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Montanha de lixo esconde distúrbio


Paula Nunes
Ana Carolina Negrão
Especial para o Diário

30/07/2006 | 03:48


Eles mobilizaram os noticiários com a estranha mania de percorrer as grandes metrópoles durante a madrugada e recolher das ruas tudo o que acreditam ser útil. O material é levado para casa, onde vão se acumulando, acumulando...Até virar problema de saúde pública. O lixo é chamariz de ratos e insetos, transmissores de doenças. Os casos têm características similares e trazem ao debate dois distúrbios de comportamento que podem justificar hábitos tão incomuns: a Síndrome de Diógenes e o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

O primeiro, segundo o professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC, Sérgio Baldassin, se manifesta em casos de depressão, transtornos de personalidade, demência ou psicoses e acomete principalmente os idosos. “A síndrome não é uma doença, apenas um conjunto de sinais e sintomas. A tampinha de algo maior”, explica.

Diógenes foi um filósofo grego, discípulo de Sócrates (479 a.C.), que pregava a ausência absoluta de apego aos bens materiais. O ato de colecionar objetos funciona para essas pessoas como um alívio de ansiedade. É a falta de discernimento dos colecionadores que emite o sinal: algo está errado.

Quando a fissura em juntar objetos aparece em jovens, o que explica este tipo de comportamento é o TOC. O psiquiatra Baldassin dá uma dica para diferenciar uma simples mania de uma patologia mais grave. “Quando o hábito passa a ocupar a maior parte do dia e influencia a vida das pessoas que estão em volta, é hora de buscar ajuda”, diz.

A recusa de tratamento é muito comum nos acometidos por esses distúrbios. Aí é preciso a intervenção de um serviço social para impedir que novamente níveis alarmantes sejam atingidos.

Intervenção – Na última quinta-feira, o Semasa (Serviço de Saneamento Ambiental de Santo André) foi acionado pela Defesa Civil para retirar uma caçamba com capacidade para 6 m³ de material da casa do aposentado Rubens Marcos Debatin, 51 anos. Filho de alemães, ele nasceu em Minas Gerais e veio jovem tentar a vida na Região Metropolitana de São Paulo. Passou por grandes empresas como a Lion, Sharp e Nestlé, onde foi funcionário por longos anos. De analista de software, acabou virando motivo de chacota no prédio em que mora, num condomínio popular do Jardim Santo André.

Portador do vírus HIV, foi abandonado pela família em 2003 e passou a percorrer a cidade durante a noite. O resultado foram vizinhos enfurecidos e uma operação conjunta com o setor de Assistência Social e Departamento de Vigilância Sanitária para recolher tudo o que Rubens havia reunido no apartamento de 90m².

Um ex-sargento da Polícia Militar aposentado tem toneladas de lixo amontoados na residência no Jardim Sônia Maria, em Mauá. Não bastasse as montanhas de entulho, ele ainda cria cachorros e galinhas. Algumas pessoas, para ludibriá-lo, oferecem quinquilharias ao aposentado, que as compra. Ele recusou-se a conversar com a reportagem e a Prefeitura não informou se tomará alguma providência sobre o caso.

Ano passado, duas senhoras, mãe e filha, viraram manchete no Diário. Isso porque a dupla reuniu dentro de casa 20 toneladas de lixo. Helena Rosa Zolyomi, 91, e Helena Zolyomi, 64, lotaram a moradia com milhares de sacos de material orgânico e inorgânico. Dividiam o ambiente com incontáveis ratos e baratas. Alimentavam-se de comida estragada. O pedido de socorro aos órgãos públicos foi feito pelos próprios parentes.

“Quando a pessoa passa a descuidar do próprio corpo, da higiene pessoal e do lugar onde mora, esquece da vaidade e se desliga do mundo, uma intervenção dos órgãos públicos é imprescindível”, avalia Baldassin. Mas o psiquiatra ressalta que é preciso uma avaliação clínica para receber o tratamento adequado.

Recordista – A espanhola radicada no Brasil, Violeta Martinez, 78, juntou durante 20 anos mais de 250 toneladas de lixo num sobrado de 600 m² no Itaim Bibi, bairro nobre da Capital paulista. É impressionante a marca de objetos acumulados. A maior ofensa para dona Violeta foi chamarem suas coisas de lixo. Para ela, são apenas coisas bonitas que vê espalhadas pela rua. Como cresceu em meio à Guerra Civil Espanhola (1936-1939), disse que passou fome durante a infância e que lhe dói o coração ver frutas no chão depois da feira. “Elas não vêem nada de errado no que fazem”, afirma o psiquiatra Baldassin.

Outra a ganhar as páginas dos jornais na semana passada foi uma portuguesa de 64 anos, Adília de Jesus. Moradora do bairro Sapopemba, zona Leste de São Paulo, a aposentada deu trabalho para a subprefeitura de Vila Prudente. Estima-se que a senhora tenha acumulado 70 toneladas de lixo. Foram necessários mais de dez caminhões para retirar todo o material e a operação durou três dias. 


