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Suspensão de aulas e atuação em atividades essenciais fizeram com que pais tivessem que se afastar dos filhos


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

09/05/2020 | 00:14


As medidas de contenção da pandemia de Covid-19 e a adoção de quarentena e isolamento físico fizeram com que algumas famílias vissem o convívio aumentar. Para outras, no entanto, este período se mostrou desafiador e fez com que a única solução fosse o afastamento, ainda que temporário, de pais e filhos.
A farmacêutica Adriana Lima Farias Sanchez, 36, trabalha no Hospital Nardini, em Mauá, e o filho Lucas, 2, frequenta escola na mesma cidade. A família mora em Santo André e antes da quarentena, Adriana ia e voltava de Mauá diariamente com a criança. Com a suspensão das aulas em 23 de março e o fim das férias do pai, o ferramenteiro André Sanchez Pereira, 40, Lucas passou a ficar durante a semana com a avó materna, em São Paulo.

Adriana tem deixado o filho domingo à noite na casa da mãe e só o busca na sexta-feira. “Não temos como fazer diferente. Sabemos que minha mãe é idosa e considerada grupo de risco, mas não temos alternativa”, lamentou. A farmacêutica relatou que no primeiro dia o estranhamento do filho foi grande, mas que, ao longo dos dias, vem se adaptando. Apesar disso, o bebê tem se recusado a falar com os pais por meio de chamadas de vídeos.

“Se minha mãe insiste, ele chora, diz que não quer. Talvez se sinta rejeitado ou esteja com bronca”, afirmou. “A gente tenta entender o lado dele. Acho que sente que o abandonaram”, concluiu. Adriana afirmou que muitas vezes se sente chateada com a situação, mas que, neste momento, ou a família se adapta ou ela desiste do emprego.

A atendente Daniela Alves Viana, 33, atua na área de manutenção de elevadores. Sem poder parar de trabalhar presencialmente, ela e o marido decidiram que, para evitar contaminar a filha Heloisa, 1 ano e 11 meses, Daniela passou a dormir no trabalho. Desta forma, a bebê tem passado a maior parte do tempo com o pai, Walter Pereira da Silva, que atua como motorista de aplicativo, mas está sem trabalhar pela crise. “A gente tem feito assim para evitar pegar ônibus e aumentar os riscos de contaminação”, explicou.

Daniela relatou que tem sido dolorido passar apenas os dias de folga com a filha e perder, de alguma forma, o desenvolvimento dela, mas que entende que isso ocorre para evitar mal maior. “Quando meu marido precisa sair ela fica na minha mãe. Se eu ficar indo e voltando poderíamos passar para ela”, completou. “Quando estamos juntas ela fica super manhosa e todo dia que eu tenho que voltar ao trabalho acabo chorando.”

A fisioterapeuta Camila Manini atua na rede municipal de saúde de Santo André e desde a suspensão das aulas, as duas filhas, Isabella, 11, e Manuella, 6, estão na casa da avó materna. “Como elas estão perto do meu trabalho, todos os dias quando eu volto, paro o carro na frente do prédio, elas saem na varanda e a gente se vê”, relatou. Apenas aos domingos a mãe fica com as filhas. “Tomo banho, limpo totalmente o carro e fico sempre de máscara”, detalhou. “A saudade e a distância são muito difíceis. Sabemos que é só por um tempo e é o que nos consola”, finalizou. 

Especialistas dão dicas para manter vínculo

A distância física entre pais e filhos não precisa significar o enfraquecimento dos vínculos, defendem especialistas na área de psicologia e educação infantil. A educadora Janine Rodrigues destacou que é importante considerar o sofrimento das crianças, que também têm medo e insegurança.

“A ansiedade não tem idade e pode acontecer com bebês, adolescentes e adultos. A partir dessa observação, a gente vai avaliar qual é a melhor forma de se manter o relacionamento com as crianças”, pontou Janine, que lembrou ser possível usar a tecnologia para este momento. “Quando a gente está ansioso, estressado, procura alguém que ama, os pais, um amigo, para as crianças isso também é importante”, completou. A educadora salientou a importância de manter rotina, com horários definidos para alimentação, brincadeiras e até a ligação dos pais. “Isso dá mais segurança a eles”, pontuou.

Psicóloga e coach infantil, Thaís Ribas salientou que este é momento desafiador para todos, mas que pode ser usado para reconectar famílias, mesmo que virtualmente, aproximando pais e filhos por meio do afeto, aprimorando o diálogo e contribuindo para o desenvolvimento saudável da criança. “O vínculo entre pais e filhos é a relação mais importante para o desenvolvimento de uma pessoa, pois proporciona segurança, melhora a autoestima e reforça a certeza de quem são as pessoas com quem ela pode contar”, afirmou.

Thaís aconselha pais e mães que estão distantes a não se culpar. “Evitar a autocobrança, a tortura por não estar perto ou não dar atenção que os filhos mereceriam”, afirmou. “É importante conversar com as crianças, mesmo aquelas menores, para explicar o que está acontecendo”, completou.
Professora do curso de psicologia da Anhanguera Pirituba, Simone Soares alertou que uma falha comum causada por sentir culpa é deixar os filhos fazerem o que quiserem, o que pode atrapalhar o processo educacional. “É importante não deixar de mentalizar que o afastamento físico de um ente querido é temporário e isso irá passar; desse modo, fica mais leve superar as dificuldades para todos.”



