Literatura O livro de estreia 'Na espera áspera', de Neira Galvêz, aborda brain rot, precarização do trabalho e esgotamento emocional com ironia e deboche político
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Publicado pela Kotter Editorial, o livro de estreia Na espera áspera aborda brain rot, precarização do trabalho e esgotamento emocional com ironia e deboche político.
“Diante desse cenário, somente o escárnio e o registro oral desbocado, transmitido por meio de uma ótima noção estética, parecem dar conta. E é exatamente o que este conjunto faz”
Trecho do texto orelha, assinada por João Lucas Dusi
Na espera áspera, poemário de estreia do poeta e músico Neira Galvêz, reflete sobre a contemporaneidade de forma mordaz ao abordar o cansaço crônico, as contradições políticas e as inquietações humanas alimentadas pelo capitalismo tardio. Publicada pela Kotter Editorial com paratextos assinados pelo escritor e editor João Lucas Dusi e quarta capa pela professora Vitória Bressan Marcilio, a obra explora a ironia, o cinismo e o deboche para defender a premissa de que existe um esvaziamento quase inevitável das utopias cotidianas.
A angústia existencial da nossa época é exposta a partir de temas como a uberização do trabalho, a mercantilização da fé e a herança histórica de um Brasil escravocrata, moralista e corrupto. Nesse sentido, a professora e especialista em língua portuguesa Vitória considera que a primeira antologia do poeta se concentra em temáticas que abordam o Brasil sob uma perspectiva franca, cuja identificação faz surgir aos leitores um constrangimento singular que só ocorre quando encaramos a verdade, “ou quem sabe o espelho”.
Chama atenção a forma como Neira Galvêz trabalha o tema do excesso de telas e de informação e o colapso da saúde mental como um sintoma: a alienação digital aparece em poemas como "brain rot" e "diário noturno para os sociólogos do futuro" e expõe como certos hábitos nas redes sociais mascaram a insônia e o medo do amanhã.
O diagnóstico traçado pelo autor é pessimista. “Me sinto como uma testemunha apática do final dos tempos, com a necessidade de comunicar isso”. Mas, apesar do niilismo, o livro não se encerra no desalento. Existe na obra a busca por um recomeço e por "gestos mínimos de resistência e afeto em ruínas". Por isso, o autor brinca que seus poemas podem ser vistos como um pedido de socorro talvez inócuo para os humanos do futuro. “Apesar de todas as coisas terríveis que relato e diagnostico, considero que é preciso, de alguma forma, encontrar um meio de trabalhar nossa habilidade de ter e dar esperança”, diz.
Neira Galvêz compõe um livro de poemas como uma carta aos arqueólogos do futuro
Neira Gâlvez nasceu em 1994 em São Bernardo. Poeta e compositor, publica suas experiências poéticas em sua página do Instagram desde 2017. Tem três álbuns lançados com sua banda, LAVOLTA, além de ter obras gravadas com proeminentes nomes da música underground brasileira como 1LUM3 e Vivian Kuczynski.
Testemunha da decadência de uma região que já foi símbolo da industrialização do país, filho e neto de exilados políticos da ditadura de Pinochet, o autor transita entre o mundo corporativo e a criação artística, tensionando os limites entre a linguagem burocrática e a poesia. Sua escrita, de teor crítico e rebelde, ecoa as vozes de suas influências poéticas como Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Alberto Pucheu e Claudia Roquette-Pinto, mesclando rigor formal com uma inquietação política e existencial. Seus versos, muitas vezes cortantes, interrogam o presente sem perder de vista a memória, seja íntima ou coletiva.
Além da poesia dos autores já citados, Neira se considera muito influenciado pelo mundo da música e seus letristas. Para ele, Clemente Nascimento, Arnaldo Antunes, Renato Russo e Marcelo Nova são excelentes expoentes do bom e velho rock’n’roll brasileiro. Além deles, ele faz questão de ressaltar aos rappers Mano Brown, Rappin Hood, Mv Bill e BNegão, e sobretudo, Marcelo Yuka, como suas referências.
Enquanto preparava o projeto, o autor percebeu que ele queria que seus poemas soassem como uma carta aos arqueólogos do futuro a respeito do fim de uma época. O tom que ele buscou dar para a obra é de um desabafo debochado e pessimista pós-pandêmico, mas sem perder de vista a necessidade de tentar encontrar uma nova perspectiva.
Sua experiência como músico e compositor tornou o processo de escrita do livro um pouco mais fácil: “Ter criado dezenas de músicas nos últimos anos, me ajudou a exercitar o trabalho com as palavras, sobretudo na hora de editar, apagar, sacrificar, frases, em prol do espaço e métrica, sem perder o objetivo e sentido”, completa.
Futuros projetos
O autor está trabalhando em um álbum solo conceitual, que pretende chamar de “Língua morta”, por tratar a indignação como uma espécie de língua em extinção nos nossos tempos. Além disso, ele confessa estar tentando praticar um pouco de prosa.
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