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'Mãe do Sepultura' comemora 18 anos da banda


Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC

07/12/2002 | 17:23


 Vânia Cavalera O filho mais novo de Vânia Cavalera chegou à maioridade. Depois de criar Max Cavalera, 33 anos; Igor, 32, e Kira, 25, a 'dama do rock' celebrou, na última semana, o aniversário de 18 anos do Sepultura, grupo brasileiro que teve a mais bem-sucedida carreira fora do país.

Não há qualquer exagero em ceder-lhe o título de 'mãe do Sepultura'. Igor e Max já reconheceram publicamente a importância do apoio de Vânia, que deu de ombros a todas as regras da sociedade e a todos os palpites da família para apostar – e embarcar – no sonho dos meninos.

Assim como toda mãe, Vânia encarou momentos bons e ruins. Tomou champanhe com os rapazes quando eles assinaram contrato com a gravadora Roadrunner e anos depois enfrentou imprensa e opinião pública ao responder, por livre e espontânea vontade, pela morte de um fã do Sepultura em um show na praça Charles Müller, em São Paulo.

Em 1997, mais um baque: Max e Igor se desentendem profissionalmente e também deixam de se falar. A mãe, com a mesma positividade que ajudou a pavimentar o caminho do Sepultura, ainda hoje acredita na reconciliação dos Cavalera: “Tudo tem sua hora”, diz.

Enquanto isso, o Sepultura de Igor lança o CD comemorativo Revolusongs, que sai também com uma tiragem limitada em vinil, e Max, nos Estados Unidos, divulga em turnê o terceiro álbum do Soulfly, 3. Vânia, hoje chamada de “a dama do rock”, ajudou a fortalecer outros filhos adotivos: as 27 bandas que já participaram do seu projeto Rota do Rock, em andamento , em Santo André.

 Vânia com Max e Igor no começo da carreira da banda Sonho - 'Mãe do Metal', 'dama do rock', 'doidona'. Já tentaram usar as mais diferentes expressões para definir Vânia Cavalera. Nenhuma delas é suficiente para abarcar essa mulher que é, ao mesmo tempo, zelosa e liberal, forte e delicada, avó e amiga da “galera”, e sem a qual o Sepultura talvez sequer existisse.

Vânia poderia ter sido uma dona de casa comum. Ex-modelo casada com o funcionário do Consulado Italiano Graziano Cavalera, de repente viu sua vida mudar quando ficou viúva, em 1979. Seu marido tinha apenas 40 anos quando sofreu enfarto em um passeio, diante de Max e Igor.

Com os três filhos, mudou-se para a casa da mãe, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte. A partir daí, assumiu uma postura invejável, daquelas que poucos pais saberiam adotar sem errar na medida: tornou-se amigona de todas as horas. Até parou de trabalhar para poder acompanhar tudo de perto.

“Era mais válido ficar em casa e saber quem estava entrando lá, com quem andavam, o que faziam”, diz Vânia, que alimentava preocupações comuns de qualquer pai, como envolvimento com drogas e assédio sexual.

O diferencial foi justamente a forma de vivenciar tudo aquilo. Vânia não fez proibições. Os meninos escutavam música no último volume, usavam calças rasgadas (cujo visual era produzido pela própria mãe) e tinham permissão para receber quem bem entendessem. Depois de 1984, quando o Sepultura começou, então, a casa dos Cavalera virou um verdadeiro ponto de encontro.

“Eles conheciam as meninas no Rio ou em São Paulo e falavam para irem lá em casa. E elas iam”, diz, divertindo-se. “E cada vez a travessa de macarrão ia ficando maior”.

Recorde foi quando, em 1986, a banda fez seu primeiro show no Mineirinho e cerca de 60 metaleiros lotaram sua casa. Vânia gargalha só de lembrar. “Chegou uma hora que disse que para dormir, nem ia fechar portas ou janelas. Tinha gente em todo o chão, debaixo da mesa, na sala, na cozinha, na varanda. E o João Gordo dormiu na banheira”, diz.

Mas ela se diverte mesmo em se lembrar do famoso 'churrasco da lama', que acontecia uma vez por ano. O grande momento da festa era quando os meninos cavavam um buraco no quintal da casa e punham água dentro. “Eles iam jogando as pessoas uma a uma, e daí a pouco tinha uma montanha de gente lá dentro. Depois, imagine, minha casa tinha de ser lavada com mangueira! E nessas limpezas a gente acabava encontrando um ou outro esquecido, dormindo embaixo da cama, por exemplo”.

Filhos e amigos dos Cavalera tinham tudo para adorar a supermãe. Mas para ela, que também enfrentava um mundão fora de casa, não era fácil. “Me viam como doida, maluca, mas isso nunca me incomodou. Até hoje, por causa do meu visual, me falam isso!”.

Como doida mesmo ela foi tachada quando chamou os filhos a decidir entre investir seriamente no Sepultura ou seguir os estudos. Claro que eles ficaram com a primeira opção. “Eles contavam comigo, e eu sabia que ia dar certo”, diz.

Foi por causa da carreira deles que, de uma hora para outra, Vânia alugou um apartamento em São Paulo. “Eles precisavam ficar no lugar onde as coisas aconteciam e amaram a mudança”, afirma. Mais tarde, o mesmo ocorreu quando os Estados Unidos se tornaram estratégicos para a banda.

Um fato curioso foi quando Vânia, por conta de sua religião (à época, a umbanda) permaneceu em reclusão por 31 dias, ficou careca e usou roupa e turbante brancos por seis meses, sem poder, por exemplo, se sentar num sofá durante esse período. O esforço lhe dava o direito de fazer um pedido. “Pedi para eles fazerem sucesso”. Coincidência ou não, logo depois assinaram com a Roadrunner.

No primeiro grande show da banda em São Paulo (na praça Charles Müller, em 1991), um espectador foi morto. “Aquilo foi coisa de gangues, já tinham o alvo. Nem briga houve”, afirma. Como na manhã seguinte o grupo embarcaria para a primeira turnê no exterior, Vânia assumiu voluntariamente o posto de porta-voz do Sepultura. “Expliquei que aquilo foi um fato isolado e iniciei uma campanha com o slogan ‘rock sempre, violência nunca’’’, diz, enquanto mostra dois adesivos da época, com a frase.

Nos sete anos em que morou nos Estados Unidos, teve vida de fã. A essa altura a nora Glória (mulher de Max) era a empresária. Foi uma fase ótima, e Vânia viajava o país acompanhando os shows dos filhos. “Quando faltava o mínimo para o topo definitivo, eles se separaram”. Hoje, Max (que mora em Phoenix, Estados Unidos) e Igor (em Santo André) não se falam. Só têm notícias um do outro por intermédio da mãe.

Vânia até fez um cartão de Natal com a foto dos netos com um texto que prega a união, para mandar aos filhos. “É um apelo”, diz, em tom confessional. De Max, há Zyon, de 10 anos, e Igor, de 5. De Igor, Joanna, 6, Raíssa, 2 e Ícaro, que nasceu no último 23 de novembro; e Carissa, 3, filha de Kira.

“Ainda hoje sei que vai chegar o momento da união da família. Isso vem primeiro. Quero que meus netos se conheçam. Depois vem a banda”, diz. “Tenho muito orgulho deles. Como homens, como pais de família e como músicos, que nunca se deixaram abalar”, afirma. Vânia acredita neles e na banda da mesma maneira que nos tempos de BH. E, se fosse o caso, faria tudo de novo.



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