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Morador de São Bernardo coleciona HQs há 50 anos e possui 3.000 exemplares

Material do colecionador é avaliado em R$ 30 mil; acervo tem raridades como a revista número quatro do Tio Patinhas, da década de 1960

21/02/2026 | 08:00
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Denis Maciel/DGABC
Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Amigo para todas as horas. É dessa forma que o auditor fiscal e morador de São Bernardo, Antônio Henrique dos Santos, 64 anos, define sua relação com as histórias em quadrinhos. Em uma estante com 3.000 revistas, o colecionador mantém sua paixão viva há cinco décadas.

A primeira publicação dessa categoria no Brasil foi em 1869, denominada As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, de autoria do cartunista Angelo Agostini.

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O são-bernardense contou que começou sua trajetória de leituras de quadrinhos em 1967, aos 6 anos, após uma prima apresentar algumas obras. Na época, o auditor lia as revistas do Mickey, Recruta Zero e outros personagens icônicos. Contudo, foi em 1972 que começou de fato a colecionar as HQs, sendo as primeiras do Tio Patinhas e do Pato Donald.

O professor do IFSP (Instituto Federal de São Paulo) e pesquisador do Observatório de História em Quadrinhos da USP (Universidade de São Paulo), Gazy Andraus, definiu as HQs como uma linguagem única que conta uma narrativa por meio de desenhos.

E justamente pelos diferentes traços Santos começou a se apaixonar por esse universo. “Aprendi a ler devido aos quadrinhos e, se hoje gosto de ler outras coisas, foi por conta deles. Você acaba se identificando com algumas coisas. Me ajudou em todos os sentidos, quando estava deprimido eu lia, quando queria me divertir também”, comentou o colecionador.

Para o professor Gazy Andraus, os quadrinhos podem ser o primeiro contato de uma criança com a leitura e isso ajuda no desenvolvimento educacional. “Ela compreende melhor a expressão humana vendo os desenhos. O processo criativo da criança aumenta, tornando-se também alfabetizada iconicamente. Além disso, a leitura de HQs e gibis desde a infância faz com que nossa inteligência seja mais amplificada do que só o uso de textos lineares”, pontuou o pesquisador.

Sobre as histórias, Santos afirmou que o personagem Pato Donald tem um espaço especial em seu coração, por identificar questões sociais no personagem. “Coleciono de todos os tipos, mas ele é imbatível. Gosto mais das histórias antigas, porque as novas mudaram muito o enredo. O Pato Donald é o personagem mais humano da Disney, é invejoso, bondoso, bravo, alegre, tem todas as características”, disse.

O colecionador destacou que sua coleção está avaliada em R$ 30 mil. A título de comparação, o preço médio na Tabela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) de um veículo Ford Ka 2013 é de aproximadamente R$ 26 mil.

“As mais raras são do Tio Patinhas número quatro (1965), Conan número 7 (1988) e uma do Pato Donald de 1959. Tenho a primeira edição do Doutor Estranho de 1970, mas comprei usada e depois percebi que havia rabiscos nas páginas. Se tivesse inteira, valia R$ 2.000”, complementou Santos.

CONTEXTO SOCIAL

O pesquisador do Observatório de História em Quadrinhos da USP, Gazy Andraus, afirma que a capacidade das histórias em quadrinhos de atrair o público mais jovem contribui para que elas retratem e exemplifiquem o contexto social, promovendo também um processo de politização.

“Toda expressividade artística reflete o ser social humano. Nos contos do Asterix, por exemplo, os estudiosos dizem que os criadores utilizam uma metáfora da resistência francesa contra a hegemonia da língua inglesa. Logo, os quadrinhos vão refletir as questões políticas que acometem o autor”, disse Andraus.

O docente ainda usou o exemplo do super-herói Capitão América, criado na Segunda Guerra Mundial no intuito de enaltecer os soldados norte-americanos. “Uma capa que ficou muito famosa foi o herói dando um soco no ditador Adolf Hitler. Então, ele foi de fato criado para motivar os soldados”, complementou o professor.

O pesquisador reforçou que o Brasil teve quase um papel pioneiro no lançamento das HQs e narrativas em desenhos. Nesse contexto, as revistas e os famosos gibis, com destaque para a Turma da Mônica, tiveram um papel social e educacional na vida de muitos brasileiros. 

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