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Carros podem passar a ter 'Luz de Obrigado'; saiba quando

Projeto de novo sinal luminoso nos carros busca criar a cultura da paz e permitir que motoristas agradeçam gentilezas no trânsito para reduzir conflitos

Vagner Aquino
09/07/2026 | 10:00
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FOTO: Arquivo pessoal/Fernando Val
FOTO: Arquivo pessoal/Fernando Val Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Em uma época em que se fala tanto sobre gentileza, empatia e bom relacionamento no trabalho, com a família, amigos e pessoas em geral, por que não transferir essa cultura da paz para o trânsito? Essa é a ideia dos atores Marcos Winter e Thiago Paschoa, que há décadas defendem a implantação da chamada "Luz de Obrigado". O projeto pretende criar uma nova forma de comunicação entre motoristas por meio de um sinal luminoso que tem o intuito de, basicamente, agradecer manifestações de cordialidade nas vias.

A proposta surge em um momento de preocupação crescente com a segurança viária no Brasil. Em 2024, o país registrou 37.150 mortes no trânsito, o maior número dos últimos oito anos. Além das vítimas fatais e dos milhares de feridos, especialistas apontam que esse ambiente também é marcado por estresse, impaciência, conflitos e episódios de agressividade que afetam diariamente milhões de pessoas nas ruas e estradas.

Nesse contexto, os idealizadores da "Luz de Obrigado" defendem que a mobilidade urbana não deve ser discutida apenas sob a ótica da infraestrutura, da fiscalização ou da tecnologia embarcada. Para eles, a forma como as pessoas se relacionam ao volante também influencia a experiência de condução. Trocando em miúdos, quanto mais educação, mais segurança.

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Como funciona?

A "Luz de Obrigado" foi concebida para funcionar como uma ferramenta simples de comunicação positiva. O sistema prevê a instalação de um dispositivo luminoso, em tom azul, independente das sinalizações obrigatórias do veículo, permitindo que o motorista transmita mensagens de cortesia sem recorrer a recursos improvisados, como o acionamento do pisca-alerta, o uso da buzina ou o famoso sinal de "joia", que obriga o motorista a colocar o braço para fora do carro.

O diferencial da proposta está, justamente, na simplicidade. Em vez de múltiplos sinais ou códigos complexos - que nem todo mundo entende - no momento de agradecer um ato no trânsito, o dispositivo, de linguagem universal, teria um único tipo de acionamento. De acordo com a proposta, pode ser um ícone na central multimídia ou mesmo um botão no painel ou no volante.

Cabe pontuar, ainda, que o dispositivo pode ser utilizado em diferentes contextos. Assim, o gesto educado caracteriza-se como agradecimento, pedido de desculpas, autorização de passagem ou apenas demonstração de reconhecimento da atitude de outro condutor. A lógica por trás disso é estimular comportamentos positivos sem impor obrigações ou punições. "Queremos oferecer uma ferramenta capaz de tornar visível uma atitude que já existe entre muitos motoristas, mas que atualmente não possui um canal próprio e padronizado de comunicação", pondera Winter.

Começo de tudo

De acordo com o ator, lá no começo dos anos 2000, quando passou a observar com mais atenção a dinâmica dos congestionamentos, percebeu que atos de gentileza aconteciam com frequência no trânsito, mas raramente eram retribuídos de maneira clara. "Isso me deu um estalo e, a partir daí, surgiu a ideia da ''''Luz de Obrigado''''. Afinal, por que a gente não pode ter um acessório no carro exclusivamente para agradecer ou se desculpar? Isso evitaria tantos incidentes, acidentes e perdas materiais e humanas", conta Winter sobre a criação do primeiro protótipo.

Winter relembra que instalou uma lâmpada de LED em seu Volkswagen Fusca - amarelo, ano 1977, que herdou de seu pai há mais de quatro décadas. Desse modo, o dispositivo passou a funcionar como uma espécie de mensagem luminosa de agradecimento para outros motoristas - mesmo que muitos ainda não saibam do que se trata.

Com o passar dos anos, a iniciativa ganhou novo enredo. A entrada de Thiago Paschoa, que é amigo de Winter, no projeto - em 2025 - contribuiu para aprofundar estudos técnicos, regulatórios e de viabilidade da proposta. Isso, em síntese, aproximou a ideia do setor automotivo e de especialistas em inovação.

A proposta também prevê que futuras regulamentações definam parâmetros técnicos para padronização do sistema. Isso vai permitir com que diferentes fabricantes desenvolvam suas próprias soluções dentro de critérios estabelecidos pelos órgãos competentes.

Segundo os responsáveis pelo projeto, o dispositivo poderia ser integrado ao conjunto óptico dos veículos, mas sem interferir em equipamentos obrigatórios, como luzes de freio, lanternas e setas. "Não tem complexidade nenhuma, não tem custo absurdo. Diante de tantas tecnologias, como ainda não termos uma sinalização de agradecimento, de pedido de perdão? (as montadoras) Não devem pensar só em lucro imediato. Até porque, quando (o projeto) for aprovado e virar lei, será item obrigatório. É uma loucura que as fabricantes não olhem isso com os nossos olhos. Como pode ter um presente desses nas mãos e não aproveitar? Essa solução é, inclusive, ligada à medicina do trânsito. É tanto que temos o apoio da ABRAMET (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego)", pontua Winter.

Apoiadores

O projeto, que já tem protocolo de patente no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), ganhou peso institucional por meio de moção de apoio da ABRAMET, assinada pelo presidente da entidade, Dr. Antonio Meira Júnior. A associação, em síntese, está construindo um Projeto de Lei para que a "Luz de Obrigado" passe a ser item obrigatório para todas as montadoras no país.

