Produção Empreendedoras têm desafio para manter lucro e especialista diz que produtos mais em conta podem prejudicar marca
FOTO: Denis Maciel/DGABC

As altas nos preços de insumos, especialmente o chocolate, têm pressionado o valor final da produção de ovos caseiros de Páscoa. Confeiteiras do Grande ABC relatam aumentos de até 20% e dificuldades para manter a margem de lucro sem repassar o reajuste de forma integral ao consumidor. Especialista alerta que escolher opções mais baratas pode repercutir na qualidade.
Na Doce Terapia, no bairro Santa Maria, em São Caetano, a confeiteira Ana Carolina de Souza, 30 anos, que atua na área há uma década, afirma que os custos subiram entre 12% e 15% em relação a 2025, com destaque para o chocolate. “E se comparar 2024 com agora, praticamente dobrou. Eu pagava cerca de R$ 90 em dois quilos. Hoje, pago R$ 170”, disse.
Ana diz que não conseguiu repassar todos os aumentos ao consumidor, mesmo após fazer reajuste de 13% no valor dos produtos que vende. “Eu prefiro ter uma leve alta do que trocar de marca. A qualidade é prioridade. Mas a margem (de lucro) fica menor.”
Situação semelhante é relatada pela empreendedora Ana Paula Dall Anese, 28, da Dilua Confeitaria, no bairro Oswaldo Cruz, em São Caetano. Segundo ela, a produção teve acréscimo de 20%, puxada pelo cacau. “O chocolate está cada vez mais caro. Foi o que mais impactou. No ano passado, eu comprava dois quilos por R$ 130. Agora, tenho que gastar R$ 180 pela mesma quantidade”, destacou.
Com as mudanças, Ana Paula decidiu aumentar até R$ 5 por produto. “Poucas pessoas pediram desconto neste ano, mas quando pedem mais quantidade, acabam buscando opções mais baratas”, finalizou.
O economista e professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) Jorge Ferreira dos Santos Filho relatou que o cenário atual ainda reflete os efeitos da crise do cacau entre 2024 e 2025. “O alimento chegou a quase US$ 12,9 mil por tonelada. Tivemos algumas quebras de safra, menor produtividade em grandes produtores africanos e alguns eventos climáticos extremos. Mesmo com a queda em 2026, a produção ainda utiliza estoques comprados naquele período mais caro. Priorizar a redução de desperdício e trabalhar sob encomenda pode ajudar na economia. Já reduzir a qualidade dos itens pode trazer um dano à marca.”
A confeiteira Ellen Cristina Pereira de Assis Lima, 36, da Ellen Confeitaria, que trabalha com vendas na Páscoa desde os 15 anos, relata um cenário mais complexo, com oscilações que não se restringem aos ingredientes. “As embalagens também subiram. Eu comprava por R$ 4 e agora está R$ 7. As formas aumentaram de R$ 9 para R$ 14”, disse a moradora da Vila Homero Thon, em Santo André.
Além do preço, ela aponta mudanças na qualidade de insumos como o leite condensado, que impacta diretamente a produção. “Os populares estão vindo com menos gordura. Para dar o ponto certo no recheio, a gente precisa usar versões mais caras.”
De acordo com Ellen, o preço final dos produtos teve reajuste médio de 20%, mas nem sempre isso se traduz em maior lucratividade.“No ovo de colher, por exemplo, a gente teve que reduzir a margem para não assustar o cliente.”
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