Bombou A creepypasta que nasceu de uma foto anônima em 2019 agora vira filme, e revela o que realmente nos apavora no século 21
FOTO: Divulgação

Imagine atravessar uma parede e acordar em um lugar que parece um escritório abandonado. Carpete amarelado e úmido sob os pés, luz fluorescente zumbindo no teto, corredores idênticos se repetindo para sempre, sem janelas, sem saídas, sem ninguém. Você está nas Backrooms. E o pior: talvez não exista saída.
O que parece a sinopse de um filme de terror é, na verdade, a descrição de uma das lendas digitais mais impactantes da última década. As Backrooms surgiram em maio de 2019, em uma thread do 4chan sobre "imagens perturbadoras". A fotografia original, provavelmente tirada em um escritório vazio ou loja em reforma, ganhou uma legenda que a transformou em mitologia instantânea: "Se você não tiver cuidado e 'sair da realidade' nos lugares errados, você vai parar nas Backrooms."
De fórum anônimo ao YouTube, e ao cinema
O que começou como um simples relato acompanhado de uma imagem desconfortável rapidamente se espalhou pela internet como creepypasta. Fóruns, wikis e comunidades passaram a discutir a ideia, acrescentando detalhes, teorias e relatos fictícios de sobreviventes, qualquer pessoa podia contribuir. Surgiram níveis, entidades e regras de sobrevivência, construindo um universo colaborativo alimentado por milhares de anônimos.
O salto definitivo veio em 2022. Kane Parsons, aos 16 anos e conhecido online como Kane Pixels, publicou no YouTube um curta-metragem de 9 minutos feito em um programa gratuito de animação 3D. O vídeo acumula cerca de 70 milhões de visualizações, e ao longo de 20 envios, Parsons soma 300 milhões de visualizações globais, sendo contratado pela A24 ainda aos 17 anos para dirigir um longa-metragem, tornando-se, aos 20, o diretor mais jovem da história do estúdio.
O filme Backrooms: Um Não-Lugar estreia em 28 de maio e transforma um fenômeno nascido em fóruns e consolidado no YouTube em uma das apostas de terror do estúdio responsável por Hereditário e Midsommar.
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Por que um corredor vazio nos apavora?
A pergunta que ninguém faz,mas todos sentem, é: o que exatamente assusta nas Backrooms? Não há monstros explícitos, não há jump scares, não há sangue. O horror não vem do que aparece, vem do que nunca muda. Sem janelas, sem saídas identificáveis, sem diferenciação entre corredor e sala, o espaço produz desorientação não por ser labiríntico, mas por ser monótono.
A explicação está na nossa própria biologia. "Nosso cérebro é uma máquina de previsão. Ele gosta de padrões claros: uma escola deve ter crianças; um shopping deve ter pessoas e luzes. Quando vemos esses locais vazios ou com arquiteturas impossíveis, ocorre um erro de predição nas nossas áreas de processamento visual e emocional. O cérebro entra em um estado de hipervigilância porque não consegue categorizar rapidamente se aquele ambiente é seguro ou perigoso", explica Rachel Sette, professora de Psicologia do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte.
Esse desconforto tem nome: espaços liminares, zonas entre estados, onde as regras normais não se aplicam. É o mesmo princípio que torna inquietantes corredores de hospital vazios, shoppings fechados ou piscinas cobertas desertas.
O terror que fala sobre nós
Os Backrooms são a estetização do ambiente de trabalho desumanizado: carpete, luz artificial, corredores sem fim, ausência de natureza ou de humanidade visível. Para uma geração que cresceu ouvindo que cubículos e open offices seriam o horizonte natural da vida adulta, esse espaço não é apenas perturbador mas também familiar. E a familiaridade é o que o torna insuportável.
Para Rachel Sette, o fenômeno é também um sintoma do nosso tempo. "O labirinto infinito das Backrooms é uma metáfora perfeita para o esgotamento mental. É o medo de caminhar sem parar e nunca chegar a lugar nenhum, uma ansiedade muito comum na vida adulta contemporânea. No fundo, explorar as Backrooms digitais ajuda a digerir o medo das Backrooms da vida real: as incertezas sobre o futuro e a solidão da existência moderna", afirma a professora.
As Backrooms não possuem origem clara nem regras totalmente estabelecidas, são descritas apenas como sombras no fim de um corredor, ruídos que ecoam em salas vazias ou silhuetas que desaparecem quando alguém tenta focar o olhar. Essa indefinição alimenta a tensão constante: o perigo pode estar presente mesmo quando não é visto.
O terror das Backrooms, portanto, não está nas paredes amarelas. Está na sensação de que a mente pode trair a realidade a qualquer momento, e de que, talvez, parte de nós já conheça aquele lugar..
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