A ABRAMET considera que fatores emocionais, cognitivos e comportamentais exercem influência direta sobre a segurança viária e reconhece o potencial educativo da proposta. No entendimento da associação, elementos como estresse, impulsividade e intolerância estão associados ao aumento de conflitos. "A iniciativa conta com o apoio da associação em razão de seu valor conceitual e educativo, por estar alinhada aos princípios da promoção da saúde, da segurança viária e da valorização do fator humano como elemento central para a redução de sinistros e a preservação da vida", explica José Montal, diretor da ABRAMET.

"Neste momento, o projeto segue avançando por meio do diálogo com parlamentares, lideranças e diferentes instâncias governamentais, buscando ampliar o debate técnico e institucional sobre a proposta. A expectativa é que esse processo permita reunir os diversos atores envolvidos, como órgãos de trânsito, especialistas, indústria automotiva e sociedade civil, em torno de uma iniciativa voltada à promoção de uma cultura de maior respeito e cooperação no trânsito", enfatiza Montal.

O apoio da ABRAMET ao projeto refere-se ao mérito conceitual e educativo da proposta, pois o gesto simbólico de agradecimento pode funcionar como um incentivo à boa convivência. Eventuais avanços regulatórios ou tecnológicos, cabe pontuar, devem seguir o rito próprio das instâncias competentes, sempre fundamentados em evidências técnicas e científicas.

E as montadoras?

Os criadores da "Luz de Obrigado" explicam que, para torná-la realidade, o caminho ideal é conseguir a viabilidade técnica regulatória para que as fabricantes desenvolvam a ideia. No entanto, as montadoras - que poderiam desempenhar papel decisivo para que o Projeto de Lei ganhe força e avance no Congresso Nacional - não têm dado qualquer apoio.

Como responsáveis pelo desenvolvimento e comercialização dos veículos, as fabricantes têm capacidade para contribuir com o debate e influenciar a adoção do projeto. Por isso, o Diário procurou algumas montadoras que atuam no país para entender a viabilidade da "Luz de Obrigado". 

A princípio, entramos em contato com as fabricantes consideradas por muitos anos como "as quatro grandes", no Brasil. Fiat e General Motors não responderam às nossas solicitações. Ford e Volkswagen, no entanto, preferiram não se manifestar neste momento, pois acompanharão o andamento do tema e, caso avance, prometeram voltar a conversar. Com o protagonismo das chinesas no Brasil, procuramos BYD, GAC e GWM. Porém, nenhuma apresentou um posicionamento oficial sobre o tema até o fechamento desta edição.

Nos bastidores, representantes de algumas marcas admitiram discutir o assunto em caráter reservado. Porém, as manifestações ocorrem exclusivamente em off, sem posicionamento oficial. A postura demonstra a cautela do setor diante de um tema que envolve não só os setores de engenharia e design, mas também normas de trânsito e eventuais mudanças na legislação. 

"Tem montadora que consegue projetar até desenhos nas lanternas, refletir logotipo no chão, mas são incapazes de apoiar uma ferramenta com potencial mundial em segurança, educação e comportamento no trânsito. Eu quero que saia do papel, que seja ensinado na autoescola, e o Brasil pode deixar esse legado para o mundo, dar esse exemplo. A empresa que for pioneira vai ser lembrada para o resto da vida, certamente", desabafa Winter.

Paschoa aponta, ainda, que a evolução tecnológica dos automóveis trouxe recursos sofisticados de assistência a condução, conectividade e automação, mas ainda não criou uma forma universal para expressar gratidão ou cordialidade entre pessoas que compartilham o mesmo espaço viário. "Mais do que um novo equipamento automotivo, a ''Luz de Obrigado'', que pode ser ativada ao simples toque de um botão, busca abrir espaço para uma reflexão sobre convivência", diz.

Estrago vai além do estresse

Um trânsito em desarmonia vai muito além do estresse. Isso gera impacto humano, pois os acidentes acarretam consequências econômicas expressivas. Estudos estimam que os custos associados aos sinistros de trânsito alcancem dezenas de bilhões de reais por ano. Afinal, leva-se em conta despesas médicas, perda de produtividade e outros efeitos.

"Sob a perspectiva da Medicina do Tráfego, iniciativas que estimulam comportamentos positivos entre os condutores podem contribuir para um ambiente viário mais seguro e saudável. A ''''Luz de Obrigado'''' representa um estímulo simples de comunicação positiva entre motoristas, capaz de incentivar a cortesia. As ciências comportamentais demonstram que pequenas intervenções, conhecidas como "nudges" ou "empurrões" comportamentais, podem favorecer escolhas mais seguras sem recorrer à imposição de regras", explica Montal.

Cabe deixar claro que a "Luz de Obrigado" não pretende substituir medidas tradicionais de segurança, como fiscalização, educação de trânsito, engenharia viária ou aperfeiçoamento da legislação. De acordo com Paschoa, "a proposta quer atuar em uma dimensão complementar, a das relações humanas construídas diariamente entre motoristas", enfatiza.

Em um ambiente tão associado à pressa, ao estresse e à disputa por espaço, a iniciativa, que eventualmente entrará em vigor assim que virar lei, aposta na possibilidade de transformar um gesto simples em símbolo de respeito. A intenção é que a cultura da paz, tão debatida em diferentes áreas da vida cotidiana, também encontre lugar entre semáforos, avenidas e rodovias, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

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