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Crítica: Em ‘Backrooms: Um Não-Lugar’, a mente é o labirinto do medo

Estreia da A24 dirigida por Kane Parsons transforma o fenômeno da internet em um estudo perturbador sobre claustrofobia, isolamento e traumas do passado

Loïk Marques
Especial para o Diário
27/05/2026 | 16:00
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Antes de ser um filme, as Backrooms foram uma fotografia anônima publicada no 4chan em 2019. Uma imagem de carpete amarelado, luz fluorescente e corredores que não levavam a lugar nenhum. Kane Parsons, então com 16 anos, pegou essa premissa, fez uma série de curtas no YouTube em um programa 3D gratuito que acumulou 70 milhões de visualizações, o que rendeu a ele uma contratação pela A24 para transformar a experiência em longa-metragem: Backrooms: Um Não-Lugar. O resultado é um dos filmes de terror mais inquietantes do ano.

Desde o primeiro minuto, a atmosfera já instalou seu desconforto. Os corredores distorcidos, a câmera tremida e as salas geometricamente impossíveis criam uma sensação de perigo iminente, como se as paredes pudessem respirar. O filme não apela para sustos baratos: a aposta são takes longos, silêncios ensurdecedores e a claustrofobia de passar 1.000 vezes pelo mesmo corredor sem saber se é o mesmo espaço. Às vezes, as paredes mudam de lugar. Portas se fecham. Passos são ouvidos sem origem. E há uma dúvida crescente que trilha todo o filme: “Seria melhor estar sozinho aqui?”

Um dos grandes acertos da direção é misturar o found footage com linguagem cinematográfica tradicional, transformando o recurso num elemento narrativo. Quando a câmera muda de perspectiva, o medo muda de textura, é como se o espectador fosse transferido para outro pesadelo dentro do mesmo pesadelo. 

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No centro da trama estão Clark (Chiwetel Ejiofor) e Mary (Renate Reinsve), dois personagens com traumas profundos e personalidades radicalmente opostas, unidos por uma relação que vai sendo colocada à prova à medida que as Backrooms trazem à tona tudo que ambos evitaram a vida inteira. Os dois em performances estelares, Renate com um controle e uma calma invejável, enquanto Clark está a ponto de ruir desde o começo do longa. 

Parsons escolhe caminhos narrativos distintos para cada um, é como se pudéssemos entrar visualmente na mente de apenas um deles, enquanto do outro precisamos acreditar, ou não, nos relatos fragmentados e contraditórios. O que começa como uma exploração registrada em vídeo se transforma numa busca desesperada, e Mary, ao mergulhar naqueles corredores atrás de Clark, descobre que a linha entre cuidar do outro e enfrentar a si mesma é muito mais tênue do que qualquer sessão de terapia poderia revelar. Katie (Lukita Maxwell) e Bobby (Finn Bennett) são funcionários que acabam ajudando na terrível descoberta de Clark. 

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O filme tem um controle impressionante do que mostrar e do que esconder, e quando mostrar cada coisa. Há respiros, seja numa fala inesperada ou numa situação tão bizarra que arranca um riso nervoso. Mas o peso é constante, e esses momentos existem apenas para apertar o nó com mais força logo depois.

A trilha sonora é de um minimalismo inquietante, e tem uma camada extra para quem conhece o artista britânico The Caretaker, cujo trabalho consiste em gravar músicas dos anos 1930 e 1940 e deteriorá-las progressivamente, criando uma atmosfera de memória em colapso. Seu álbum mais célebre, Everywhere at the End of Time (2016), simula a deterioração mental de um paciente com Alzheimer em seis estágios, uma referência que dialoga diretamente com os temas do filme. A homenagem à capa do estágio final da obra musical, que aparece de forma sutil, quase imperceptível, destinada a quem já percorreu esse território sonoro.

Quem conhece O Iluminado vai reconhecer os corredores impossíveis, a loucura e a claustrofobia do Hotel Overlook. Quem já jogou The Stanley Parable vai perceber as nuances de se explorar um escritório que não parece ter fim.  Quem leu Casa de Folhas, de Mark Z. Danielewski, e seu famoso Registro Navidson – um relato de uma casa cujas dimensões internas são maiores do que as externas – vai sentir o mesmo tipo de vertigem. Backrooms bebe dessas referências sem se esconder delas.

Não é necessário conhecer a lore das Backrooms para aproveitar o filme. Funciona perfeitamente como um terror de labirinto com camadas psicológicas, e quem não souber da origem vai sair querendo pesquisar. Para os fãs do projeto original, a sequência inicial já é uma grande homenagem, densa de referências e afeto pelo material de origem.

O filme de Parsons é uma carta de amor aos fãs das Backrooms, aos inúmeros jogos e vídeos que foram feitos a partir de uma mesma sensação: a de sentir que já sonhou com aquele lugar, mesmo que nunca tenha entrado nele. Backrooms: Um Não-Lugar é do tipo que fica na cabeça por dias, em um loop tão infinito quanto os próprios corredores.

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Direção: Kane Parsons | Produção: A24 | Distribuição no Brasil: Imagem Filmes | Classificação: 16 anos | Estreia: 28 de maio de 2026




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