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Pai dos pobres, mãe dos ricos

A gasolina sobe na refinaria, mas não sobe nos postos (ou sobe bem pouquinho). Boa notícia? Não: esta é a falsa boa notícia


Carlos Brickmann

04/05/2008 | 00:00


A gasolina sobe na refinaria, mas não sobe nos postos (ou sobe bem pouquinho). Boa notícia? Não: esta é a falsa boa notícia. O governo decidiu, num ano eleitoral, subsidiar o consumo de gasolina, renunciando a parte dos impostos que lhe seriam devidos. Com isso, estimula o transporte individual e contribui com dinheiro (público) para o trânsito engarrafado e a poluição do ar. O governo decidiu também aumentar o diesel. Com isso, prejudica os ônibus, o transporte coletivo, levando ao encarecimento das passagens ou ao sucateamento da frota; e torna mais caro o transporte de mercadorias, o que vai se refletir nos preços. Traduzindo: beneficiou a classe média e prejudicou os pobres.

Em economia, nem sempre o óbvio é o correto. Quando os juros sobem, sobem também os custos, mas o efeito final é reduzir o aumento de preços. Segurar o preço da gasolina parece bom, mas não é: estimula artificialmente o consumo de um produto importado e poluente.

Aumentar a gasolina é sempre impopular, especialmente num ano eleitoral. Quem consome gasolina é diretamente atingido e pode reagir com seu voto. Já o prejuízo à massa da população com o aumento do diesel é indireto. Não é fácil associar o custo crescente do transporte ao aumento do feijão, nem a alta das passagens, daqui a algumas semanas, à subida do diesel. Prejudica-se mais gente, prejudica-se gente mais vulnerável, sem o risco de perder seu voto. É feio; é covarde.

E, pior do que isso, nossa história prova que essas manobras nunca dão certo.

GUERRA PAULISTA
Amanhã é dia quente: o Diretório Municipal do PSDB de São Paulo se reúne para aclamar Geraldo Alckmin como candidato a prefeito. Terão uma surpresa: comandado pelo secretário municipal Walter Feldman, de impecável história tucana, o PSDB favorável à aliança em torno de Gilberto Kassab, DEM, candidato à reeleição, vai exigir que o nome de Alckmin seja aprovado em convenção. E numa convenção ninguém ganha no grito.

GUERRA NA FRONTEIRA 1
Hoje é dia quente na Bolívia: o Departamento de Santa Cruz de la Sierra, o Estado mais rico do país, vota o Estatuto da Autonomia, que o transforma, na prática, num país independente, mantendo porém frouxos laços com La Paz. Se Santa Cruz aprovar a autonomia, será logo seguido por outros departamentos próximos à fronteira com o Brasil, Pando, Tarija e Beni. O presidente Evo Morales já disse que não permitirá esta autonomia. E tem apoio venezuelano.

GUERRA NA FRONTEIRA 2
Sempre houve tensão entre os bolivianos da planície (descendentes de europeus) e os habitantes dos Andes (descendentes de indígenas quíchuas e aymaras). A tensão explodiu quando o presidente Evo Morales fez votar uma nova Constituição, que lhe deu plenos poderes: os parlamentares favoráveis ao presidente se reuniram dentro de um quartel, e os oposicionistas não puderam nem entrar.

GUERRA NA FRONTEIRA 3
A Embaixada venezuelana no Brasil (por que no Brasil?) divulgou manifesto pedindo aos "bolivarianos", sejam lá quem forem, que defendam a Bolívia contra "o grande capital". Diz que o grande capital já tomou o Acre da Bolívia. Detalhe: o Acre, boliviano mas povoado por brasileiros, foi entregue pela Bolívia a um grupo de empresas americanas e britânicas, o Bolivian Syndicate. Os acreanos se rebelaram e o território foi entregue ao Brasil, pacificamente, pelo Tratado de Petrópolis, proposto pelo Barão de Rio Branco. Em troca, a Bolívia recebeu territórios, dinheiro (dois milhões de libras esterlinas) e a promessa brasileira, cumprida, de construir uma estrada de ferro na região, a Madeira-Mamoré.

CAMBALHOTAS
A petista Marta Suplicy no Primeiro de Maio da Força Sindical. O DEM Gilberto Kassab no Primeiro de Maio da CUT. Não devia ter sido ao contrário?

JULGANDO POR SI
O coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Antônio Dantas, tem pelo menos dois motivos para dizer que baiano tem quociente de inteligência baixo. 1- Ele é baiano; deve achar que os outros são como ele. 2- Foi nomeado por baianos; deve achar que os outros são como eles. Quanto aos que ocupam o topo da elite, não deve conhecê-los. A formiga que mora na casa de Dorival Caymmi também não tem consciência de que divide o domicílio com um gênio.

AS BOBAGINHAS
Mas não foi só Dantas que disse coisas de que um dia se envergonhará. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, atribuiu a tendência de alta da inflação "ao feijãozinho que todo mundo come". Claro: se ninguém comer, o preço dos alimentos cai a zero. Mas, antes que isso aconteça, vamos às causas reais da alta: o aço, os fertilizantes, as sementes. O feijão subiu muito (o arroz também), mas a culpa é em parte dos produtos consumidos na agricultura, que subiram 30% em um ano.



