiago Mariano
Do Diário do Grande ABC

29/03/2010 | 07:01


Flávio Rangel (1934-1988) era a figura central do seu teatro. Não centralizadora. Como diretor, sabia o que queria e buscava extrair o melhor do texto, da atuação, da cenografia, do figurino e da iluminação. Costumava dizer que o seu trabalho estava na busca do sentido real que um dramaturgo buscava dar às suas peças. E como missão, entendia que o que fazia dar o melhor ao público.

Detalhes de suas histórias, contados pelo próprio e por grandes mestres, da criação à técnica teatral brasileira, estão disponíveis no documentário Flávio Rangel - O Teatro na Palma da Mão (Biscoito Fino, preço médio R$ 47,90). Dirigido por Paola Prestes, ele não se atém a revisitar o mais criativo período do teatro brasileiro, mas põe em discussão os caminhos da arte hoje.

"O teatro ao vivo é imperecível. Uma força catalisadora, um evento social. Única arte de invenção, disposição e elocução, que do momento que se abre a cortina até o final, é feita diante do público", declarou o diretor.

No olho do furacão dos anos 1960 a 1980, quando o ofício teatral ganhou uma linguagem brasileira, e muitas vezes teve que lutar contra a ditadura militar, Rangel esteve nas principais montagens. Entre elas, Gimba, O Pagador de Promessas, Liberdade Liberdade e Cyrano de Bergerac. "É uma geração que entregou ao Brasil o seu teatro", conta a atriz Nathália Timberg no vídeo. Participando deste período, o diretor teve ao seu lado pessoas como Gianfrancesco Guarnieri, Antunes Filho, Juca de Oliveira, Fernanda Montenegro e Fernando Torres.

O cenografista Cyro Del Nero, que esteve presente em grande parte da vida e obra de Rangel, fala um pouco sobre o hábito que ele tinha de se debruçar nos livros na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, quando era jovem. "A troca não era de informação, era de formação. Cada um de nós estava se formando."

Nascido em Tabapuã, cidade do interior de São Paulo, Rangel chegou à Capital ainda menino. Com a morte do pai, teve de trabalhar para contribuir em casa. A Falecida, peça de Nelson Gonçalves, foi um momento crucial de sua vida. Fez com que ele se apaixonasse pelo teatro e dedicasse a vida ao ofício. "Passava horas na biblioteca, folheando páginas. Era minha iniciação teórica."

Da teoria, passou a frequentar os bastidores do teatro, a discutir sua função social. Logo, foi chamado a dirigir alguns trabalhos. O primeiro deles a convite do autor Manoel Carlos. Então, dirigiu Gimba (1959), texto de Gianfrancesco Guarnieri. Com a montagem, Guarnieri ganhou, no Festival das Nações, em Paris, prêmio de obra popular. Por um voto, Rangel perdeu o de direção para o já falecido Bertolt Brecht.

Na volta para o Brasil, foi convidado por todas as companhias teatrais. Naquela época, segundo ele, existiam sete ou oito companhias estáveis no Brasil. Escolheu o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), sendo o primeiro brasileiro a dirigi-lo.No documentário, há o retrospecto de personagens e períodos. Entre esses momentos, está o depoimento de Paulo Autran (1922-2007). O ator conta que começou no teatro por exibicionismo, vaidade. Seu desejo era de grandes papéis, não importando o que eles diziam. Com Liberdade Liberdade, texto de autoria de Rangel e Millôr Fernandes, adquiriu a consciência do papel social do trabalho. "Costumo dizer que trabalhei com teatro em três frentes: a inconsciente, a consciente dele como arte e depois como social, em prol da cultura, a mais importante de todas", contou o ator.

Outro momento é uma belíssima homenagem a Cacilda Becker (1921-1969), que sofreu um derrame cerebral após a apresentação de Esperando Godot, e caiu nos braços de Walmor Chagas, seu marido, que também atuava, e Rangel, entrando em coma e vindo a morrer 38 dias depois. Ariclê Perez (1943-2006), viúva do diretor, também ganha homenagem.

O diretor Antunes Filho, que ainda está na ativa, protagoniza um dos momentos em que traz o teatro de Rangel para discutir as produções da atualidade: "Falta a generosidade que o Flávio tinha com o público. Temos que recuperar a espiritualidade da arte. Não deixar o público à mercê de artistas que só estão lá para ser aplaudidos."

Em outro momento, reunidos no restaurante Gigetto, famosa casa paulistana que era ponto de encontro de Rangel com seus amigos, um grupo, entre eles o diretor José Renato, fala de uma característica muito importante do teatro, que foi trabalhada com afinco por Rangel e até hoje é o que move a paixão pela dramaturgia fazer teatro, mesmo com todas as dificuldades: "A resistência do teatro se formou em grupo, pessoas que trabalham juntas e formam uma linguagem teatral. Digamos que existam 180 companhias de teatro em São Paulo, e 80 delas sejam boas, é a paixão dessa gente, que hoje tem de batalhar para pôr o espetáculo em cartaz e conseguir público que deixa o teatro vivo."