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Suspensão de aulas e atuação em atividades essenciais fizeram com que pais tivessem que se afastar dos filhos

Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

09/05/2020 | 00:14


As medidas de contenção da pandemia de Covid-19 e a adoção de quarentena e isolamento físico fizeram com que algumas famílias vissem o convívio aumentar. Para outras, no entanto, este período se mostrou desafiador e fez com que a única solução fosse o afastamento, ainda que temporário, de pais e filhos.
A farmacêutica Adriana Lima Farias Sanchez, 36, trabalha no Hospital Nardini, em Mauá, e o filho Lucas, 2, frequenta escola na mesma cidade. A família mora em Santo André e antes da quarentena, Adriana ia e voltava de Mauá diariamente com a criança. Com a suspensão das aulas em 23 de março e o fim das férias do pai, o ferramenteiro André Sanchez Pereira, 40, Lucas passou a ficar durante a semana com a avó materna, em São Paulo.

Adriana tem deixado o filho domingo à noite na casa da mãe e só o busca na sexta-feira. “Não temos como fazer diferente. Sabemos que minha mãe é idosa e considerada grupo de risco, mas não temos alternativa”, lamentou. A farmacêutica relatou que no primeiro dia o estranhamento do filho foi grande, mas que, ao longo dos dias, vem se adaptando. Apesar disso, o bebê tem se recusado a falar com os pais por meio de chamadas de vídeos.

“Se minha mãe insiste, ele chora, diz que não quer. Talvez se sinta rejeitado ou esteja com bronca”, afirmou. “A gente tenta entender o lado dele. Acho que sente que o abandonaram”, concluiu. Adriana afirmou que muitas vezes se sente chateada com a situação, mas que, neste momento, ou a família se adapta ou ela desiste do emprego.

A atendente Daniela Alves Viana, 33, atua na área de manutenção de elevadores. Sem poder parar de trabalhar presencialmente, ela e o marido decidiram que, para evitar contaminar a filha Heloisa, 1 ano e 11 meses, Daniela passou a dormir no trabalho. Desta forma, a bebê tem passado a maior parte do tempo com o pai, Walter Pereira da Silva, que atua como motorista de aplicativo, mas está sem trabalhar pela crise. “A gente tem feito assim para evitar pegar ônibus e aumentar os riscos de contaminação”, explicou.

Daniela relatou que tem sido dolorido passar apenas os dias de folga com a filha e perder, de alguma forma, o desenvolvimento dela, mas que entende que isso ocorre para evitar mal maior. “Quando meu marido precisa sair ela fica na minha mãe. Se eu ficar indo e voltando poderíamos passar para ela”, completou. “Quando estamos juntas ela fica super manhosa e todo dia que eu tenho que voltar ao trabalho acabo chorando.”

A fisioterapeuta Camila Manini atua na rede municipal de saúde de Santo André e desde a suspensão das aulas, as duas filhas, Isabella, 11, e Manuella, 6, estão na casa da avó materna. “Como elas estão perto do meu trabalho, todos os dias quando eu volto, paro o carro na frente do prédio, elas saem na varanda e a gente se vê”, relatou. Apenas aos domingos a mãe fica com as filhas. “Tomo banho, limpo totalmente o carro e fico sempre de máscara”, detalhou. “A saudade e a distância são muito difíceis. Sabemos que é só por um tempo e é o que nos consola”, finalizou. 

Especialistas dão dicas para manter vínculo

A distância física entre pais e filhos não precisa significar o enfraquecimento dos vínculos, defendem especialistas na área de psicologia e educação infantil. A educadora Janine Rodrigues destacou que é importante considerar o sofrimento das crianças, que também têm medo e insegurança.

“A ansiedade não tem idade e pode acontecer com bebês, adolescentes e adultos. A partir dessa observação, a gente vai avaliar qual é a melhor forma de se manter o relacionamento com as crianças”, pontou Janine, que lembrou ser possível usar a tecnologia para este momento. “Quando a gente está ansioso, estressado, procura alguém que ama, os pais, um amigo, para as crianças isso também é importante”, completou. A educadora salientou a importância de manter rotina, com horários definidos para alimentação, brincadeiras e até a ligação dos pais. “Isso dá mais segurança a eles”, pontuou.

Psicóloga e coach infantil, Thaís Ribas salientou que este é momento desafiador para todos, mas que pode ser usado para reconectar famílias, mesmo que virtualmente, aproximando pais e filhos por meio do afeto, aprimorando o diálogo e contribuindo para o desenvolvimento saudável da criança. “O vínculo entre pais e filhos é a relação mais importante para o desenvolvimento de uma pessoa, pois proporciona segurança, melhora a autoestima e reforça a certeza de quem são as pessoas com quem ela pode contar”, afirmou.

Thaís aconselha pais e mães que estão distantes a não se culpar. “Evitar a autocobrança, a tortura por não estar perto ou não dar atenção que os filhos mereceriam”, afirmou. “É importante conversar com as crianças, mesmo aquelas menores, para explicar o que está acontecendo”, completou.
Professora do curso de psicologia da Anhanguera Pirituba, Simone Soares alertou que uma falha comum causada por sentir culpa é deixar os filhos fazerem o que quiserem, o que pode atrapalhar o processo educacional. “É importante não deixar de mentalizar que o afastamento físico de um ente querido é temporário e isso irá passar; desse modo, fica mais leve superar as dificuldades para todos.”

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