Histórico Além da coleta de assinaturas no Grande ABC, crianças e militantes estiveram em Brasília em 1989; estatuto celebra 35 anos em 2025
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Há 35 anos, em 1990, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) era instituído no Brasil, após longa pressão popular. Esse processo foi uma extensão da mobilização da sociedade civil ocorrida entre 1986 e 1988, que resultou na inserção do artigo 227 na Constituição Brasileira, que passou a reconhecer as crianças e adolescentes como sujeitos de direitos protegidos pela lei.
Assim como em outros episódios ocorridos na década de 1980, como as greves sindicais e as lutas pela rede-mocratização do País, o Grande ABC teve ampla participação na mobilização pela garantia e reconhecimento dos direitos dos mais vulneráveis. Nesse período, a região sofreu com o aumento de crianças e adolescentes em situação de rua e também com a crescente violência contra esse grupo.
Motivado por esses dois fatores, e pela organização nacional em relação ao tema, dois importantes agentes, a pastora metodista Zeni de Lima Soares e o professor Luiz Roberto Alves, da Universidade Metodista, e alguns alunos da instituição, realizaram a partir de 1987 um trabalho com as crianças em situação de rua – iniciativa que deu início ao Projeto Meninos e Meninas de Rua, que continua até hoje em atuação na Rua Jurubatuba, em São Bernardo.
O coordenador do movimento social de São Bernardo, Marco Antônio Silva, o Markinhus, e o ativista da defesa dos direitos das crianças, Ademar Carlos de Oliveira, contam que, tanto para o processo constituinte quanto para construção do ECA, foram realizadas no Grande ABC mesas de conversa, coleta de assinaturas e caravanas até Brasília com os jovens em situação de rua.
Essas atividades foram promovidas em diversos municípios, com destaque para São Bernardo, nas praças Lauro Gomes e da Matriz, assim como na Praça do Carmo, na Rua Oliveira Lima e na Estação Santo André. Em Mauá, os encontros ocorreram na Praça da Bíblia e em frente à parada da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), em Diadema, na Praça Castelo Branco e em São Caetano, na Estação de mesmo nome.
“Tanto em relação ao processo constituinte, quanto para elaboração do ECA, se destacou a participação das próprias crianças e adolescentes em atividades lúdicas sobre seus direitos e necessidades, além de denúncias de violações”, relembrou Ademar Carlos de Oliveira, que na ocasião atuou na comissão de São Bernardo do MNMMR (Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua), grupo que articulava as atividades. Oliveira foi secretário de Inclusão Social na Prefeitura de Santo André de 2008 a 2010.
VIVÊNCIA
Já Markinhus, do Projeto Meninos e Meninas de Rua, participou em 1986 da mobilização para o reconhecimento do direito das crianças na Constituição Federal, enquanto ainda era um jovem em situação de rua em São Bernardo. Porém, em 1989, ele retornou à mobilização popular em defesa dos jovens, só que dessa vez como educador social.
“A participação dos movimentos sociais, comunitários, intelectuais e religiosos do Grande ABC nesses dois importantes momentos da história do País foi direta, desde a concepção até os encontros em outros locais. Inclusive, estávamos presentes com 11 pessoas no Segundo Encontro Nacional de Meninos e Meninas de Rua que aconteceu em 1989, em Brasília”, disse o coordenador, que relembrou ainda que na ocasião o movimento levou uma faixa com o nome de todas as crianças assassinadas no Brasil no período.
Nesse evento, milhares de crianças em situação de rua de todo País tomaram a Plenária do Congresso Nacional e fizeram a votação simbólica do ECA, que foi criado um ano depois, em 1990. “Além dos jovens brasileiros, crianças e adolescentes de outros países da América do Sul, como Peru e Bolívia, também participaram. Essa foi a principal pressão em cima do parlamento e do presidente, na época o Fernando Collor de Mello (1990 a 1992), que aprovou o ECA em 13 de julho, mas que entrou em vigor em 90 dias da data, ou seja, no dia 12 de outubro, exatamente no Dia da Criança”, reforçou.
O Teatro Elis Regina, no bairro Assunção, em São Bernardo, recebe até o dia 29 de agosto a exposição Eureca – um ABC para o Brasil, que celebra a história do bloco carnavalesco promovido há 33 anos pelo Projeto Meninos e Meninas de Rua no centro do município. A abertura do evento ocorreu no sábado (12), das 15h às 19h.
A mostra reúne fotografias, recortes de jornais, vídeos, peças físicas e documentos históricos, além de dez obras de arte inéditas criadas por artistas do Grande ABC. Inspiradas nos arquivos do Eureca, os trabalhos oferecem leituras contemporâneas e sensíveis da trajetória de luta por direitos das crianças e adolescentes.
O presidente do Projeto Meninos e Meninas de Rua, Weber Lopes Góes, conta que a exposição vai abordar o surgimento do Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua e os momentos de mobilização para consolidação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).
“Essa exposição destaca a relevância do projeto para a garantia e promoção dos direitos do público infantil não só em São Bernardo, mas também em todo o Grande ABC. O Bloco Eureca (Eu Reconheço o Estatuto da Criança e do Adolescente) é uma manifestação cultural que promove reflexões por meio de um processo permanente de formação crítica com crianças, jovens e adultos e mobilização social”, disse Góes.
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