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Pai dos pobres, mãe dos ricos

A gasolina sobe na refinaria, mas não sobe nos postos (ou sobe bem pouquinho). Boa notícia? Não: esta é a falsa boa notícia

Carlos Brickmann

04/05/2008 | 00:00


A gasolina sobe na refinaria, mas não sobe nos postos (ou sobe bem pouquinho). Boa notícia? Não: esta é a falsa boa notícia. O governo decidiu, num ano eleitoral, subsidiar o consumo de gasolina, renunciando a parte dos impostos que lhe seriam devidos. Com isso, estimula o transporte individual e contribui com dinheiro (público) para o trânsito engarrafado e a poluição do ar. O governo decidiu também aumentar o diesel. Com isso, prejudica os ônibus, o transporte coletivo, levando ao encarecimento das passagens ou ao sucateamento da frota; e torna mais caro o transporte de mercadorias, o que vai se refletir nos preços. Traduzindo: beneficiou a classe média e prejudicou os pobres.

Em economia, nem sempre o óbvio é o correto. Quando os juros sobem, sobem também os custos, mas o efeito final é reduzir o aumento de preços. Segurar o preço da gasolina parece bom, mas não é: estimula artificialmente o consumo de um produto importado e poluente.

Aumentar a gasolina é sempre impopular, especialmente num ano eleitoral. Quem consome gasolina é diretamente atingido e pode reagir com seu voto. Já o prejuízo à massa da população com o aumento do diesel é indireto. Não é fácil associar o custo crescente do transporte ao aumento do feijão, nem a alta das passagens, daqui a algumas semanas, à subida do diesel. Prejudica-se mais gente, prejudica-se gente mais vulnerável, sem o risco de perder seu voto. É feio; é covarde.

E, pior do que isso, nossa história prova que essas manobras nunca dão certo.

GUERRA PAULISTA
Amanhã é dia quente: o Diretório Municipal do PSDB de São Paulo se reúne para aclamar Geraldo Alckmin como candidato a prefeito. Terão uma surpresa: comandado pelo secretário municipal Walter Feldman, de impecável história tucana, o PSDB favorável à aliança em torno de Gilberto Kassab, DEM, candidato à reeleição, vai exigir que o nome de Alckmin seja aprovado em convenção. E numa convenção ninguém ganha no grito.

GUERRA NA FRONTEIRA 1
Hoje é dia quente na Bolívia: o Departamento de Santa Cruz de la Sierra, o Estado mais rico do país, vota o Estatuto da Autonomia, que o transforma, na prática, num país independente, mantendo porém frouxos laços com La Paz. Se Santa Cruz aprovar a autonomia, será logo seguido por outros departamentos próximos à fronteira com o Brasil, Pando, Tarija e Beni. O presidente Evo Morales já disse que não permitirá esta autonomia. E tem apoio venezuelano.

GUERRA NA FRONTEIRA 2
Sempre houve tensão entre os bolivianos da planície (descendentes de europeus) e os habitantes dos Andes (descendentes de indígenas quíchuas e aymaras). A tensão explodiu quando o presidente Evo Morales fez votar uma nova Constituição, que lhe deu plenos poderes: os parlamentares favoráveis ao presidente se reuniram dentro de um quartel, e os oposicionistas não puderam nem entrar.

GUERRA NA FRONTEIRA 3
A Embaixada venezuelana no Brasil (por que no Brasil?) divulgou manifesto pedindo aos "bolivarianos", sejam lá quem forem, que defendam a Bolívia contra "o grande capital". Diz que o grande capital já tomou o Acre da Bolívia. Detalhe: o Acre, boliviano mas povoado por brasileiros, foi entregue pela Bolívia a um grupo de empresas americanas e britânicas, o Bolivian Syndicate. Os acreanos se rebelaram e o território foi entregue ao Brasil, pacificamente, pelo Tratado de Petrópolis, proposto pelo Barão de Rio Branco. Em troca, a Bolívia recebeu territórios, dinheiro (dois milhões de libras esterlinas) e a promessa brasileira, cumprida, de construir uma estrada de ferro na região, a Madeira-Mamoré.

CAMBALHOTAS
A petista Marta Suplicy no Primeiro de Maio da Força Sindical. O DEM Gilberto Kassab no Primeiro de Maio da CUT. Não devia ter sido ao contrário?

JULGANDO POR SI
O coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Antônio Dantas, tem pelo menos dois motivos para dizer que baiano tem quociente de inteligência baixo. 1- Ele é baiano; deve achar que os outros são como ele. 2- Foi nomeado por baianos; deve achar que os outros são como eles. Quanto aos que ocupam o topo da elite, não deve conhecê-los. A formiga que mora na casa de Dorival Caymmi também não tem consciência de que divide o domicílio com um gênio.

AS BOBAGINHAS
Mas não foi só Dantas que disse coisas de que um dia se envergonhará. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, atribuiu a tendência de alta da inflação "ao feijãozinho que todo mundo come". Claro: se ninguém comer, o preço dos alimentos cai a zero. Mas, antes que isso aconteça, vamos às causas reais da alta: o aço, os fertilizantes, as sementes. O feijão subiu muito (o arroz também), mas a culpa é em parte dos produtos consumidos na agricultura, que subiram 30% em um ano.

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