Sabores & Saberes

Há clareza científica de que o emagrecimento traz melhoras robustas em vários aspectos orgânicos, protegendo-nos de inúmeras outras patologias, notadamente o diabetes tipo 2 e tudo o que dele decorre.
E não por menos, vivemos a era dos medicamentos antiobesidade, representados principalmente por injetáveis que vêm avançando desde 2006, quando foi lançado o Byetta, e, mais recentemente, são prescritos sob os nomes Wegovy e Mounjaro, em um progresso evolutivo que parece estar longe de ser encerrado.
Existe um grande movimento para descobrir mais vantagens dessas substâncias, além das proporcionadas pela perda ponderal, bem como investigar transtornos decorrentes de seu uso. A relação com o envelhecimento é uma dessas avaliações que têm sido pautadas, seja para retardá-lo, seja para influenciá-lo negativamente.
Estudo publicado em 19 de maio deste ano na Nature Communications demonstrou que a Semaglutida (Wegovy, Ozempic) pode reduzir o ritmo do envelhecimento biológico em cerca de 9% e muito é interrogado quanto aos mecanismos que patrocinariam essa ocorrência.
Estes fármacos reduzem significativamente a inflamação crônica de baixo grau, presente na obesidade e uma das principais causas do envelhecimento acelerado, além de otimizar o metabolismo da glicose, revertendo o estresse oxidativo e reduzindo o risco de eventos cardiovasculares. Talvez essas ações justifiquem o suposto potencial antienvelhecimento destes remédios, identificado no supracitado estudo; contudo, tais benefícios ocorreriam também independentemente do emagrecimento?
De outro lado, essa classe medicamentosa é acusada de induzir ou acelerar a perda de massa muscular e de aumentar o risco de osteoporose precoce e de fraturas decorrentes da perda de massa óssea, comprometimento que agrava ainda mais o processo de envelhecimento.
Ainda que muitas pesquisas sejam necessárias neste campo, é possível que estes fármacos estejam inaugurando uma era em que a sua ação protetora contra a deterioração celular ganhe protagonismo real. Esse benefício pode se mostrar consequente, mas também independente do emagrecimento. Assim, o desafio passaria a ser a busca por um caminho para utilizar esse potencial de retardo do envelhecimento sem pagar o preço da fragilidade musculoesquelética.
É esperar para ver!
Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia.
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