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Montanha de lixo esconde distúrbio

Paula Nunes
Ana Carolina Negrão
Especial para o Diário

30/07/2006 | 03:48


Eles mobilizaram os noticiários com a estranha mania de percorrer as grandes metrópoles durante a madrugada e recolher das ruas tudo o que acreditam ser útil. O material é levado para casa, onde vão se acumulando, acumulando...Até virar problema de saúde pública. O lixo é chamariz de ratos e insetos, transmissores de doenças. Os casos têm características similares e trazem ao debate dois distúrbios de comportamento que podem justificar hábitos tão incomuns: a Síndrome de Diógenes e o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

O primeiro, segundo o professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC, Sérgio Baldassin, se manifesta em casos de depressão, transtornos de personalidade, demência ou psicoses e acomete principalmente os idosos. “A síndrome não é uma doença, apenas um conjunto de sinais e sintomas. A tampinha de algo maior”, explica.

Diógenes foi um filósofo grego, discípulo de Sócrates (479 a.C.), que pregava a ausência absoluta de apego aos bens materiais. O ato de colecionar objetos funciona para essas pessoas como um alívio de ansiedade. É a falta de discernimento dos colecionadores que emite o sinal: algo está errado.

Quando a fissura em juntar objetos aparece em jovens, o que explica este tipo de comportamento é o TOC. O psiquiatra Baldassin dá uma dica para diferenciar uma simples mania de uma patologia mais grave. “Quando o hábito passa a ocupar a maior parte do dia e influencia a vida das pessoas que estão em volta, é hora de buscar ajuda”, diz.

A recusa de tratamento é muito comum nos acometidos por esses distúrbios. Aí é preciso a intervenção de um serviço social para impedir que novamente níveis alarmantes sejam atingidos.

Intervenção – Na última quinta-feira, o Semasa (Serviço de Saneamento Ambiental de Santo André) foi acionado pela Defesa Civil para retirar uma caçamba com capacidade para 6 m³ de material da casa do aposentado Rubens Marcos Debatin, 51 anos. Filho de alemães, ele nasceu em Minas Gerais e veio jovem tentar a vida na Região Metropolitana de São Paulo. Passou por grandes empresas como a Lion, Sharp e Nestlé, onde foi funcionário por longos anos. De analista de software, acabou virando motivo de chacota no prédio em que mora, num condomínio popular do Jardim Santo André.

Portador do vírus HIV, foi abandonado pela família em 2003 e passou a percorrer a cidade durante a noite. O resultado foram vizinhos enfurecidos e uma operação conjunta com o setor de Assistência Social e Departamento de Vigilância Sanitária para recolher tudo o que Rubens havia reunido no apartamento de 90m².

Um ex-sargento da Polícia Militar aposentado tem toneladas de lixo amontoados na residência no Jardim Sônia Maria, em Mauá. Não bastasse as montanhas de entulho, ele ainda cria cachorros e galinhas. Algumas pessoas, para ludibriá-lo, oferecem quinquilharias ao aposentado, que as compra. Ele recusou-se a conversar com a reportagem e a Prefeitura não informou se tomará alguma providência sobre o caso.

Ano passado, duas senhoras, mãe e filha, viraram manchete no Diário. Isso porque a dupla reuniu dentro de casa 20 toneladas de lixo. Helena Rosa Zolyomi, 91, e Helena Zolyomi, 64, lotaram a moradia com milhares de sacos de material orgânico e inorgânico. Dividiam o ambiente com incontáveis ratos e baratas. Alimentavam-se de comida estragada. O pedido de socorro aos órgãos públicos foi feito pelos próprios parentes.

“Quando a pessoa passa a descuidar do próprio corpo, da higiene pessoal e do lugar onde mora, esquece da vaidade e se desliga do mundo, uma intervenção dos órgãos públicos é imprescindível”, avalia Baldassin. Mas o psiquiatra ressalta que é preciso uma avaliação clínica para receber o tratamento adequado.

Recordista – A espanhola radicada no Brasil, Violeta Martinez, 78, juntou durante 20 anos mais de 250 toneladas de lixo num sobrado de 600 m² no Itaim Bibi, bairro nobre da Capital paulista. É impressionante a marca de objetos acumulados. A maior ofensa para dona Violeta foi chamarem suas coisas de lixo. Para ela, são apenas coisas bonitas que vê espalhadas pela rua. Como cresceu em meio à Guerra Civil Espanhola (1936-1939), disse que passou fome durante a infância e que lhe dói o coração ver frutas no chão depois da feira. “Elas não vêem nada de errado no que fazem”, afirma o psiquiatra Baldassin.

Outra a ganhar as páginas dos jornais na semana passada foi uma portuguesa de 64 anos, Adília de Jesus. Moradora do bairro Sapopemba, zona Leste de São Paulo, a aposentada deu trabalho para a subprefeitura de Vila Prudente. Estima-se que a senhora tenha acumulado 70 toneladas de lixo. Foram necessários mais de dez caminhões para retirar todo o material e a operação durou três dias. 

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