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Teatro como missão

Thiago Mariano
Do Diário do Grande ABC

29/03/2010 | 07:01


Flávio Rangel (1934-1988) era a figura central do seu teatro. Não centralizadora. Como diretor, sabia o que queria e buscava extrair o melhor do texto, da atuação, da cenografia, do figurino e da iluminação. Costumava dizer que o seu trabalho estava na busca do sentido real que um dramaturgo buscava dar às suas peças. E como missão, entendia que o que fazia dar o melhor ao público.

Detalhes de suas histórias, contados pelo próprio e por grandes mestres, da criação à técnica teatral brasileira, estão disponíveis no documentário Flávio Rangel - O Teatro na Palma da Mão (Biscoito Fino, preço médio R$ 47,90). Dirigido por Paola Prestes, ele não se atém a revisitar o mais criativo período do teatro brasileiro, mas põe em discussão os caminhos da arte hoje.

"O teatro ao vivo é imperecível. Uma força catalisadora, um evento social. Única arte de invenção, disposição e elocução, que do momento que se abre a cortina até o final, é feita diante do público", declarou o diretor.

No olho do furacão dos anos 1960 a 1980, quando o ofício teatral ganhou uma linguagem brasileira, e muitas vezes teve que lutar contra a ditadura militar, Rangel esteve nas principais montagens. Entre elas, Gimba, O Pagador de Promessas, Liberdade Liberdade e Cyrano de Bergerac. "É uma geração que entregou ao Brasil o seu teatro", conta a atriz Nathália Timberg no vídeo. Participando deste período, o diretor teve ao seu lado pessoas como Gianfrancesco Guarnieri, Antunes Filho, Juca de Oliveira, Fernanda Montenegro e Fernando Torres.

O cenografista Cyro Del Nero, que esteve presente em grande parte da vida e obra de Rangel, fala um pouco sobre o hábito que ele tinha de se debruçar nos livros na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, quando era jovem. "A troca não era de informação, era de formação. Cada um de nós estava se formando."

Nascido em Tabapuã, cidade do interior de São Paulo, Rangel chegou à Capital ainda menino. Com a morte do pai, teve de trabalhar para contribuir em casa. A Falecida, peça de Nelson Gonçalves, foi um momento crucial de sua vida. Fez com que ele se apaixonasse pelo teatro e dedicasse a vida ao ofício. "Passava horas na biblioteca, folheando páginas. Era minha iniciação teórica."

Da teoria, passou a frequentar os bastidores do teatro, a discutir sua função social. Logo, foi chamado a dirigir alguns trabalhos. O primeiro deles a convite do autor Manoel Carlos. Então, dirigiu Gimba (1959), texto de Gianfrancesco Guarnieri. Com a montagem, Guarnieri ganhou, no Festival das Nações, em Paris, prêmio de obra popular. Por um voto, Rangel perdeu o de direção para o já falecido Bertolt Brecht.

Na volta para o Brasil, foi convidado por todas as companhias teatrais. Naquela época, segundo ele, existiam sete ou oito companhias estáveis no Brasil. Escolheu o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), sendo o primeiro brasileiro a dirigi-lo.No documentário, há o retrospecto de personagens e períodos. Entre esses momentos, está o depoimento de Paulo Autran (1922-2007). O ator conta que começou no teatro por exibicionismo, vaidade. Seu desejo era de grandes papéis, não importando o que eles diziam. Com Liberdade Liberdade, texto de autoria de Rangel e Millôr Fernandes, adquiriu a consciência do papel social do trabalho. "Costumo dizer que trabalhei com teatro em três frentes: a inconsciente, a consciente dele como arte e depois como social, em prol da cultura, a mais importante de todas", contou o ator.

Outro momento é uma belíssima homenagem a Cacilda Becker (1921-1969), que sofreu um derrame cerebral após a apresentação de Esperando Godot, e caiu nos braços de Walmor Chagas, seu marido, que também atuava, e Rangel, entrando em coma e vindo a morrer 38 dias depois. Ariclê Perez (1943-2006), viúva do diretor, também ganha homenagem.

O diretor Antunes Filho, que ainda está na ativa, protagoniza um dos momentos em que traz o teatro de Rangel para discutir as produções da atualidade: "Falta a generosidade que o Flávio tinha com o público. Temos que recuperar a espiritualidade da arte. Não deixar o público à mercê de artistas que só estão lá para ser aplaudidos."

Em outro momento, reunidos no restaurante Gigetto, famosa casa paulistana que era ponto de encontro de Rangel com seus amigos, um grupo, entre eles o diretor José Renato, fala de uma característica muito importante do teatro, que foi trabalhada com afinco por Rangel e até hoje é o que move a paixão pela dramaturgia fazer teatro, mesmo com todas as dificuldades: "A resistência do teatro se formou em grupo, pessoas que trabalham juntas e formam uma linguagem teatral. Digamos que existam 180 companhias de teatro em São Paulo, e 80 delas sejam boas, é a paixão dessa gente, que hoje tem de batalhar para pôr o espetáculo em cartaz e conseguir público que deixa o teatro vivo."

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